segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Acordo Ortográfico [69]

«Caros concidadãos, vivemos tempos difíceis, muito difíceis. E novos problemas exigem novas abordagens. Foi assim que, qual versão feminina de Nostradamus, criei uma Astrologia-de-fusão e concluí que entrámos há alguns anos, sem que disso nos tivéssemos apercebido, na cataclítica Era do Pato.
Tudo começou no momento em que fui iluminada por um jotinha.
[...]»

- x -
«[…]
Resultado de uma medida precipitada e irreflectida, a entrada em vigor do AO90 constitui uma irresponsabilidade social, política, geoestratégica e económica. Este acordo serve unicamente interesses de índole geopolítica e empresarial, ortogonais aos dos portugueses, pelos quais o nosso erário está a ser saqueado e a nossa Língua prostituída.
[…]»

domingo, 26 de agosto de 2012

O governo do PSD: de crime em crime,

contra a pátria, contra a língua, contra a memória, contra a inteligência.

O turista

«[…]
O turista é uma presa fácil das armadilhas da reversibilidade cómica: está no centro da cidade histórica ou em qualquer outro lugar, percorrendo as “coisas a ver”, e é ele que se torna a coisa mais visível. Na museificação generalizada que retira as coisas do seu uso, o turista não tem apenas o estatuto de visitante, mas de peça de museu.
[…]»
António Guerreiro | Expresso/Atual, 25.Ago.2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Lá porque a identidade dos contrários é coisa recíproca,

uma pessoa que mete 10 dias férias em Agosto e tira 12 dias de férias em Outubro não deixa de gozar as férias todas a que tem direito.

PS
Já a inversa não se me afigura inteiramente falsa. Dependerá, como sempre, dos pressupostos e dos pressutirados.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

CCB, quinta-feira, 9 de Agosto de 2012

Quero crer em que o todo catita relógio da Maria do Rosário Pedreira batesse certo: 11 horas, 16 minutos e 35 segundos, mais ano menos ano.
Nicolau Santos, carteira 646, Valdemar Cruz, carteira 346 e Jorge Simão, carteira 2202, asseguram, no entanto, que eram 10 horas e 42 minutos.
Face ao sólido prestígio editorial do Expresso e aos créditos firmadíssimos dos três jornalistas, interrogo-me dilacerado: em que raio de cebola consultaram a tão minuciosa hora da legenda?
Ainda por cima o Vasco Graça Moura, escondendo o relógio mas não os botões, não ajudou. Sempre daria para desempatar.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Mamas

«[…]
Mais do que mamíferos, os humanos revelam-se mamófilos e mamólatras. Sempre que os cientistas conduzem estudos sobre os seios (é um trabalho difícil, mas alguém tem de o fazer), as ressonâncias magnéticas e as digitalizações oculares chegam à inesperada conclusão de que os homens perdem a cabeça moc o meti me pareço.
[…]»
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domingo, 19 de agosto de 2012

"Eu"

«[…]
A partir de que momento é que, nos jornais e revistas, se perdeu o pudor de dizer “Eu”? Eis uma questão muito mais importante do que parece, capaz de nos elucidar acerca da nossa condição epocal, reclamando uma investigação arqueológica. A grande festa do “Eu”, a pessoalização como fenómeno mediático total, requer uma contrarrevolução puritana.»

sábado, 18 de agosto de 2012

Acordo Ortográfico [68]

«[…]
Não é fácil ser-se crítico do Acordo Ortográfico, num país em que tudo se discute pela rama e tudo se decide com leviandade. Ser acordista é mais fácil: basta não conhecer o Acordo Ortográfico e não estar na disposição de ler o que se escreve sobre ele.»
António Fernando Nabais, “Acordo Ortográfico: esquisso do acordista”  | Público, 18.Ago.2012
- x -
«[…]
A defesa da memória etimológica, para que seja um argumento bem-sucedido, justificar-se-ia radicalmente com o recuo a antes de 1911, reaproximando o Português de línguas como o Francês e o Inglês, e consequentemente do Latim, e afastando-a de outras românicas que se “modernizaram”, como o Italiano e o Castelhano. Não vou ao ponto de advogar o recuo à “orthographia” pré-Republicana. Contudo, por defeito de formação e profissão, entendo necessário preservar a memória etimológica que existe, como uma “reserva ecológica”.
A etimologia é configuradora de memória e cultura. Línguas que mantêm na escrita a memória etimológica tornam-se mais aptas à elaboração e construção do pensamento.
[…]»

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Rute Coelho, profissional num diário de referência

«a mulher de 27 anos levava uma “prenda” para o companheiro: umas gramas de heroína dissimuladas nas cuecas.»
«eram poucas gramas, não davam para o juiz ser mais duro.»
 
Rute Coelho, “De visita ao namorado com droga nas cuecas” | DN, 15.Ago.2012

Freguês assíduo do excelentíssimo Helder Guégués e sabedor do carinho particular com que o HG acompanha as avarias da plumitiva Rute e esgrime diariamente contra a calamidade que vai na revisão do Diário de Notícias, se é que ainda há no DN alguma coisa que se assemelhe a revisão, só ponho este verbete depois de ter confirmado que o Linguagista não cuidou das solecísticas gramíneas no DN de hoje. Se heroína fosse erva, vá que não vá…*   
Ainda Rute Coelho escrevia no finado “24 horas” e Helder Guégués no anterior estabelecimento, já ele clamava a propósito dos disparates dela: «É espantoso que um jornalista, alguém cuja ferramenta de trabalho é a língua, erre em algo tão simples.» - Blogue ‘Assim Mesmo| 29.Out.2008

Mas onde a azougada  Rute nos cilindra hoje com um tiro de precisão e rigor jornalísticos é aqui:
«Foi apanhada no espaço de tempo que demora a contar até três.»
Pelas minhas contas, nem meio olho o Diabo esfregara.
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* Tenho inevitavelmente presente a seguinte passagem da peça do Provedor do Leitor - e talvez a ele me devesse queixar - no DN de 11.Ago.2012:
«[…]
Dou um exemplo que ainda trago fresco na memória, acontecido comigo duas semanas depois de entrar no DN: aconteceu a 19 de maio de 1982, notícia no dia seguinte. Álvaro Cunhal tinha falado na evocação da morte de Catarina Eufémia, em Baleizão e, do discurso que me chegou, uma frase saltou-me aos olhos: "Este governo é um escalracho do regime e tem de ser arrancado." Saborosa frase para título. (Fui primeiro ver ao dicionário o que significa a palavra, que nunca a tinha ouvido, embora deduzisse. O leitor, se não sabe, também tem de lá ir: trabalho para casa - TPC...) Lá fiz o título: "Governo é escalracho do regime e tem de ser arrancado" e, em pós-título "- disse Álvaro Cunhal em Baleizão, etc."
[…]»
Por conta do escalracho.
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Sendo certo que a doutora Rute Coelho não é grande espingarda a redigir, já o doutor Vasco Graça Moura escreve tão lindamente, no mesmo jornal e igualmente hoje, que não lhe bondando os dicionarizados ‘medúseo’, ‘meduseu’, ‘medúsico’, ‘medusário’ ou mesmo ‘medusóide’, teve de inventar para o bom gosto um atributo que nenhum dicionário acolhe:
«[…]
"Bom gosto" é, de resto, uma expressão terrível e medusante para certa categoria de pedagogos.
[…]»

domingo, 12 de agosto de 2012

André Carrilho, magnífico.

"Curiosity"  -   DN, 12.Ago.2012

Jornalismo desportivo

Num apontamento sobre a final olímpica dos 5000 metros/homens, em atletismo, assinado por Cipriano Lucas no Diário de Notícias de hoje, nada menos do que 12 erros e três empastelamentos de texto. É obra.
Ainda assim e sem desprimor da nada despicienda proeza do DN, a medalha vai para o Quénia, cujo um dos elementos, nos 4x400 metros/homens do Expresso de ontem.

A avaliação e a autoavaliação

«[…] Os avaliadores são uma seita e a sua mística é uma ordem quantitativa pela qual tudo acede a um estado estatístico e entra num ranking. Mas como sabem que o seu trabalho não é interno a um saber, eles precisam que os avaliados (que, por sua vez, são os avaliadores de outros) lhes outorguem legitimidade, que a creditação seja ao mesmo tempo coerciva e consentida. Esse consentimento tácito é obtido através da autoavaliação que os avaliados são convidados a fazer e que lembra o ritual da autocrítica que era imposto nos regimes comunistas.
[…]»

Acordo Ortográfico [67]



[…] Metade do período de transição já lá vai e o caos anda por aí. Sim, por aí. A óptima notícia é esta: a suspensão do AO90 devolverá intactos os contactos perdidos.»
Francisco Miguel Valada, “Um pouco mais de rigor, sff | Público, 11.Ago.2012

«[…] O caos é visível em alguma comunicação social, em instituições e na escola, discutindo já os alunos mais velhos a razão de ser das "novas minúsculas" e o desaparecimento geral das consoantes mudas. Com efeito, em textos escolares, em documentos oficiais, em legendas ou em notícias surgem palavras como "expetativa", "expetante", "contato", "contatámos", "de fato", "impato", "tato", "jato", "pato", entre muitas outras […]»
Maria do Carmo Vieira, “Malefícios no ensino do Português| Público, 08.Ago.2012

«[…] porquê estas alterações, que implicam a desestabilização da ortografia com a introdução de milhares de novas facultatividades - leia-se também: ambiguidades - e com a invenção de "regras" absurdas e impossíveis de seguir, pois mais não são do que a consagração das excepções e dos erros? Ora, porque sim e está tudo dito.
Já sabemos que o destino de tudo no Universo é a entropia, mas será necessário dar um empurrão tão grande à ortografia da nossa língua? Temos uma ortografia que não é perfeita (aliás, nenhuma língua tem uma ortografia perfeita), mas introduzir mudanças aleatórias não significa melhorá-la. Muito pelo contrário. […]»
Hermínia Castro, “Ortografia no Verão| Público, 05.Ago.2012

Sorteio 64/2012

2.ª bola - 21
3.ª bola - 17
5.ª bola - 11
Não falando do 10.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Admiremos Luís Lopes, comentador de atletismo

«[…] a cobertura da RTP nestas Olimpíadas não se mede apenas pela dinâmica de antena, pelos pivôs em estúdio e pelas reportagens em Londres. Quem gosta de desporto, quem segue os Jogos e as suas diversas provas é um tipo de público que sabe o que quer e exige conhecimento. Ter Luís Lopes é verdadeiro serviço público. […]»

Concordo absolutamente. É por isso que quando Ferreira Fernandes – o melhor, insista-se – exarou no DN, por altura da recente volta a França em bicicleta, que Marco Chagas «é o melhor comentador da televisão portuguesa - e nisso incluo todas as modalidades (do futebol à política, passando pelo ciclismo, que é sobre o que ele fala).», tive vontade - eu, que nutro admiração irrestrita pelo comentador de ciclismo Marco Chagas -  de perguntar ao FF se não teria momentanemente despercebido o Luís Lopes. Nos últimos 20 anos, não sei de ninguém que fale melhor, saiba e ensine tanto, com pertinência cirúrgica e generosidade ilimitada, acerca da plúrima modalidade desportiva que comenta e sobre que também escreve, de há cinco anos a esta parte no Público.
Muito obrigado, Luís. * 

Quanto ao arvalho da Silva em vez de Caralho da Silva e ao automóvel da marca Golfe em vez do modelo Golf da marca Volkswagen, apetece juntar a estes deslizes do Azinheira a olímpica patacoada do jornalista da RDP que um destes dias informava os ouvintes da Antena 1 de que iria ter lugar a corrida de 10 mil metros quadrados.
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* «[...] Luís Lopes sabe quase tudo. Prepara cada dia de trabalho, mas passa de certeza muito do tempo que outros consideram livre a ler sobre atletismo. Depois, e posto perante uma imagem, um atleta, um ensaio, é torrencial: conhece o atleta, as suas marcas e os significados destas no contexto do seu país, do seu continente, do mundo. Entretanto, ainda conhece as histórias, leu as entrevistas, decorou as manias. E, como um cineasta, abre em panorama sobre a paisagem, fecha em plano americano numa personagem, lança a grande angular sobre os seus olhos apenas - e volta a abrir e a fechar quantas vezes lhe apetece, com uma agilidade rara.
Podia falar cinco ou seis horas seguidas e nunca seria chato. Aliás: faz precisamente isso, em épocas de grandes competições. E eu nem quero imaginar como seria, por exemplo, ouvir um dos nossos comentadores de futebol durante seis horas seguidas.»

"O mundo é pequeno" | "Comédia de enganos"

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

«Desporto por desporto»

«- E porque saiu das Produções Fictícias?

- Porque as Produções Fictícias transformaram-se exactamente numa empresa igual àquelas de que fugi. Com o objectivo do lucro, da exploração do trabalhador. Saí desiludido. Uma coisa que tinha bom ambiente, e que podia ser uma espécie de cooperativa de pessoas que escrevem, transformou-se em algo que não é diferente do Pingo Doce, funciona da mesma maneira.»

Também tu, Nuno Artur?
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* JQ a querer, a sério, sair da «zona de conforto» - na moda e pestífero como, por exemplo, a «narrativa», o «empreendedorismo», a «caminhada» ou o «pequeno Martim» - é que minha nossa senhora! Mas se até o excelente Nuno Artur Silva, antigo professor de Português, diz sempre «à última da hora», não pode o genial João Quadros ser pífio durante 1 segundo?

domingo, 5 de agosto de 2012

Marilyn Monroe | Ferreira Fernandes

«[…]
O reconhecimento definitivo acontece no filme seguinte, de Howard Hawks, e vem escrito em acta logo no título: Os Homens Preferem as Louras.
[…]
A câmara da BBC mostra a cara de Marilyn ao ver aproximar-se a rainha, esta detém-se para o cumprimento gracioso da actriz, ficam frente a frente, num milagre fugaz que fez a tiara de Elizabeth largar os cabelos reais para ir pousar na cabeleira loura da rainha das mulheres. Evidentemente nem todos viram isso, mas todos os crentes podem confirmá-lo no YouTube.
[…]»

Contadas por Ferreira Fernandes, todas as histórias melhoram. Ferreira Fernandes é o melhor.

O governo das coisas

«[...]
Uma mentira implícita no discurso corrente consiste em pretender que os mercados falam, que eles funcionam não apenas através do seu legítimo e tradicional medium, o dinheiro (por conseguinte operam com números) mas que, além disso, se apropriaram do medium da política, que opera com palavras, com a linguagem. Na verdade, os mercados não dizem nada, eles mostram-se em silêncio.
[...]»

Celeste Cardona

Lidas as 54 peças da doutora Celeste Cardona na página que até 07 de Julho do ano passado era todas as quintas-feiras assinada pela doutora Maria José Nogueira Pinto, falecida, que até escrevia benzinho, sinto-me à vontade para arriscar que o Diário de Notícias dá asilo à crónica semanal mais indigente e miseravelmente mais mal redigida entre todas as crónicas semanais  da imprensa portuguesa, incluindo revistas,  jornais económicos e desportivos.

Não lhe bastando não saber escrever, pratica habilidades deste jaez:
«[…]
Ao longo da minha vida, que já é longa, fui sempre lendo. Devo confessar que não li o Rei Lear de Shakespeare, traduzido por Álvaro Cunhal, nos anos de 1953 a 1955, com cerca de quarenta anos quando estava preso na Penitenciária de Lisboa (não em Peniche). Infelizmente só soube desta tradução através da leitura de Pacheco Pereira na biografia política de Cunhal, Volume 3, O Prisioneiro, nas páginas 205 a 208.
[…]»

«[…]
Álvaro Cunhal traduziu e anotou The King Lear entre 1953 e 1955, quando se encontrava preso na Penitenciária de Lisboa (e não em Peniche, como por vezes se diz, por exemplo aqui). […]  Na sua biografia de Cunhal, José Pacheco Pereira descreve-a ao pormenor (cf. Álvaro Cunhal. Uma Biografia Política. Vol. 3 – O Prisioneiro (1949-1960), Lisboa, Temas e Debates, 2005, pp. 205-208).
[…]»

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O doutor Marco António Costa - PSD

«[...]
Enquanto sobrarem políticos da dimensão do sr. Marco António e cidadãos da estirpe dos que se curvam ante o sr. Marco António, o Portugal que conhecemos não morrerá, leia-se (ou releia-se) estamos perdidos.»

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Pedro Passos Coelho

«Passos Coelho tem nas mãos um brinquedo chamado Portugal. Não foi tocado pelos benefícios da imaginação, nem pela graça do talento: é um político medíocre, infenso a escutar os apelos da razão e os impulsos da sensibilidade. Em seu amparo, talvez, a voz de tenor; mais nada. O vazio desta triste mas perigosa existência poderia, possivelmente, constituir motivo bastante para comentários demolidores, porém pedagógicos. Nada disso acontece. O País está pobre porque ele assim o quis e proporcionou pelo sofrimento e pela prepotência. Com perdão da palavra, Pedro Passos Coelho não é uma questão política. É um problema moral.»