sábado, 31 de dezembro de 2011

Meia dúzia de palavras com que engalinhei em 2011

Portuguesas e portugueses
Narrativa
Aníbal Cavaco Silva
Chef
Alavancagem
Sustentável
Brutal
Angélico
Seja lá o que isso for
Parte do problema | parte da solução
Já não te amo; apaixonei-me pelo Luís
O psi20 segue em perda
Zona de conforto
Politólogo
Atingimento
Sónia Brazão
Campus
Basicamente
Alzheimer

Wlggutbwiotb .vço8

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Tetas e entretenimento

«O consumidor construído pela publicidade é um indivíduo em estado de regressão a um narcisismo primário, em que triunfa o princípio do prazer.
[...]
a sociedade infantilizada pelos mecanismos da publicidade, do consumo e do discurso político que segue a lógica da despolitização é um imenso ateliê de ofícios artísticos. Em suma: um parque infantil. Tanta actividade artística faz-nos temer aquilo que Nietzsche exprimiu nestes termos: “Se acreditarmos que a cultura tem uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura”»

Barack Obama analisado por David Bromwich

«Em vez de fazer campanha em poesia e governar em prosa, Obama fez campanha em Shakespeare e governa em Dan Brown.
[…]
Quando Obama, invocando o seu Pedro Santana Lopes interior, afirma que “não podemos ganhar o futuro com o Governo do passado”, Bromwich expõe a vacuidade com duas óbvias interrogações: o que é, exactamente, um “Governo do passado”? E o que é que pode sequer significar a expressão “ganhar o futuro”?
[…]
Como é, então, o Obama de Bromwich? A conclusão irrefutável para quem tenha acompanhado a obra acumulada é a de que é o homem errado, no momento errado, tropeçando na actividade errada.
[…]
E parece não ter o temperamento necessário para compreender que, se uma afirmação precisa corre o risco de colidir com a vontade de alguns, uma afirmação vaga corre o risco maior de colidir com a vontade de todos. A degeneração das suas inquestionáveis faculdades retóricas é uma consequência directa desta incapacidade; nenhuma retórica sobrevive muito tempo ao desgaste de nunca querer contrariar ninguém.»

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A greve dos maquinistas

«o desemprego em massa dos ferroviários é uma hipótese real e não uma utopia linda. Embora não se preveja para amanhã um mundo feliz em que, à revelia de ecologistas, urbanistas e lunáticos em geral, cada cidadão possua viatura própria e combustível barato, não é absurdo esperar que, depois de amanhã, os avanços tecnológicos tornem anacrónica a condução de locomotivas por seres humanos e potencialmente dados à chantagem. O automatismo já vai sendo experimentado aqui e ali com notórios benefícios (já no que toca aos operadores de revisão e venda, no Porto conhecidos como picas, é provável que o estádio actual de desenvolvimento científico ainda não permita conceber a tecnologia capaz de contemplar um bilhete e furá-lo de seguida, mas lá chegaremos).»

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Acordo Ortográfico [26]

«o status quo ortográfico, no universo da língua portuguesa, vai manter-se com três grafias oficiais e divergentes: a portuguesa propriamente dita, a vigorar plenamente em Angola e Moçambique; a brasileira propriamente dita, institucionalizada e praticada no Brasil desde há décadas; e, last but not least, a imbecil, utilizada e imposta em Portugal por políticos que não sabiam nem sabem o que estão a fazer, que atropelaram a Constituição e a Lei e que só fazem jus ao qualificativo de irresponsáveis sem escrúpulos.»

Perdi os óculos.

Preciso deles para os achar.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Luminária

«Acho que o doutor Fernando Gomes tem uma capacidade muito grande para compreender e entender todo o futebol, no seu todo.»

A coisa mais feia que ouvi nestes dias

Fui eu que dei.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Troca de presentes

- O tio Luís telefonou a perguntar se temos a certeza de que o dildo era para ele.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Caras e caros concidadãos,

apresento-lhes, aqui e agora - tantantantã -,
António José Seguro! 

Não haverá memória de tão fraco líder.
Foi esta empertigada e isoeléctrica mediocridade de nome triplo, atributo patenteado nos viveiros do PPD/PSD, que os socialistas puseram a falar por eles, quando – céus! – até tinham lá um de Assis.
Hão-de pagar caro pelo desvario.

Nesta passagem,
São necessárias políticas que olhem para além do défice, criando riqueza em vez de ficarmos mais pobres, apostando no crescimento económico, no emprego e mobilizando os portugueses. [E as portuguesas, pá?],
mais propriamente na expressão «mobilizando os portugueses», olhei à direita para a árvore de Natal, que parece uma orgia de vivacidade ao lado do funéreo Seguro. Pus em pausa e percebi uma coisa: qualquer arbusto que os socialistas tivessem elegido para os dirigir lhes asseguraria decerto maior elã.  

Eu tenho confiança nos portugueses e nas portuguesas. Esqueceste-te d@s portugues@s, pá.

Caras e caros concidadãos, é com um forte espírito de simpatia  não se diz, foda-se.

A gente sabe que o António José Seguro tem um fraco pela palavra firme e um fraquinho pela palavra forte. Mas isso não dá para nada.

«Um Natal triste»

«[…]
Os votos de boas festas por email ou SMS são feitos a listas e não a pessoas, listas aliás nem sempre bem mantidas, com endereços repetidos e antigos, mandados como se fosse um robô a mandar, sem qualquer pessoalidade. É como os "amigos" do Facebook, listas e enumerações sem significado afectivo, apenas com valor social, mostrando como o "eu" electrónico que os manda é tão popular que colecciona centenas e mesmo milhares de relações *.
[…]
dizer que os portugueses são um povo especialmente solidário não corresponde à verdade. Não somos, nem fomos, nem provavelmente vamos ser.
[…]
Entre o Natal e o ano novo muitas decisões vão ser tomadas por pessoas e famílias. Não são decisões daquelas a que associamos o ano novo: ano novo, vida nova. É mesmo vida nova, mas não é uma vida escolhida, é uma vida nova forçada. Tirar o filho do infantário. Dizer à filha que já não vai poder ir para a universidade ou o politécnico, porque não há dinheiro para a manter em Santarém, Covilhã ou Aveiro. Aguentar mais um ano com o mesmo carro a cair, por muito que custe perder a oportunidade de comprar outro antes dos impostos aumentarem. Despedir um velho empregado, fechar a mercearia que já era do pai, e entregar tudo ao fisco que já de há muito tem uma execução em curso. Entregar a casa ao banco e vê-la numa lista de leilões do fisco no Correio da Manhã por menos dinheiro do que o valor do empréstimo. Voltar para casa dos pais. Penhorar a jóia que era da avó ou vender a volta da filha numa loja que compra ouro. Aceitar o mesmo trabalho com metade do salário. Dizer que sim aos expedientes do patrão que despede e depois reemprega de seis em seis meses para não pagar obrigações de segurança social. Engolir a consciência sindical, e portar-se bem no emprego, não vá o chefe notar. Deixar de ter ajuda no trabalho doméstico. Fazer qualquer coisa, colares, artesanato, compotas, para ir vender na feira que agora a autarquia organiza na rua uma vez por semana. Desistir de fazer qualquer coisa, colares, artesanato, compotas, porque não se vende nada e fica caro comprar os materiais e as compotas estragam-se. Ver que remédio se pode cortar para diminuir a conta da farmácia. Deixar de pagar a renda, deixar de pagar a electricidade, o gás, a creche. Deixar de pagar aos fornecedores. Deixar de pagar o condomínio, que deixou de ter dinheiro para pagar a manutenção dos elevadores. Subir três, quatro, cinco, seis andares da escada com as compras porque o elevador está avariado. Deixar ficar o vidro partido na janela. Matar-se. Emigrar. Desistir. Resistir.
São estas as decisões deste Natal, de um Natal triste. Há uns imbecis nos blogues que acham que falar dos problemas concretos das pessoas que não são fils a papa, publicitários, gente de glamour, neoliteratos, assessores de várias eminências, yuppies sem mercados, consultores, advogados de sucesso, é neo-realismo. A única coisa que se lhes pode perdoar é não saberem o que a palavra significa, mas tudo o resto não é perdoável nem mesmo com muito "espírito de Natal".
[…]»

* Os urbinorbinos; ei-los.
__________________________
Acompanho o José Pacheco Pereira há 35 anos. Ia para dizer que tanto me decepciona quanto o admiro, mas seria injusto e pedante. Gosto muito mais do que desgosto do Pacheco Pereira.
Por isso, muito obrigado, José Pacheco Pereira, por este texto inquietante; e muito obrigado pelo que me tem ensinado, pelo que me tem ajudado a pensar, a sentir ... e a discordar de si.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Informamos os nossos estimados clientes,

já agora, de que, se faz favor.
É por isso que prefiro a elegância, a correcção e a objectividade da prosa da Rodoviária de Lisboa que informa o mesmo que os outros com menos 11 palavras.
Um país de estimados clientes torna-se cansativo; tanto como o que pede compreensão * pelos incómodos causados.
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* Pedir desculpa tornou-se uma obsolescência. O marketing moderno desaconselha – é a mesma escola que execra o “trabalhador” pondo-lhe no lugar o domável, invertebrado e castrado “colaborador”.

Pessoas que dizem As minhas desculpas em vez de Peço desculpa operam, a meu ver e, haja Deus, geralmente inconscientes disso, uma discreta mas nem por isso menos sobranceira inversão do ónus, como se em vez de pedir perdão estivessem a concedê-lo.
Sei que não será por mal, mas na génese a coisa está lá.
Peço desculpa pela eventual injustiça desta opinião.

Acordo Ortográfico [25]

«Estes linguistas que engendraram um acordo ortográfico que nos foi politicamente imposto têm uma ideia tão pindérica e instrumental da ortografia que jamais perceberão o ‘hénaurme’ em vez de ‘énorme’, de Flaubert […]
Estes linguistas que colocaram os seus bons ofícios científicos ao serviço da elaboração deste Acordo são avatares anedóticos daquela que já foi considerada a “ciência farol das ciências humanas”.»

Todos e todas, colegos e colegas, presentas e presentos

Quem faz questão de saudar o auditório com «Bom dia a todas e a todos!» terá decerto muitas e apreciáveis faculdades, entre elas a de ser ridículo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Na caracterização das «Dez desgraças»

que arrolou na Sábado de hoje, o José Pacheco Pereira diz uma coisa que me apetece enfatizar, ainda que sem nenhuma da velada ironia com que ele a diz.
Mas não diz uma outra porque acho que lhe custaria dizê-la, com ou sem ironia.  

A coisa que o JPP diz:
«Podíamos encerrar as embaixadas, fechar o ministério e acabar com as forças armadas.»
E porque não se haveria de acabar com elas já? Para que serve, afinal, a tropa? Mal irá Portugal se ou quando precisar dela. Enfim, serviu numas breves horas em 25 de Abril de 1974 - e julgo que está mais do que bem paga por isso -, mas não lhe sei de mais nada que justifique a mastodôntica despesa com ela.
Para socorrer uns náufragos e ajudar nos fogos é preciso tanto e tão caro estardalhaço?
A necessidade de exército, subsumindo nele a tropa do ar e da água, é porventura o sinal maior de quão atrasado e miserável continua o homo sapiens.   

A coisa que o JPP não diz.
«a corrupção da alta esfera dos anos 90 do século XX continua com praticantes dedicados. Eu costumava dizer que mais cedo ou mais tarde a coisa dava para o torto, tanta era a ganância. E para algumas personagens principais deu mesmo para o torto. Mas nem para todos, nem para muitos dos seus dedicados colaboradores e encobridores, que esses andam por aí como homens de muito sucesso empresarial.» - JPP
E que não diz o Pacheco Pereira e se calhar deveria ter dito, sei lá, talvez assim?:
tanta era a ganância. E para algumas personagens principais deu mesmo para o torto. Mas nem para todos, nem para muitos dos seus dedicados colaboradores e encobridores ou para, por exemplo, a levedura “Cavaco Silva” com que boa parte deles medrou, que esses andam por aí como homens de muito sucesso e virtude.

Tenho dito.

PS
El pesetero…
Claro que não poderia estar mais de acordo com a seguinte passagem do Editorial da Sábado de hoje:
«Durante anos, Luís Figo aceitou ser a cara do banco [BPN], aparecendo em várias publicidades a recomendar aos portugueses que confiassem na instituição fundada por Oliveira e Costa. Para um banco que era frequentemente alvo de rumores sobre a forma como actuava, este empréstimo de credibilidade podia ser a diferença entre alguém colocar as suas poupanças ali ou noutro sítio qualquer. Como Luís Figo não tinha poderes de supervisão ou de adivinhação, não se exigia que recusasse as propostas do BPN. Mas já se podia exigir que, depois de as autoridades perceberem que se tratava de um banco fora-de-lei, o antigo jogador ensaiasse pelo menos um pedido de desculpa por ter involuntariamente ligado a sua imagem a uma instituição pouco recomendável.»

Alberto Gonçalves, gourmet

«Não gosto […] da transformação dos cozinheiros em chefs e da transformação dos chefs em ídolos pop.
[…]
De repente, inúmeros sujeitos que até aí se limitavam a misturar ingredientes em tachos e frigideiras adquiriram uma vestimenta janota, um ofício com designação afrancesada e o tipo de celebridade que antigamente apenas iluminava artistas de variedades e jogadores da bola.
[…]
Hoje, há hordas de chefs, sem “e” e com uma afectação superior às respectivas proezas.»

Inverno à lareira

- Solstice-o você.
- Eu!?
- Sim, você.
- Sei lá como se solstiça, ninguém me ensinou a solstiçar.
- Nem a mim, e no entanto.
- No entanto o quê? Estultícias…
- Desculpar-me-á, mas só as estultiço depois de você o solstiçar.
- Solstiçar quem ou o quê, afinal?
- O frio, ora.
- E se atiçasse os tições?
- Atice-os você que está mais perto da tenaz.
- Atenazo, nesse caso.
- Essa foi pertinaz.
- Cale-se e crepite! Este lume tem cá uma lábia...
- Sabe-a toda.
- Antes ou depois de as estultiçar?
- Como queira, tanto faz. Onde arrumou a tenaz?
- No sítio dela. Então, se não levar a mal, primeiro sabo-a, depois estultiço-as.
- Mas despache-se, que eu já o solsticei.
- Cálice, bela palavra.
- É.

Prá Ana.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pão insolvente

Nada havia já a esperar daquela padaria quando os trabalhadores sem salário e os credores a arder não tinham mais ninguém com quem falar senão o administrador da massa falida.

«Cliente seguinte»

Quando, ontem à tarde, na fila longa e exasperante para a caixa do supermercado, a menina interpôs, finalmente e para meu alívio, a barra de plástico entre o nestum de mel do rapaz à minha frente e os meus guardanapos, as garrafas de vinho tinto, os bifes da vazia, o descafeinado, as delícias do mar e os fósforos, lembrei-me de Brel, irrompeu-me um trauteio jubiloso na lembrança, e voltei a achar, para lá de que a vida é um absurdo, que Deus é injusto a valer. Se não fosse, Jacques Brel estaria vivo.
Au suivant

Resistência à mudança

Belo exemplo é o do homem que depois de 35 anos a enterrar corpos com brioso e irrepreensível profissionalismo revela uma incapacidade casmurra de adaptação à tecnologia de os cremar.
Assim é que o velho e diligente coveiro, dada a inadaptação superveniente e insuprível aos novos procedimentos de trabalho e inviabilizada a reconversão profissional em cremador, corre, nos termos e ao abrigo do artigo 373.º do Código do Trabalho, risco sério de despedimento com justa causa.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

9 de cada 10 estrelas usam *

«Aquele que é considerado o jornal mais respeitado e influente do País é, a partir de hoje, um jornal direccionado para o futuro.»
Qual é, qual é?
Este? Frio…
E onde é que isto vem hoje publicado, onde?
Aqui? Morno…
A quem acertar no qual e no onde facultarei de borla, com gosto, o link permanente para a melhor crónica diária na comunicação pública de Portugal.
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Paralelo 38 N

Podiam aproveitar para mudar o nome da parte de cima para Kimreia.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Se vive mais quem sabe evitar os sítios

que a morte frequenta, a primeira medida a tomar é fugir de si mesmo.

Não ganho emenda: a música do Rodrigo Leão é uma merda.

Se, com esta proclamação de lesa-gosto da pátria culta incorro nalguma coima, que se foda; como diz o outro, estou-me marimbando, não pago.
Mas o que não falta ao rodrigoleonismo, que nem minimal-repetitivismo alcança ser, tomara ele, é aparato e boa imprensa. E, sim, produção excelente.
Por exemplo, o João Gobern, sujeito simpático, muito sabido e de gosto geralmente recomendável, não será propriamente o melhor paradigma de êxtase acrítico. Bem pelo contrário, tenho-o por ponderado e exigente. Mas com o Rodrigo Leão o sentido crítico parece deslassar-se-lhe. Ainda anteontem, na 2.ª hora do Hotel Babilónia, chegou a afligir a bajulação prostrada, quase religiosa, do Gobern e do Pedro Rolo Duarte, ao convidado RL. E no Correio da Manhã do mesmo sábado escrevia JG acerca do Leão: … um melodista intuitivo e feliz'A Montanha Mágica' é outro capítulo sublime
Melodista, o Rodrigo Leão? Sublime? O João Gobern não faz a coisa por menos?
Se o músico Leão é isso, que qualificações usar para, por exemplo, Tom Jobim?
Se a música que o RL cria é sublime - tenhamos tento -, então o Rão Kyao é o Bach dos pífaros.

A influência da tribo continua impressionante…

Cá para mim, que arranho uns acordes, valem mais em melodismo e em sublimidade quaisquer quatro compassos seguidos do José Mário Branco, por exemplo, do que todas as partituras do Rodrigo Leão.   
Já a densidade discursiva e filosófica do homem – que, para piorar as coisas, dá todo o ar de se levar a sério - faz do Tony Carreira um exegeta.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Por amor de Deus, padre Policarpo!

Eu também não conheço nenhum caso de micose na minha freguesia.

'Palavras-maná'

«Que se dê o nome de palavra-maná ao significante flutuante [Claude Lévi-Strauss] mostra bem como este é dotado de uma mágica substância mística.
[…]
Para Cavaco, foi a ‘modernização’, para Guterres, a ‘solidariedade’, para Sócrates, a ‘tecnologia’, para Passos Coelho, a ‘reforma’. A existência de significantes flutuantes deve-se a uma fundamental inadequação entre significantes e significados, isto é, a um excesso de significantes e a uma falta de significados. Saber tirar partido desta condição é a grande arte dos feiticeiros, dos xamãs, dos profetas.»

... Para não falar da permanente e despótica hipnose da 'mudança'.

Fazemos então uma revolução para encontrar novas combinações de linguagem.
Gonçalo M. Tavares, “Como se faz uma revolução – sobre artesanato explosivo| Notícias Magazine, 18.Dez.2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

Teoria da conspiração

«A primeira vez que ouvi uma teoria da conspiração digna desse nome foi em Janeiro de 2002. Na altura vivia num amorfo subúrbio de Birmingham, no Reino Unido, onde alugara casa a uma família muçulmana, de quem me tornei vizinho e inquilino durante seis meses. Isto foi unanimemente interpretado (por mim próprio) como um gesto de grande coragem, com potenciais repercussões internacionais; vivia-se, por motivos óbvios, um período em que qualquer contacto intercultural dramatizava numa escala reduzida importantes tensões geopolíticas. Naturalmente, dediquei os primeiros dias de convívio cauteloso a averiguar se os meus exóticos vizinhos planeavam matar-me com bombas e destruir a civilização ocidental.
[…]
Acredito que se houvesse câmaras de circuito fechado espalhadas por Camarate em 1980, dois desgraçados apanhados a festejar uma vitória do Benfica ainda hoje fossem objecto de comissões de inquérito.»

Depois enterrei a placenta no jardim

«[…]
Escrevo quando me apetece, em geral não me apetece. Não tenho ambições de fama, nem de dinheiro. Tenho 16 ou 18 livros, talvez sejam 19 ou 17.
[…]
Mandei o grande chefe à grandessímima [!?] bardamerda e fui trabalhar para mim próprio.»

Tempo contado, blogue de J. Rentes de Carvalho

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sem novidade


Não é própria das penas a suspensão?

Fernanda Câncio








PS
pequenino cá muito em baixo, quase a despropósito, sem intenção de maldizer, só de dizer.
Decepciona-me a muda * e siderada indiferença com que o Jugular - muito em especial a sempre vigilante, indignável e aguerrida brigada xisxis do blogue - tratou do assassínio pelo Islão, há quatro dias, de mais uma mulher.
Sobrelotação de agenda e o provável facto de não haver grande coisa a dizer da bruxa Amina bent Abdelhalim Nassar talvez expliquem o silêncio.
Como se no Jugular houvesse obrigação de falar sobre o que quer que seja. Porque não te calas, Plúvio? 

* mamuda? Apre.

Em tempo
E-mail no algeroz a perguntar se estou certo de que aquilo - obituário de Christopher Hitchens - é mesmo um auto-retrato da Fernanda Câncio.
OK, não é. É uma metempsicose.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Facebook, twitter,

frívolas manifestações de uma generalizada ânsia de protagonismo às vezes verdadeiramente patética.

«O que nos diz Fischer [Luís Augusto Fischer]? Que parou no correio electrónico e não encontra graça ou interesse algum no facebook, no twitter ou no blogue. Ressalvando este último (que, creio eu, é já um espaço de comunicação influente, com tendência para melhorar muito), revejo-me no que diz o cronista. E vou mais longe: para além de serem, a meu ver, uma abdicação ligeira e um pouco tonta de uma privacidade que deveria ser inegociável, twitter e facebook parecem-me, na esmagadora maioria das utilizações (há excepções, claro), frívolas manifestações de uma generalizada ânsia de protagonismo às vezes verdadeiramente patética. A quem interessam as fotos das férias e os comentários (em 140 caracteres!) de cidadãos vulgares de Lineu, que se acham o centro do mundo? * É assim que se chega à notoriedade que todos parecem desejar, indo além dos tais 15 minutos de glória? Estamos conversados.»
Carlos Reis | JL, 14.Dez.2011

* Qualquer dia hei-de falar aqui dos urbinorbinos.

Turpilóquio, substantivo masculino

- bom para a alma, bom para a pele;
- no momento azado, no desmando, na raiva e no prazer;
- para o entalanço, a picada, a martelada, a topada e a cabeçada;
- no revés e no regozijo;
- no êxito e no fracasso;
- ao cair-se, ao doer-se e ao vir-se;
Ámen.*
_____________________________________________
* Não fosse o Espírito Santo, sempre divino, severo e loquaz, ter-me atalhado a língua, veria o caríssimo leitor se o verbete não rematava por valente e estrídula caralhada.
E você, confesse, há quanto tempo não avistava um turpilóquio?

Que faremos quando tudo arder?*

Logo se verá.
Participei hoje num simulacro de incêndio.
As sirenes buzinaram a preceito, a evacuação do edifício foi rápida [ninguém ficou retido nas retretes], o pânico contido; as ambulâncias foram lestas, os bombeiros e o pessoal de enfermagem prontos e eficientes; os feridos portaram-se bem, os dois mortos - foi muito bem feito!, não se tivessem metido no elevador. - mantiveram-se serenos; os extintores funcionaram...
Só não correu melhor porque o fogo não houve meio de pegar.
__________________
*

Natal

«Misto de provação física e dilemas morais, o Natal arrasa com qualquer um. Se procuravam o feriado cuja abolição merecesse aplauso unânime, mesmo que silencioso, da população em peso, ei-lo.
Veja-se, a título de contraste e exemplo, o aniversário da implantação da República, que o dr. Soares reputou de sagrado. Ninguém repara no seu significado, ninguém lhe presta atenção, ninguém altera o quotidiano a propósito de uns rústicos que ocuparam a câmara lisboeta há um século e pico. Sagrado é o termo exacto, visto que no 5 de Outubro ninguém toca. Aí, faz-se aquilo que os feriados autênticos convidam a fazer: nenhum.
Já o Natal é uma canseira. Dedicar-lhe um dia teoricamente devotado ao descanso é uma ironia cruel e escusada, que o Governo devia suprimir sem demora. Ainda vai a tempo.»

Também sinto que o Natal se transformou, nos últimos 50 anos, com perversão do seu significado histórico – enfim, para-histórico – num transtorno psicótico colectivo induzido e fomentado, com sucesso galáctico, pela indústria e pelo comércio.
Isso mesmo, pelo demónio dos mercados.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Haikai, haiku, ai ...

Que seria
de mim sem ti?
Ai que seria?

Museificação e patrimonialização [do fado, por exemplo]

«O homo culturalis é uma espécie triunfante, em estado de proliferação cancerosa. É a forma encarnada do filisteísmo. Onde quer que ainda exista vida, experiência e aura, lá estará o homo culturalis para edificar um museu, uma reserva, um parque.»

sábado, 10 de dezembro de 2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Viagratura

a qualquer hora.

«As palavras com que me aborda são delicadas

[...]
A menina já provou mão de vaca com grão, é uma delícia, diz por fim. A autofagia do bicho entristece-me. Ouço-o em silêncio. Linda, a pronúncia do norte.»

Os pilotos da TAP

Crítica literária e variedades

«Houve um tempo, ainda não muito distante, em que o motivo de debate eram as metodologias da crítica e o modo como ela se situava no interior das ciências humanas (era o tempo em que a diferença entre a “crítica impressionista” e a “crítica universitária” tinha um valor importante na economia dos discursos). Esse tempo, e tudo o que nele estava em jogo, tornou-se caduco, ultrapassado pelas circunstâncias. E nada representa melhor essa caducidade do que as famigeradas estrelas, as listas, os balanços anuais, as antecipações de “o que aí vem”. Com estes métodos de classificação e de hierarquização, a crítica, que tinha consistido em transformar a opinião em conhecimento (como dizia Samuel Johnson), é solicitada a fazer o contrário: transformar o conhecimento em opinião.»

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Rogério Casanova

Em português actual.

- "Cartografia elegíaca" [Sobre Michel Houellebecq, prémio Goncourt 2010]
Em português atual.

Na LER de Dez.2011

Que

podem ter tido em comum sátrapas carniceiros como Nicolae Ceausescu, Mobutu Sese Seku ou Jonas Savimbi, se se lhes juntar o apenas corrupto Betttino Craxi?
Isso mesmo, caro e informado leitor: de todos eles o fixe Marocas, pai da democracia portuguesa, em quem votei sempre e continuaria a votar, se reclamou a seu tempo estrénuo admirador e amigo.
Por isso, quando o óptimo do Carlos Vaz Marques resolveu abrir a conversa com o doutor Mário Soares, na LER deste mês, pela questão da amizade,  
Carlos Vaz Marques- Fez mais amigos ou inimigos ao longo da vida?
Mário Soares- Inimigos, acho que tive muito poucos. Amigos tive muitos felizmente.
[…]
CVM- Distingue entre amigos pessoais e amigos políticos?
MS- Não. Nunca distingui. Os amigos são os amigos. Podem ser também correligionários mas isso é um acaso. Tenho muitos amigos em todos os domínios.
[…]
CVM- Já lhe aconteceu rever a posteriori a imagem que tinha de alguém por aquilo que se soube depois da sua morte?
MS- Não. -,
seria de esperar certo frisson com a vinda à liça de gente bondosa e recomendável como aquela, mas a expectativa gorou-se. Nenhum dos citados nomes é referido*, bem como nem uma palavra acerca de outros dilectos como Frank Carlucci, Carlos Melancia ou, em plano antípoda, Salgado Zenha, por exemplo.
Nada de nada, nem um só dos inconvenientes; só convenientes ou anódinos. Mas que decepção, ó Carlos Vaz Marques. O Carlos bem que ainda tentou puxar-lhe pelos mortos… Chamei-lhe ali atrás óptimo mas desta vez, tenha paciência, não conseguiu ser senão bonzinho.     

Ainda MS:
Eu conheci o Saramago – éramos mais ou menos da mesma idade – muito antes do 25 de Abril. Ele estava ligado às coisas editoriais e estava numa livraria qualquer.
Acho que fica muito mal ao doutor Mário Soares, que se enfeita de próximo e por vezes íntimo conhecedor do meio intelectual, literário e artístico português em mais de metade do século XX, o desplante desdenhoso – estava numa livraria qualquer - com que se refere à Estúdios Cor, a que o José Saramago esteve ligado de 1955 a 1971 e de que foi director editorial durante 12 anos. Tê-lo feito numa entrevista à LER não lhe suaviza a sobranceria.
_________________________
* Perdão, nenhum dos referidos nomes é citado; isto é, nenhum dos citados nomes é referido; ou seja,

domingo, 4 de dezembro de 2011

Aquilo de Camarate, atentado à inteligência

Passos Coelho admite reabertura de comissão de inquérito.

Às 20:17 de quinta-feira, 04 de Dezembro de 1980, um minuto depois de muito, muito a custo se ter erguido a uns 40 metros do chão, uma avioneta de matrícula venezuelana, podre de desmazelo e maus tratos, despenhou-se em Camarate, com sete pessoas a bordo que tiveram morte imediata por falência múltipla e convergente de órgãos, no cumprimento natural de determinações elementares de ordem física, bioquímica, metabólica e estocástica; quiçá, até, divinas.
Se se tiver devido a sabotagem ou a atentado o despenhamento desta caranguejola podre, então não haverá trambolhão de trotineta que não resulte de urdidura do Olimpo, qualquer escorregadela no duche só pode acontecer por mancomunação dos astros e nenhuma amora, por mais madura, se desprenderá sozinha da sarça sem conluio dos pinguins.
Se aquilo foi sabotagem, passe-se à categoria de sabotagem toda e qualquer queda de aeródino que não tenha resultado ou resulte de bomba ou de fisga, desde o dia em que Ícaro voou até ao dia da eleição da Carmelinda Pereira para a Presidência da República Portuguesa.
Isto constitui a saga mais demencial - momentaneamente interrrompida no tomo IX, 31.º ano - de que há registo ou memória nos 870 anos mais recentes de Portugal.
A reboque da orfandade serôdia, da beatice contumaz e do proselitismo alucinado de meia dúzia de doentinhos, açulados pelos Cides e Sás Fernandes desta vida, um país ensandecido – do Freitas do Amaral ao Bloco de Esquerda, do Mário Soares ao Marcelo Rebelo de Sousa, do Baptista-Bastos ao Daniel Oliveira – continuará a malbaratar, sabe-se lá até quando *dinheiro a rodos e energia pensante na confabulação e no fabrico à força de explicações ridículas, patéticas, sem pés nem cabeça, ante a indiferença bovina do povo em geral e a conformidade invertebrada de praticamente toda a comunicação social.

Mas OK, arranquem lá, depressa e em força, com a 10.ª Comissão Parlamentar de Inquérito – sempre se distrairá o pagode da crise. Nem será difícil encontrar pelo menos dois novos maluquinhos inimputáveis, Fui eu que fiz a bomba. / Fui eu que a pus a bordo., desta vez para tratar do sarampo ao Amaro da Costa por causa de umas merdas incómodas em que andava a mexer. E depois, porque a investigação pericial e a inquirição judicial, a soldo de mefistofélicos desígnios, ainda não se persuadiram do atentado, avance-se para a 11.ª CPI e para a 12.ª e para a 13.ª e para a 14.ª e para a 15.ª.
E se sobrevier uma sombra de dúvida quanto ao alvo Amaro da Costa, prossiga-se para a tese de atentado contra a Snu por parte de um amante desconhecido com dor-de-corno do Sá Carneiro. Aí abrirá, por consenso universal, a 16.ª CPI, com mais um maluquinho que fabricou a bomba e outro que a colocou na avioneta, e depois a 17.ª e depois a 18.ª, havendo que aproveitar o balanço, a experiência e o prodigioso saber entretanto adquirido para, com a eterna cooperação sempre desinteressada do omnímodo e ubíquo Ricardo Sá Fernandes e através de quantas comissões de inquérito forem necessárias, esclarecer finalmente o desaparecimento de Dom Sebastião, o sumiço do Nessie e o paradeiro do ponto G; com punição severa de todos os culpados, a começar pelos tribunais, pelos peritos em aeronáutica e pelos cães pisteiros.

E assim sucessivamente, até à transferência do caso para este departamento.
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* Até, talvez, conforme sugeriu em tempos o Miguel Sousa Tavares, à publicação de uma lei de dois artigos:
Artigo 1.º - Camarate foi atentado.
Artigo 2.º - Quem desdisser ou não acreditar vai preso.

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Televisão de sarjeta, jornalismo de pocilga

«Porque é que o facto de algumas dezenas de espectadores destruírem outras tantas cadeiras num estádio de futebol é, nas notícias televisivas, um assunto prioritário?
[...]
É preciso falar de violência. Sem dúvida. Mas não através dessa lógica gratuita que mostra uma bancada chamuscada de um estádio para nos deixar, indefesos, com a noção determinista de que já passámos para além do apocalipse social.»

«No que importa, a história dos pescadores resgatados de uma morte anunciada teve um final feliz. No que não importa, ou não devia importar, o final tendeu para o melancólico. Foi triste ver o reencontro daqueles homens com as famílias e os amigos entregue à voracidade das televisões, que sem um pingo de respeito usurparam a privacidade de indivíduos exaustos e indefesos. A chegada destes a Vila do Conde transformou-se num espectáculo organizado para consumo alheio, ao qual nem faltou o típico autarca a debitar banalidades oportunistas acerca "desta gente". "Esta gente" era, de resto, a designação obrigatória usada pelos repórteres, que pareciam referir-se a uma espécie à parte, ali exposta à curiosidade das pessoas restantes e "normais". Involuntariamente, estavam correctos.»
Alberto Gonçalves, “O salvamento que acabou mal| DN, 04.Dez.2011