segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Serão autárquico

Estou felicíssimo com o resultado que o António Costa teve em Lisboa.

Estas eleições traduziram-se numa monumental derrota do PSD e das coligações do PSD com o CDS. Uma colossal derrota da direita. *
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* Desde o heróico discurso do BEato José Manuel Pureza naquela tarde redentora de Março de 2011, Portugal, grato, não se tem cansado de prodigalizar ao Bloco de Esquerda monumentais e colossais vitórias eleitorais, sempre mais e mais até ao colossal e monumental varrimento final.

sábado, 28 de setembro de 2013

Aceleração celerada

«[…]
Um antigo agricultor que plantava cenouras, da espécie antiga, que levam alguns meses a crescer, não sentia que estava a perder tempo e não decidia passar à monocultura dos nabos, que crescem em poucas semanas. Ele desconhecia o princípio de que "time is money". Para ele, cenouras e nabos tinham um ciclo temporal idêntico: nascem, desenvolvem-se e, se não são colhidos, tornam-se duros e lenhosos, primeiro, e depois apodrecem. Ora, para a agricultura industrializada, o princípio fundamental é o de que "time is money", e se ainda comemos cenouras foi porque a engenharia genética tornou possível chegar a novas espécies que crescem em metade do tempo (e ficam em débito relativamente ao sabor, na natureza também não há almoços grátis). A competição diacrónica originada pela aceleração explica a questão da dívida. Os países endividam-se porque nós somos todos seres vivos em débito. Se só recentemente é que nos começaram a fazer ver isso, não é porque a dívida possa ser saldada - ela só pode ser reproduzida. É porque o débito do ser vivo é a modalidade da sua sujeição.»
António Guerreiro, "A competição diacrónica" | Público/Ípsilon, 27.Set.2013 *
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 * Inclui "O compromisso traído", recensão a Despaís - Como suicidar um país, romance de merda publicado recentemente por Pedro Sena-Lino.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Pecado da carne - II

Mais do que provável é que o malandreco do papa Francisco não passe sem bater as suas punhetazinhas. Por mim, mal nenhum, pois se o próprio Plúvio também bátegas...

Pecado da carne - I

Ver Luísa Sobral, vegetariana publicamente assumida, a patrocinar o esquartejamento de um esbelto robalo que há-de ir ao forno a 180 graus, tem a sua piada; não falando dos bivalves que vieram de Óbidos prà festança.
Deus mastiga.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

De todas as notícias da morte de António Ramos Rosa,

esta é a mais bonita.
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Obrigado, Luís Miguel Queirós; você é sempre bom.

Em tempo, uma peça notável:
"António Ramos Rosa - A poesia como imperativo"
António Guerreiro, Público, 25.Set.2013

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Clara Ferreira Alves | Daniel Oliveira

No “Eixo do mal” de ontem, na SIC Notícias, Clara Ferreira Alves, e portanto, dizia sem tirar nem pôr, incluindo a lingerie fanérica, o mesmo que dizia n’ “O que fica do que passa” de anteontem, no Canal Q: Zadig & Voltaire. *

Já Daniel Oliveira está, basicamente, escaleno.
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* Mais dizia a doutora Clara no mesmo Eixo que A austeridade deles é a austeridade que eles podem aplicar às pessoas que não se podem defender: ós pequenos pensionistas, ós reformados, ós doentes crónicos … [minuto :29].

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

«[...] o Colégio Militar é

a desonra dos valores essenciais da república portuguesa, um atentado à razão, um insulto à escola pública. A pergunta a fazer não é porque é que o querem matar, é porque é que ainda existe.»

Bravo, Fernanda!

Por exemplo, António Barreto

«[…]
Por exemplo, um sociólogo como António Barreto, a partir do momento em que começou a ter um discurso que já não é limitado pelas regras, pela ordem e pelo método de um determinado campo disciplinar, começou a ser chamado “pensador” […] Estes “pensadores”, ao contrário dos filósofos, têm um pensamento completamente transitivo, exclusivamente orientado para um objecto exterior. Têm uma pretensão de verdade e de revelação, e isso verifica-se no “estilo” e nos protocolos discursivos. Tendem, por isso, a ser ouvidos como oráculos. A filosofia, pelo contrário, conhece desde sempre o modo como o pensamento implica a linguagem. Para o filósofo, ao contrário do que acontece com o nosso “pensador”, não há pensamento que não seja pensamento do pensamento, não há pensamento que não seja experiência da linguagem. O “pensador” — a categoria portuguesa com este nome — está cheio de visões do mundo, mas falta-lhe aquilo que desde sempre sobra no filósofo: uma visão da linguagem, uma interrogação sobre o significado das palavras. Daí a ilusão de transparência que transmite, que é uma transparência ingénua, semelhante à dos poetas que têm muita coisa para dizer e muitos sentimentos para exprimir. São, à sua maneira, realistas alucinados.»

Quem foi J. D. Salinger [01.Jan.1919-27.Jan.2010]?

«[…] Salinger, o recluso, o “cidadão privado”, o auto-exilado, o homem na sua torre vigiando os intrusos (que não tão raras vezes acolhia, mas sobretudo afastava), era incapaz de conviver com a realidade, e a ficção que escreveu não foi mais do que o resultado dessa incapacidade. É esta a tese do livro-sensação da rentrée norte-americana,uma biografia polémica, povoada de vozes […]»
Isabel Lucas, “Ainda à espera de J. D. Salinger *

SalingerPynchon - Blanchot
«[…]
Salinger tornou-se um fantasma da literatura norte-americana do século XX, o “fantasma de Cornish”, como foi chamado. Fantasma porque destituído de um corpo biográfico e porque paira, com a sua presença incorporal, sobre a vida literária, na sua dimensão mais fanérica. Por isso, é muitas vezes nomeado ao lado de dois escritores seus contemporâneos: Thomas Pynchon (E.U.A., 1937) e Maurice Blanchot (França, 1907-2003). […] Pynchon, ao contrário de Salinger, desapareceu antes de a obra existir e continuou a publicar. O seu desaparecimento é estratégico, foi pensado para que os seus livros resplandecessem sob a condição da ausência do seu autor. Por isso, não se livra da suspeita — publicamente explicitada por alguns dos seus pares — de trabalhar, com cálculo, para a mitificação e a glória literária.
[…]
a retirada e a invisibilidade de Blanchot são acompanhadas por uma obra onde se desenvolve uma concepção da literatura em que a escrita implica a morte do autor: a obra não é senão o fluxo nu e anónimo da linguagem, e a literatura só começa com a despossessão do Eu e nasce, em seu lugar, uma terceira pessoa, um neutro. Blanchot levou, pois, ao extremo, a questão do apagamento do autor, cujo império tinha sofrido um abalo enorme com Mallarmé. Flaubert também se situa legitimamente nessa mesma constelação. São suas, estas palavras: “O artista deve fazer crer à posteridade que não viveu.” […]
Salinger é uma espécie muito mais rara no seu meio, sem antecedentes nem elaboração teórica legitimadora, do que Blanchot. Este, com a sua atitude radical e, em certos aspectos, inquietante, leva às últimas consequências uma mística da literatura completamente estranha ao autor de À Espera no Centeio.
[…]»
António Guerreiro, “Invisível como Salinger -  Há uma categoria de escritores que renegou a ordem social da República das Letras e se exilou no desaparecimento.”

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* Isabel Lucas usa sempre assassinato, palavra feia; assassínio é mais bonita e melhor.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Rogério Casanova


Pastoral Portuguesa
- 'Dantés e Jay Gatsby – Viajantes no Tempo'
«[…]
O impulso para modificar o passado e cancelar um erro era, nos contos de fadas, concretizado por magia ou intervenção divina; na ficção científica, pela tecnologia. No vasto território entre estes dois pólos, as soluções encontradas pela literatura para o erro humano, para o fim de uma Era, para a inacessibilidade do passado variaram entre a penitência (Lord Jim), o rancor elegíaco (Reviver o Passado em Brideshead) ou a fetichização da memória (Proust). Na verdade, quase todo o realismo moderno assenta na ideia de que o passado é a única circunstância que não pode ser alterada.
[…]»
- ‘Consultório literário’
«[…] gostaria de lhe pedir recomendações de leitura sobre substâncias intoxicantes, ou com personagens que consumam substâncias intoxicantes. Excepto álcool. […]»


No museu Barthelme” – a propósito de 40 Histórias”, de Donald Barthelme, Antígona/2013
«[…]
A indiscrição deliberada sobre os processos ficcionais, a mistura de registos, a colagem, a farsa: tudo isto são armas familiares do arsenal pós-moderno, cuja principal “epifania” foi que a impossibilidade de voltar a ler histórias da mesma maneira (quando já se conhecem os truques todos e não há nada que suspenda a descrença) deve evitar que se escrevam da mesma maneira.
[…]
Numa época definida pela sobrecarga de informação, muitos dos elementos que compõem o nosso repertório cultural (figuras do folclore ou da arte clássica, conceitos filosóficos ou científicos) sobrevivem em formas abreviadas, mediadas ou abastardadas. Poucos conhecem Freud ou o existencialismo senão como resumos de enciclopédia; poucos conhecem o arquétipo do pirata ou o mito do Barba-Azul nos seus contextos originais; sobre figuras históricas como Tolstói ou Paul Klee sabemos factos biográficos arbitrários e temos uma ideia (mais ou menos vaga) da sua “relevância”; e ainda menos pessoas conhecerão a rotina de um guarda-costas, a não ser através de representações ficcionais no cinema ou na televisão. Quase tudo o que temos chega-nos como uma herança danificada: bocadinhos de algo que ainda pode ser inteiro para alguém, mas não é inteiro para todos.
[…]»

domingo, 15 de setembro de 2013

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"O fascismo da língua"

«[...]
O fascismo democrático contemporâneo manifesta-se de muitas maneiras […], mas nenhuma delas é tão visível como a deformação, a simplificação e o empobrecimento da língua, responsáveis por uma generalizada degradação da vida pública.
[…]
É, aliás, significativo que alguns críticos mais indulgentes, perante a afirmação de Passos Coelho de que a Constituição não fez nada por novecentos mil desempregados, o tenham aconselhado a nunca fazer discursos longos improvisados, o que corresponde à ideia orwelliana de que o falante da novilíngua “faz fluir o discurso articulado pela laringe, sem nenhuma implicação dos centros cerebrais”.
[…]»

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

«A Gaiola Dourada

nem sequer uma boa merda é: é uma merda má. Não tem graça: nem uma desgraça consegue ser.»
Miguel Esteves Cardoso, “Um filme que não é| Público, 08.Set.2013

domingo, 8 de setembro de 2013

Universidades de Verão

«[…]
Sob o impulso desse pérfido charlatão, dir-se-á até que nas Universidades de Verão, em todas as abadias que têm o seu nome, ecoa o discurso do histérico.»

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Rui Nunes

«[…]
fui-me apercebendo lentamente de que a língua, que qualquer linguagem, especialmente na sua articulação, manifesta poder. E há em mim uma grande repugnância pelo poder, por qualquer forma de poder. O poder dos sentimentos, o poder sobre o outro. Ora esse poder manifesta-se na linguagem, na chamada fluência – em que as palavras se procuram umas às outras independentemente daquele que fala.
[…]
a vírgula, aquela paragem, aquele cortar o fôlego, aquele sopro que se quer prolongar e não consegue, isso é que é terrífico na escrita. E é por aí que se introduz a violência.
[…]
Não gosto dos ícones da pátria, não gosto de pátrias, fronteiras e hinos. Mas o problema é o ruído. Estou sempre a ouvir gente. Estamos aqui e estamos a ouvir gente. […] E depois há pouca sobriedade nas palavras, as pessoas falam desesperadamente.
[…]
é  impressionante a semelhança que existe para mim entre um homem morto e um bicho morto. Não consigo estabelecer a dignidade da morte do homem. É a mesma que na morte de um melro. Um ser morto é isso, e não há muito mais a dizer sobre ele. Mas isso também está ligado à minha ausência de crença. Eu bem gostaria de ser crente. A minha morte não vai ser diferente das mortes dos bichos todos, que morrem porque é essa a pobreza que nos espera. Não há, para mim, nenhum Deus que nos absolva, que  redima, que me dê o que quer que seja.
[…]
Nós vivemos confrontados com uma linguagem que esqueceu uma quantidade enorme de nomes. […] Agora já não há cegos, há deficientes visuais. Já não há surdos, há deficientes auditivos. […] Quando se afasta o cego e se coloca o deficiente visual, ilumina-se de uma maneira impiedosa o outro. É uma espécie de maldade. E se eu disser: sou cego (ainda não sou, mas para lá caminho), qual é o problema? Mas se disser que sou deficiente há uma menorização do meu próprio estatuto como pessoa. As palavras, mais uma vez, estão carregadas de malignidade.
[…]»