sábado, 31 de março de 2012

Emídio Rangel,

assinatura ilegível, estilo acutilante e correspondentes desculpas
- à Isaura Madeira e ao Nelson Delgado, 26.Mai.2011
e
- ao Manuel Alegre, 31.Mar.2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Wolfgang Beltracchi,

Gostos

Abomino o Parabéns a você, adoro a Patética do Tchaikovsky, detesto a Roberta Medina, gosto da palavra infame, gosto do João Paulo Guerra e da voz da Lara Li esta manhã a Ana Bacalhau a dizer no DN «Os animais são seres vivos e têm sentimentos, só quem não convive com eles é que acha o contrário». Pois eu convivo com, entre outros animados e heteróclitos seres, várias torneiras de água, uma tartaruga e um frigorífico que faz ronrom e não acho o contrário apesar dos sentimentos contraditórios oriundos de ter almoçado hoje bacalhau à Zé do Pipo.
Ah, como é linda a chuva!
E daí? Daí, nada; no máximo, muito pouco.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Alberto Gonçalves

«[…]
Recusar o TGV implicaria recusar os “fundos” europeus destinados a financiar um pedacinho do TGV, corrente de pensamento segundo a qual é preferível incendiar a casa a desperdiçar o seguro.
[…]»
Alberto Gonçalves, “Na morte do TGV| revista Sábado, 29.Mar.2012

«O dia mais triste das frases em português»

Há um comentário do José Bandeira.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Tal como o magnífico Chico Anysio, quatro dias antes,

o grande, grande Millôr Fernandes morreu, ontem, de pleonasmo, circunstância que recomenda e me impele a uns minutos de recolhida leitura da Bíblia – acresce estarmos na Quaresma -, na, pelos cânones da mais exigente exegese hermenêutica hodierna, melhor das versões que algum dia se publicaram e que tenho a suma felicidade de possuir na estante.
Felicidade é comigo.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Democracia, demofobia, tagarelice

«[…]
A demofobia, bem visível em todas as circunstâncias da prática democrática da governação e não apenas no momento das greves, mostra que aquilo a que chamamos democracia releva de uma profunda ambiguidade, que um lúcido filósofo italiano definiu nestes termos: ela é, por um lado, uma racionalidade político-jurídica e, por outro, uma racionalidade económico-governamental. O problema é que estas duas racionalidades se tornaram completamente heterogéneas, opostas, de tal modo que aquilo que política e juridicamente é legítimo e constitui a democracia acaba por ser negado no plano económico-governamental.* Num momento como o que vivemos, em que esta última é a regra e o critério de tudo, a democracia, como já todos percebemos, não passa de tagarelice.»
António Guerreiro | Expresso/Atual, 24.Mar.2012
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* Talvez por sobrestimar os seus leitores, António Guerreiro se tenha dispensado de informar que o lúcido filósofo italiano é Giorgio Agamben que, a dado passo deste livro, escreve:
«[…] Il sistema politico dell’occidente risulta dall’articolazione di due elementi eterogenei, che si legittimano e danno consistenza a vicenda: una razionalità politico–giuridica ed una razionalità governamentale, una ‘forma di costituzione’ e una ‘forma di governo’ […]»

Bandex

Como no Ponto Contra Ponto diria José Pacheco Pereira, bom trabalho.
Muito bom.

Acordo Ortográfico [56]

«[…] O Estado deu licença a uns quantos académicos para nos imporem uma ortografia comum com o Brasil. Falharam. O acordo não unificou as grafias do português. Aproximou-as, quando muito. A humidade ainda não é umidade em Portugal. A aproximação, todavia, resultou nisto: onde antes havia duas ortografias, haverá agora três – a brasileira, a portuguesa e a do acordo. E como o actual governo já admitiu uma reforma do acordo, poderá ainda aparecer uma quarta: a do acordo revisto. […]»
 --- x ---
 «[…] Face aos embaraços constatados no novo acordo, não só em Angola, mas também em Portugal, no Brasil e em outros países da Comunidade, só os asnáticos fogem para a frente e procuram impor pela força o que não conseguem convencer pelo uso da argumentação. O jeitinho do “tomem lá o Acordo e não piem” é uma forma muito pouco urbana, democrática e sensata de tentar resolver o problema. Assim, dificilmente, em português, seremos capazes de nos entender.»

sábado, 24 de março de 2012

Chove,

foda-se!

Ben Marcus

«[…]
A aparência de um folclore inventado é alcançada com recurso a uma das técnicas de desfamiliarização mais antigas e fiáveis da literatura, uma técnica inventada por Montesquieu nas Cartas Persas, e que foi sendo apropriada até aos nossos dias por poetas da escola marciana de Craig Raine, autores de livros infantis, e críticos de televisão: adoptar a pose de um embaixador alienígena e escrever sobre aquilo que vemos todos os dias como se nunca o tivéssemos visto antes.
[…]
Marcus tem um claro fraquinho pela especificidade retórica da não-ficção: a prosa técnica, de manual escolar, com a sua falsa autoridade semântica, a sua capacidade para articular qualquer disparate sem embaraço. (Alguns parágrafos do livro são reciclagens de artigos de enciclopédia, com ligeiras mas letais alterações). Num dos glossários colocados no fim de cada secção encontramos a seguinte definição do acto de "comer": "Técnica de resgatar objectos, salvando-os da luz e colocando-os no interior. Uma vez dentro da cavidade, o objecto é permanentemente inscrito com as resoluções do corpo e pode assim ser considerado um aliado da pessoa".
[...]»
Rogério Casanova, “O Algoritmo de Ben Marcus”, sobre Ben Marcus e, em particular, The Age of Wire and String | Público/Ípsilon, 23.Mar.2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

Por caridade

Arménio Carlos, electricista da Carris, cujo discurso não me suscita um pingo de admiração [a propósito, tiquetagem actualizada], continua a dizer e a repetir - tal como seguramente escreve - precaridade. [Às 20:07 de hoje]
Estou convencido de que não tardará que algum letrado do Comité Central lhe aplique um caridoso e solidário torque de gramática para que na próxima vez, se não for antes, já possa dizer, resgatando o orgulho do povo culto que o admira e dos habituais 3 milhões de holográficos* trabalhadores e trabalhadoras que fazem a glória da CGTP e enchem de substância o êxito do substantivo "greve". O êxito do adjectivo "geral" garante-o a malta filiada em sindicatos comunistas, com mais de 15 anos no quadro permanente das empresas públicas de transporte; malta briosa e lutadora que, bem vistas as coisas, nunca perde muito quando pára a carroça e pouco mais perde quando a carroça pára.
Tudo isto dá, somado,
uma vida de eterna feliciedade,
sendo aí que, bem rimado,
acaba de vez a precariedade.
____________________________
* Quando, pelas 21:15 na RTP Informação, a Cristina Esteves [por quem sinto um fraco, mas isso não é para dizer] insistia com o secretário-geral da CGTP para que informasse - sim ou não - se a greve geral de hoje teria tido o sucesso das greves gerais anteriores, os tais três milhões de aderentes em 24.Nov.2010, e mais de três milhões na greve geral de 24.Nov.2011, Arménio Carlos lá foi debitando, sem se rir nem corar de vergonha: ... ainda não temos os dados finais apurados mas sim, os números da greve geral de hoje são dessa mesma ordem de grandeza ...
Que confiança pode oferecer gente deste jaez?  

Alberto Gonçalves,

o melhor cronista português de actualidades da actualidade, seria talvez ainda mais o melhor, não fosse um bocadinho tão faccioso. Enfim, admito, se não parecesse um bocado faccioso.

«[…]
Bin Laden e Saddam Hussein partilhavam a afeição por Whitney Houston e por essa atrocidade intitulada I Will Always Love You. Slobodan Milosevic ouvia repetidamente My Way, um embaraço que o próprio Sinatra detestava e que nunca interpretava sem antes o enxovalhar com uma graçola qualquer. E Kim Jong-il, fanático de Elvis Presley, engolia acriticamente a produção integral do cantor, incluindo as misérias feitas para embalar filmes também miseráveis.
[…]
a relação entre o bom gosto e a sensatez parece ser igualmente verdadeira. O mais lúcido estadista europeu das últimas décadas, Vaclav Havel, era fã dos Velvet Underground. Margaret Thatcher possuía uma predilecção especial por Telstar, dos Tornados, uma brincadeira deliciosa que, à imagem da ex-primeira-ministra britânica, é pirosa e admirável em doses idênticas. E a canção da vida do velho Churchill era o prodígio satírico Mad Dogs and Englishmen, de Nöel Coward.
No que respeita aos nossos líderes actuais e passados, reina o vazio: ou fingem ouvir música erudita ou, o que condiz com a sua estatura histórica, não ouvem nada de nada. Mas há indícios acerca dos nossos líderes futuros, perdão, do nosso anunciado líder futuro. De repente, toda a gente resolveu achar inevitável que António Costa seja o próximo Presidente da República. E embora conheça poucos méritos do dr. Costa, além de uma carreira partidária indistinta e de dois mandatos autárquicos que me garantem fraquinhos*, sei que em 2009 escolheu Carlos do Carmo para mandatário da candidatura à Câmara de Lisboa. Caso a escolha decorra das preferências melómanas do dr. Costa e caso as preferências recaiam especificamente sobre Os Putos ou as Canoas do Tejo, não faltam razões para termos medo** ou, no mínimo, tampões nos ouvidos
_________________________________
* Quem pôde garantir-lhe isso, caríssimo Alberto? O que é um mandato fraquinho?

** Julgando entender bem o justificado medo, para não dizer pavor, que as preferências melómanas do dr. António Costa inspiram ao dr. Alberto Gonçalves, membro da Comissão de Honra da reeleição, em 2011, de Aníbal Cavaco Silva, aqui lhe trago de presente e consolo uma Rosa Vermelha, escrita, tal como Os Putos,  pelo irreformável comunista Ary dos Santos e interpretada pela Mandatária para a Juventude na eleição, em 2006,  do professor Cavaco, cujas indiciadas preferências melómanas já na altura faziam antever, sem razões para medo ou desconfiança, os tempos de prosperidade que a sinérgica relação entre o bom gosto e a sensatez não pára de tão abundantemente proporcionar a Portugal.
E só não estamos mais felizes porque à dra. Manuela Ferreira Leite, em quem o dr. Gonçalves, de tanto a incensar, mal consegue ver um pixel defeituoso, nunca lhe deu para cantar o fado. Pelo menos, em público.

quarta-feira, 21 de março de 2012

21 de Março de 1685


Tobias Volkamer, ser que vale a pena.
Na aventura do carbono morno acontecem gratificantes coisas.

terça-feira, 20 de março de 2012

BPN

Pró que me dá este equino ócio *

Anúncio:
«JAZIGO VENDE-SE CEMITÉRIO DOS PRAZERES - 10 lugares. Bem posicionado. Totalmente reconstruído. Edifício, vitrais, porta de bronze sólida. Como novo. Trata o proprietário. 968 12 …»
Num tempo em que o consumidor está cada vez mais bem informado e exigente, não espanta que, dada a crise e apesar dos atractivos apregoados, o edifício tarde em ter comprador. Então, que é do aquecimento central, águas correntes, TV por cabo fibra, net wireless, intercomunicador de porta, etnia, nível cultural e hábitos da vizinhança, mas, sobretudo, da licença de habitação? E caixas de correio, tem?
A si, plácido leitor, e à sua estimada família, desejo um santo Natal e boas entradas, azeitonas de Elvas, presunto com melão, umas gambinhas e assim.


*

«Pede-se aos cães

e outros animais [...] !»

segunda-feira, 19 de março de 2012

Muda-se o ser, muda-se a confiança?

«Mesmo que mudem as opiniões, os tempos, as vontades, o ser, a confiança e os governantes, a extorsão e as regras da extorsão nunca mudam. Nem se renovam.»

E ainda - idem, ibidem, mas não online - "Os mártires de Beverly Hills"

Diz-nos cá, Luís.
Mostra aí, José.

Ecce homo cavaquensis

«[…]
todos sabemos que o tão comentado prefácio do dr. Cavaco a um livro que ninguém irá ler não tem qualquer fundamento político, constitucional ou histórico, mas apenas reflecte a sua inextinguível sede de vingança pela revelação do que foram as relações entre o BPN e o homem que é tão sério que é preciso alguém nascer duas vezes para se lhe poder comparar. Todos já vimos demasiado Cavaco para poder ignorar a sua biografia. Este é o homem que não é “político profissional” e que nada mais faz do que política há trinta anos, mas apenas a pensar em si próprio. Este é o homem que teve sempre a arte de aparecer nos momentos fáceis (dinheiros europeus ou vitória eleitoral garantida) e desaparecer nos momentos difíceis (a morte de Sá Carneiro, o primeiro resgate do FMI). O homem que nunca enfrenta os adversários em terreno aberto, mas só quando os sente enfraquecidos ou derrotados. O homem capaz de patrocinar, tolerar ou calar uma conspiração montada no seu palácio contra o primeiro-ministro em funções e depois vir queixa-se de deslealdade deste. O homem que protege os seus aliados, mas só enquanto eles não se lhe tornem inconvenientes. Um homem que, de facto, Sócrates não respeitava. Como Soares não respeitou, como não respeitam Passos Coelho ou Paulo Portas.
Se quisermos olhar para trás, para percebermos o que nos aconteceu, seria bom que o fizéssemos com um mínimo de seriedade. Mas era mais importante olhar para a frente e cobrar de quem agora manda.»

A propósito ...

«[…]
Uma análise imanente desse discurso encontra algo muito mais essencial, que motiva as perguntas: que pensamento (político ou outro) emerge de uma tão pobre redacção escolar?, que densidade pode ter a sintaxe e o vocabulário daquele prefácio?, não é uma tal incapacidade de ir além da redacção escolar uma prova de que as palavras do Presidente são uma expropriação da política?»

Acordo Ortográfico [55]

«O Acordo Ortográfico, assinado em 1990 por Portugal, Brasil e os países africanos de língua oficial portuguesa e a que Timor-Leste aderiu em 2004, tem concitado, desde o início, e agora ainda mais, críticas e ataques de grande intensidade. Não sendo filólogo, não me cabe pronunciar sobre o seu rigor científico, embora não concorde com algumas das soluções e saiba que os próprios filólogos se acham divididos.
[…]
torna-se imperioso reagir contra os atropelos que [a língua portuguesa] vem sofrendo, entre os quais:
- discursos de altas figuras do Estado, no exercício dessas funções, em língua estrangeira;
- subalternização da língua portuguesa em reuniões e em atos da União Europeia;
- ensino em escolas públicas por professores portugueses para alunos portugueses em inglês (coisa diferente são os cursos por professores estrangeiros);
- a internacionalização das nossas universidades é bem necessária e conveniente, mas internacionalização não pode significar desnacionalização;
- reuniões até de conselhos científicos dessas escolas, que são órgãos da Administração Pública, sem se usar o português;
- ofícios de serviços do Estado sem ser em português;
- relativa frequência com que as conservatórias do registo civil aceitam nomes próprios de outras línguas;
- alastramento das denominações comerciais de empresas portuguesas operando em Portugal em inglês (coisa diferente é o inglês ser hoje língua franca);
- menosprezo do estudo da literatura de língua portuguesa (portuguesa, brasileira, africana) no ensino secundário;
- em geral, erros de gramática na construção do discurso indireto e ignorância do uso do conjuntivo após conjunções concessivas, do pretérito mais que imperfeito e das preposições.
Perante este panorama, fico espantado com a desatenção dos críticos do Acordo Ortográfico, em nome da pureza do português. Não seria mais curial e mais premente que os defensores do português (ou do português europeu) concentrassem as suas energias na reação contra os fenómenos acabados de descrever? Por maiores vícios que o Acordo Ortográfico tenha, ameaça muito menos a língua do que estes.»

quinta-feira, 15 de março de 2012

Biltres

«Por uma incrível coincidência ou desígnio celestial, é frequente os piores biltres verem a luz mesmo antes de a sua longa incursão pelas trevas os habilitar a um fim triste.»

segunda-feira, 12 de março de 2012

Mário Crespo | Expresso

1- «[…] Não tenho dúvidas de que Luís Marinho continua fiel ao seu roteiro, tendo assim servido o governo Santana Lopes, o governo Sócrates e agora o governo Passos Coelho/Relvas – e sempre a subir. […]»

2- «Surpreendeu-me este teu tão oportuno "acesso de memória". Quando li o que escreveste sobre mim no último sábado, não quis acreditar. […] Como me consideras um jornalista menor, vou ter de te explicar o que fiz para verificar os factos e, obviamente, responder-te. E provar que estás a mentir. […]»


4- «[...] achei deplorável a maneira como este jornal não cumpriu o 'Dever de Resposta' a que Luís Marinho tinha direito. [...] É uma obrigação editorial. Sem ela, um jornal de referência transforma-se num blogue de maledicências e arruaça.»
- Mário Crespo, "Os comediantes"
«[...] A atitude de Mário Crespo revela má-fé e configura uma deslealdade surpreendente. [...]»
-  Direcção do Expresso, "Uma questão de rigor"

Obrigatório ler

«[...]
A crítica de um livro que não suponha a inteligência e a soberania intelectual do leitor entra imediatamente numa outra categoria: a do marketing, a da difusão, a da propaganda. Não há nada a difundir, nada a aconselhar, nada que seja obrigatório. Presumir o contrário é entrar fatalmente no discurso da estupidez que se manifesta em injunções deste tipo: “Este livro faz-lhe falta, aceite o meu conselho.” Conseguir, no entanto, que alguém sinta, por si, em total soberania, uma falta que não sentira antes, isso sim, é a única tarefa capaz de nos salvar da horda triunfante de defensores dos livros e da literatura, dos quais, todavia, ela precisa de ser salva.»

sexta-feira, 9 de março de 2012

The Art of Video Games *

«[…]
É certo que não podemos usar uma tripla combinação de botões para fazer Raskolnikov matar mais velhinhas, mas, noutras formas artísticas mais aceites, a participação do público (no teatro burlesco ou em certas instalações de arte conceptual, por exemplo) é encorajada. O jogo de computador exige escolhas do jogador que o filme e o romance não exigem do espectador e do leitor; mas a imaginação que concebe essas escolhas e as respectivas consequências não abdica necessariamente do seu controlo autoral.
Parte da dificuldade em resolver adequadamente o debate reside na instabilidade dos termos utilizados. Alguns milhares de anos e milhares de páginas depois de Aristóteles, uma definição clara do que constitui uma "experiência estética" ou uma “obra de arte” continua a ser inalcançável.
[…]
talvez as definições de "experiência estética" tenham de sofrer mais uma desestabilização, passando a incluir desidratação, ressaca e o atirar de uma consola contra a parede debaixo de uma chuva de impropérios.»

Rogério Casanova, "Game over. Restart." | Público/Ípsilon, 09.Mar.2012

 

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quinta-feira, 8 de março de 2012

Género e génera, perdão, Génera e género

«Para ficar por alguns exemplos simples, o Guia propõe utilizar "pai e mãe" em vez de "pais", "filhas e/ou filhos" em vez "filhos" e "vive só" em vez de "vive sozinho". Para irmos aos exemplos complicados, o Guia arrisca sugerir "a/o cidadã/o" em vez de "o cidadão", "A/O(s) utente(s)" em vez de "O utente" e "o/a beneficiário/a" em vez de "o beneficiário".
Se a dona Graça ganhasse à comissão mediante o uso de barras e parêntesis, a coisa entendia-se. Mas suspeito que a senhora, à semelhança dos primitivos, apenas se convenceu de que as palavras convocam a realidade desejada. E se não convocarem, não importa, que em tempos amalucados a realidade irrompe à força: na segunda-feira, a Comissão Europeia anunciou querer fixar quotas para as mulheres nas administrações das empresas. Em qualquer dos casos, comprova-se que a Grécia é o caminho a seguir, primeiro na economia, depois no combate à discriminação e, um belo dia, na língua. A nossa já roça o incompreensível.»

quarta-feira, 7 de março de 2012

«Nessa noite,

deitei-me nas ruínas do meu corpo, era já só ossos, os malares cavados, a carne ressequida. Ventava na arcada das costelas e o ruído desse vento perpétuo não me deixou adormecer. A morte pesou-me mais do que a vida.»

Lugar vazio

Quando o autocarro ou a carruagem trazem todos os conjuntos de dois lugares ocupados com uma só pessoa, o que vou escolher é uma pessoa e não um lugar; não onde me sento mas com quem me sento.
Como sou um misantropo heterossexual, não podendo sentar-me ao lado de ninguém escolho óbvia e invariavelmente uma mulher.
Se lá para com os seus botões ela vocifera com tantos lugares vazios porque veio este marmanjo sentar-se aqui?, isso já não é comigo.
É com a humanidade.
Próxima paragem: Oriente.

Acordo Ortográfico [54]

«[...] o AO é um crime contra a língua portuguesa, mas o facto é que está a ser aplicado e portanto o crime está a ser cometido. Simplesmente, também não se pode ignorar que a suspensão dessa aplicação acarretaria, no plano escolar, um considerável prejuízo para um país que está completamente falido como o nosso.
Vai portanto ser necessário optar entre continuar a cometer o crime, poupando os custos muito elevados que a correcção do presente estado de coisas acarretaria, e ter a coragem de lhe pôr cobro de vez, salvando a língua que as gerações futuras vão falar e aceitando suportar esse forte agravamento das despesas. [...]»

Referendo, VGM? Por amor da santa.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Berardo e o secretário

Precisaria de instrumentos de medida mais sofisticados do que os de que disponho [ouvido, olho nu, etc.]  para afirmar, sem hesitação, que, na conversa que esta noite travou com o Mário Crespo, o comendador não disse mais vezes por minuto a palavra viegas do que as vezes por minuto que a jornalista Teresa de Sousa disse esta manhã a palavra narrativa. Mas estou capaz de apostar em como a jornalista Teresa de Sousa não consegue, por mais que se esmifre na política internacional, dizer tantas vezes por minuto a palavra narrativa quantas as vezes por minuto que o comendador diz a palavra cultura. O que jamais saberei, nem que dispusesse da ultra-sofisticada capacidade de contar da GfK, adquirida «num bazar oriental» é se, na conversa com o Mário Crespo, o comendador disse mais vezes cultura do que as vezes que não disse viegas. Citando a doutora Teresa de Sousa, há uma coisa que é certa: «secretário de estado da cultura, doutor francisco josé viegas» - cáspite! - é que o comendador nunca disse. O Joe é um rato. 

A diegese de Putin

«Creio que Putin terá muito rapidamente, e ele próprio se deve ter apercebido disso, de mudar a sua narrativa, a narrativa que lhe serviu tão bem durante os seus dois primeiros mandatos. Essa narrativa era muito simples: foi ele que devolveu a ordem ao caos herdado da era Ieltsin. […] Esta narrativa já não serve; já não serve porque a própria Rússia se desenvolveu. […] Há uma coisa que é certa: a narrativa anterior nesta Rússia já não cola.»

domingo, 4 de março de 2012

O Gonçalo M. Tavares é bom

 «[...]
- É um material intranquilo, a ideia.
- Eis uma excelente definição. Um material intranquilo, a ideia.
[...]
- [...] E a questão é a seguinte: quanto tempo leva uma ideia a espalhar-se desde a cabeça até ao resto do corpo?
[...]»
Gonçalo M. Tavares, "Como eliminar ideias num século tão limpinho? - eis a questão" | Notícias Magazine, 04.Mar.2012

Os quatro dedos de testa do Pedro Marques Lopes


Clara Ferreira Alves, ao minuto 49:59 do “Eixo do Mal” de 19.Fev.2012:
- Não há ninguém com dois dedos de testa

Acordo Ortográfico [53]

«O senhor professor doutor (de Coimbra, Deus magnânimo e todo poderoso!) Carlos Reis, uma das sumidades enigmáticas que conspiraram o Acordo Ortográfico, protestou veementemente as recentes declarações do secretário de Estado da Cultura, segundo o qual cada cidadão é livre de seguir ou não as regras do dito Acordo, aliás susceptível a "ajustamentos" até 2015.Assim de repente, o único ajustamento que me perece adequado seria a anulação de tamanha vergonha. Quanto ao livre-arbítrio, não preciso que o Francisco José Viegas, que de resto muito estimo, me conceda autorização para escrever a língua que aprendi e não a mistela apátrida agora implantada.Naturalmente, o prof. Reis discorda, quer da liberdade, quer dos ajustamentos. O sábio acha absurdo que se profane o português de "forma unilateral e casuística", excepto, claro, quando semelhante forma está do lado dele e o português em causa é a desgraça que ele ajudou a criar. Conheço poucos processos tão unilaterais quanto o AO, não só porque alguns dos países envolvidos se recusam a aplicá-lo, mas sobretudo porque se trata de uma invenção de emproados com demasiado tempo livre e de uma imposição política e postiça. Quanto à "casuística", julgo que a palavra ainda designa o tratamento de um assunto através de subtilezas e artifícios, a definição perfeita dos meandros do AO, uma fraude erguida pelos autores a missão das suas vidas. Há vidas tristes, uma tristeza que deveríamos lamentar mas não expiar.»
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«É bom quando isto acontece: o país discute a sua Língua.
[…] convém sublinhar a importância de reunir e integrar diferentes contributos que visem a melhoria das bases que sustentam o AO. Esse trabalho compete aos estudiosos e investigadores e não, em circunstância alguma, ao poder político*.
[…] O poder político não porá em causa esse esforço* que visa a afirmação de uma identidade ortográfica comum entre os países unidos pela língua portuguesa.
[…]
Não se trata, ao contrário do que supõem algumas vozes pouco familiarizadas com o debate (ou que fazem dele motivo de escândalo), de pôr em causa o AO; trata-se, isso sim, de incorporar sugestões e melhorias ao corpo dessa reforma negociada entre os vários países subscritores. As minhas declarações sobre o assunto (e sou insuspeito, como autor da primeira coluna diária da imprensa portuguesa conforme às regras do AO) vieram nesse sentido. É claro que eventuais alterações muito pontuais não podem ser definidas unilateralmente, mas no contexto multinacional de que o AO resulta. Seria absurdo que não se conseguisse esse consenso quando se trata do nosso idioma, um bem inestimável que identifica milhões de falantes e que pode abrir as portas a um maior entendimento entre eles.»
Francisco José Viegas, secretário de Estado da Cultura, “Valorizar o Acordo Ortográfico” | Expresso, 03.Mar.2012

* O contorcionismo a que um político se vê forçado, santo Deus. Como se o esforço de incrementação do disparate, em má hora embrionado e em pior parido, não tivesse sido sempre uma mal informada obstinação do poder político, primeiro - mata! - do PSD, depois - esfola! - do PS.