terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Fernando Gaspar - "quase utopia grécia perene"

Um destes dias, na visita às Princesas de Arcádia, de Fernando Gaspar, em Sintra, deparou-se-me na parede um texto dele que vale uma princesa das dele; se não mais.
Olhem-me para isto:
«[…]
à entrada da praça dos mercadores, o bronze e o ébano esculpiam a memória dos dias da matança. os pássaros, em voo incessante e absoluto, teciam durante o dia o véu que abrigaria de noite a cidade.
[...]
toda Arcádia restou uma quieta semente. essenciais e contidas, todas as montanhas, falésias e grutas, lendas e gravuras, numa semente redonda como a lua. pequena como o agora. toda a força da natureza nos confins de um grão, até um dia. um dia a semente germinou na memória do poeta, um dia deu rebentos. depois os rebentos cresceram e de um caule vigoroso saíram mil folhas, cadernos e livros; muitos livros. Arcádia está lá, dentro de cada um, entre as folhas alvas, por entre cada letra; jasmim trepado verso a verso, perfumando cada sílaba.
[…]»
Fernando Gaspar, "quase utopia grécia perene" | Música de Jan Garbarek [sax tenor], “Dis”.
Muito obrigado, senhor Fernando, pelo prazer.
 
PS1
Note-se como quase e utopia se ligam por uma diagonal de uma esquina a outra do texto e em como Grécia e perene se ligam por outra diagonal da outra esquina à outra.
 
PS2
Pequena como o agora, bolas.
 
PS3
Ler outra vez, se faz favor, o ranger salgado dos navios,       de                   va                                    gar.