sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Consumir cultura

«Segundo os dados do Eurobarómetro, divulgados pelo Público no passado domingo, os consumos culturais em Portugal sofreram uma forte redução relativamente aos resultados anteriores, de 2007. Estes inquéritos informam-nos sobre a evolução dos consumos das commodities culturais, mas deduzir dessas medições um teor e um estado geral da cultura é uma enorme falácia. A noção de "consumo" é cheia de equívocos quando aplicada ao campo da cultura, desde logo porque é meramente quantitativa e preenche essa forma de niilismo que se traduz no princípio de que tudo se equivale: não há hierarquias, qualquer coisa é agenciada com outra coisa e dirige-se, sem distinção, a qualquer pessoa. Todos conhecemos o pietismo das boas intenções culturais que faz da leitura uma moral e multiplica as campanhas filantrópicas a favor dos livros. Como se os livros, os filmes, os espectáculos e tudo o mais — muito mais, porque o universo da cultura é enorme e está sempre em expansão — não pudessem ser, não fossem efectivamente na sua maioria, e sem deixarem de ser produtos culturais, meios de produção da imbecilidade.
[…]
Esta ideologia que tem como modelo a homogeneidade do mundo da economia produziu também uma equivalência entre "excelência estética" e "excelência económica". A lógica económica das indústrias culturais requer a transformação do artista, do escritor, do agente cultural, em empreendedores de si próprios. A nostalgia da grande arte, dos grandes artistas e dos grandes intelectuais é um tropismo fundamental de todas as políticas culturais, do passado e do presente. Mas a grandeza mede-se agora pelo critério da "excelência", que se tornou uma "palavra-maná", um signo mágico que faz recuar as águas do mar e abre uma passagem para a terra prometida.»
___________________________________
A propósito, a Leya ou a Caminho, por exemplo, vendem, em nome da Cultura, livros péssimos, maus, medíocres, satisfatórios, bons, muito bons, óptimos. 
"Atlas do Corpo e da Imaginação" é e há-de ser por décadas um dos melhores entre os melhores. Por isso, não me parece pecado que tenham estado aqui, ontem, Gonçalo M. Tavares, autor, e António Guerreiro, seu "padrinho", ao balcão, a ajudar a vendê-lo, para nosso consumo e cultivo. «Uma obra de arte total», como ali se disse. Concordo.
Alice disse o quê?

terça-feira, 26 de novembro de 2013

«Cada palavra é uma luta.»

Da entrevista feita por Luciana Leiderfarb a Amos Oz no seu apartamento em Telavive, publicada no Expresso/Atual de 23.Nov.2013

«[…]

Levanto-me às 5h, dou uma volta, às 6h sento-me neste quarto com um café e começo a perguntar: “Como seria se…?” E se tiver sorte começo a escrever.

No kibbutz, quando comecei a escrever regularmente, sentava-me à secretária e por vezes só escrevia algumas frases. Depois ia para a sala de jantar; à minha esquerda havia um homem que tinha ordenhado dez vacas e à minha direita outro que tinha passado a manhã a recolher ovos. Eu sentia-me culpado, porque o meu trabalho apenas consistira em rabiscar umas palavras e apagar outras. Então passei a encará-lo como se tivesse uma loja: de manhã tenho de abrir as portas e esperar. Foi uma forma de lidar com o sentimento de culpa.

[…]

Penso que a minha urgência de escrever tem a ver, sobretudo, com a curiosidade. A curiosidade é uma virtude moral. Uma pessoa curiosa é melhor pessoa, melhor vizinho, melhor pai, até melhor amante do que alguém que o não é.

[…]

o centro do universo é onde vivemos. Não é preciso conhecer o mundo, é preciso olhar para as pessoas que nos rodeiam. […] Observo as expressões, as roupas, os sapatos – os sapatos contam sempre muitas histórias. Tento adivinhar quem são, de onde vêm, que tipo de vida vivem… […] fascinam-me mais as pessoas infelizes, porque nas felizes não há uma história.

[…]

A família é a instituição mais misteriosa e paradoxal do mundo. A mais cómica, a mais trágica e a mais absurda. […] A família está cheia de tensões, de conflitos – entre homem e mulher, entre pais e filhos, em todas as direcções -, mas parece haver algo que a mantém unida. Tenho estudado isto toda a minha vida e ainda não tenho uma resposta. Só sei que não está apenas no sangue.

[…]

a natureza humana não é mutável. O que é que mudou na forma de fazer amor desde o tempo do rei Salomão até aos nossos dias? Talvez apenas o cigarro a seguir.

[…]

Uma sociedade pode ultrapassar a injustiça social, mas não os abismos da injustiça existencial.

[…]

Durante muitos anos estive extremamente zangado com a minha mãe por se ter suicidado (com 38 anos). Estava zangado com o meu pai por tê-la perdido. E comigo próprio porque pensava que, se tivesse sido um bom menino, ela teria ficado entre nós.

[…]

Para um pacifista, o pior mal é a guerra. Para mim, é a agressão. E a agressão, por vezes, tem de ser travada pela força. Uma tia minha que morreu há uns anos e foi sobrevivente do campo de Theresiendstadt disse uma frase que nunca vou esquecer: “Nós fomos libertados não por manifestantes com cartazes mas por soldados com armas”.

[…]

isto não é a preto e branco. O conflito israelo-palestiniano é um choque entre o certo e o certo, por vezes entre o errado e o errado. Recordo que tanto os árabes quanto os judeus foram vítimas da Europa. Os árabes através do imperialismo e da exploração, os judeus através da perseguição e do assassínio em massa. O que temos aqui é um conflito entre duas antigas vítimas da Europa.

[...]

Luciana Leiderfarb- Qual foi o livro mais duro de escrever?

Amos Oz- Um que ainda me surpreende é O Mesmo Mar. Está escrito em verso. Olho para ele como para uma vaca que deu à luz uma gaivota. É demasiado bom, acima do meu nível.

LF- Pode a escrita ser um fardo?
AO- Totalmente. É um trabalho duro. Se escrevo um romance com 55 mil palavras, tenho o mesmo número de decisões a tomar. Cada palavra é uma luta.
[…]»

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Crítica

«A crítica, especialmente a crítica literária dos jornais e revistas, está moribunda.
[…]
há os melancólicos, os canonizadores, os avaliadores, os mediadores, os animadores do gosto, os caçadores de tendências e os que são tudo isto ou várias coisas ao mesmo tempo porque tal é preciso num meio em que a procura é escassa e a autonomia reduzida.
[…]
aqueles a quem se devia dirigir em primeiro lugar a crítica, aqueles que, em última instância, detêm o poder de legitimá-la e de prolongar o diálogo que ela deveria estabelecer, foram excluídos ou excluíram-se voluntariamente porque o discurso deixou de lhes dizer respeito.
[…]
Prescindir do juízo dos pares, dispensar a sua função legitimadora, colocá-los à distância, não procurar a autorização conferida pelas regras do campo específico da disciplina ou da actividade intelectual que se exerce — tudo isso resulta num obscurantismo disfarçado de entretenimento. Nestas condições, a tagarelice não será interrompida porque quem estaria em condições de a denunciar já se demitiu até de entrar nos lugares onde ela reina e se por acaso ou imprudência se cruza com ela limita-se a virar a cabeça para o lado. Não tenhamos ilusões: o crítico pode hoje ser inócuo e medíocre impunemente porque se ausentaram os que o podiam criticar.»
António Guerreiro, “O crítico póstumo
- x -

A propósito, que diz a crítica de A confiança no mundo – Sobre a tortura em democracia, de José Sócrates?
«[…]
Mais raro é o facto de governantes portugueses em idêntica situação procurarem adquirir conhecimentos ou aprofundar leituras e optarem pelo estudo da teoria política enquanto ganham distância em relação à arena onde se embrenharam durante anos a fio e à qual muitas vezes pretendem  regressar. Nem que seja por ter tomado esta opção — exemplar, sobretudo para uma classe política pouco preocupada com questões teóricas e intelectuais — o livro de José Sócrates merece ser lido por críticos e académicos interessados nessas mesmas questões.
[…]
Quanto a Kant, estranha-se apenas que o autor tenha afirmado que lera mais de dez vezes a A Metafísica dos Costumes e esta obra não surja sequer citada na bibliografia final (não confundir com A Fundamentação da Metafísica dos Costumes, também de Kant, como o autor fez notar numa inflamada, extensa e desproporcionada resposta a uma crónica do Comendador Marques de Correia/Henrique Monteiro, publicada no Expresso).
[…]
estamos em presença de um trabalho de mestrado, nem mais nem menos do que isso. Um trabalho competente para os fins circunscritos a que se destinava, e que o aluno logrou alcançar com êxito. Este livro não deve ser avaliado, positiva ou negativamente, em função da personalidade e da carreira públicas do seu autor. Pelo contrário, a apreciação deve cingir-se ao estrito propósito universitário que esteve na génese deste livro.
[…]»
Diogo Ramada Curto

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Gonçalo M. Tavares

faz-nos o grande e impagável favor de dizer.

«[…]
Tenho um fascínio pelo "e" e um grande desinteresse pelo "ou". […] Desvalorizo o "ou" porque remete para isto ou aquilo. Há um texto muito bonito de Kierkegaard que tem a ver com isso. Mas se escrevesse um livro semelhante, o título seria “e e e e”. Porque o que quero fazer como escritor é isto e aquilo e aqueloutro. […] No limite, o “ou” é de exclusão definitiva, remete para uma espécie de inimizade, para dois campos. O “e”, pelo contrário, remete para as ligações, o que me interessa muito mais. […] Tudo está ligado *.
[…]
Com muitas excepções, é muito raro uma pessoa estar duas ou mesmo uma hora seguida concentrada num único objecto. […] Há obras de arte que só podem aparecer se uma pessoa estiver uma, duas, três, quatro, cinco horas em frente delas, sem mudar a sua atenção para outro lado. E este tempo prolongado com o mesmo objecto,  concentrado, é qualquer coisa que as tecnologias  e o mundo contemporâneo estão a perturbar.
[…]
a questão da cidade, tema absolutamente importante para mim. A cidade tem a ver com a tentativa de organizarmos e limitarmos a possibilidade de violência. Também o amor e o desejo. Pense-se numa paragem de metro. A carruagem pára e sai uma multidão. E é muito bonito ver a máquina da cidade a funcionar: saem mil pessoas da estação e começa logo a divisão, 500 para um lado, 500 para outro. E assim sucessivamente, 200 para aqui, outras para acolá. A lógica da cidade é que os mil vão-se dividindo até no final serem duas pessoas que entraram no Rossio e saíram no Lumiar. No limite uma delas vai para o segundo andar e outra para o prédio ao lado. A cidade é um tema que atravessa todos os autores, não é de engenharia, mas absolutamente literário e filosófico. […] As ligações evitam que uma pessoa chegue ao isolamento final da cidade e que de certa maneira não se atire do 8.º andar. Há uma frase do Novalis de que gosto: “Estamos sós com tudo aquilo que amamos”. A nossa solidão tem o tamanho das nossas ligações.
[…]
Gosto muito de pintura e uma das coisas que mais me fascinam é perceber que, nela, uma pessoa não entra na página um. A escrita é muito condicionante do olhar. […] O olhar é livre, não é domesticado pela leitura. […] gosto da ideia de o leitor entrar em qualquer página [do Atlas], sem perguntar o que estava a acontecer.
[…]
O mundo do pensamento e da leitura é um mundo de ligações, de diálogos e isso agrada-me. Há outra ideia muito clara: desde os filósofos da antiguidade clássica até ao Martim Amis ou Philip Roth, todos os autores, escritores e cientistas também estão a falar do mesmo, da morte, do medo e do desejo. E o mais surpreendente são as infinitas possibilidades, as variações. Daí que no Atlas tenha tentado colocar ao mesmo nível um verso e um texto do Walter Benjamin, uma frase da Clarice Lispector ou um verso da Sophia de Mello Breyner ou um texto do Vergílio Ferreira e do Wittgenstein. A poesia argumenta tão bem e convence sobre determinados temas como a Filosofia. […] Não separo entre as pessoas que andam à procura do belo e as que procuram o verdadeiro. As coisas estão misturadas.
[…]
Tenho um pensamento espacial e sou sensível à ideia de que a escrita e o desenho são do mesmo mundo, o do traço. Até a Matemática. Escrevo e desenho com os mesmos traços. E com eles faço uma casa ou um sete.
[…]
É a ideia de partir alguma coisa respeitosamente que me interessa. O que partimos ou fragmentamos é que permite a nossa acção. De outra forma o nosso martelo não acertava em nada.
[…]
interessa-me cada vez mais de que forma um texto pode ser todo ele imagem. Pura descrição, sem raciocínio. A racionalidade pode ser instintiva, por imagens. Mas espero ser um autor racional, sim. É indispensável fazer pensar, a literatura não é um passatempo. Desde o início que digo isto. Sei que pode não ser muito popular dizê-lo, mas a literatura é um espaço de uma certa dureza, que exige um certo esforço dos leitores. […] Acredito na escrita que dá prazer aos leitores, mas está ligada à reflexão, à imaginação, à criação de um mundo próprio. […] O leitor é um emissor. A partir da frase que lê vai criando imagens  que não estão no que lê, mas à volta. E isso é a imaginação. Uma das tarefas mais bonitas da leitura é baixar o olhar sobre o livro e levantar a cabeça. É aí que começam a aparecer dezenas de imagens.
[…]
A minha idade [Luanda, Agosto de 1970] começa a ser suficiente para ser sensato e tranquilo.»
Se o freguês deste blogue é dos que não passam sem dar presentes de Natal, e pode, este Atlas será o melhor deles. «Pode encomendá-lo aqui», citando a recomendação de bolo-rei afixada na Pastelaria Mena desde meados de Outubro, sim, que o Natal estava à porta. Pró réveillon é que ainda falta; pró carnaval é capaz de ser um bocado cedo mas o São Valentim, ai de mim, também vem aí.

E este presentinho, hã? Chiu.
________________________________
* ... de tal modo que Gonçalo M. Tavares usa 15 vezes, nas 4 páginas de conversa, a expressão «tem a ver com».

Fintas do tempo

Mobutu Sese Seko, que foi presidente do Zaire, actual República Democrática do Congo, desde 1965 e durante ininterruptamente 32 anos, morreu em 1997. Só dois anos depois, em 1999, Vladimir Putin haveria de começar a exercer cargos na alta governação da Rússia - sucessiva e alternadamente primeiro-ministro, presidente, primeiro-ministro, presidente.

Assim, estranho o anacronismo de Pedro Mexia no “Governo Sombra” de 15/16.Nov.2013 [minuto 08:55], sem reparo de qualquer dos três argutos circunstantes:

«Nós sabemos que Mobutu diz que não pode sair porque senão o Putin saiu mas ficou ali ao lado para voltar depois…» *

Confio que o excelente Pedro Mexia, nascido em 1972, seja sempre mais fiável nos clássicos, como Santo Agostinho com cujas “Confissões”, pedaços delas, escritas há mil e seiscentos anos, costurou a sua esplêndida crónica, Em busca do tempo[Expresso/Atual, 09.Nov.2013].

Não há passado, mas lembrança; não há presente, mas atenção; não há futuro, mas espera.
__________________________________
* Terá Pedro Mexia querido dizer Mugabe?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Da rasquice e do fôlego

Jorge Calado é quase sempre muito bom a dizer bem das coisas e melhora sempre que diz mal delas; caso, ao acaso, de uma recente «encenação rasca» no São Carlos.

«[…]

Os melhores cantores portugueses andam fora do país – e fizeram elas e eles muito bem (como a maior parte do talento que emigra). Lá se conseguiu arranjar um tenor italiano capaz de esticar a voz até aos agudos (mas que de Luciano só tem o apelido) […] Entretanto, inventaram um encenador (?) que fez pouco, e mesmo isso estragou. Que se perceba, a única recomendação de Mário Redondo para montar uma ópera no São Carlos é ser amigo do primeiro-ministro (que foi espreitar a estreia).

[…]»

Infantilizando a ópera | Expresso/Atual, 16.Nov.2013

______________________________

A plenos pulmões

Linhas antes, historiando as representações de “La fille du régiment”, de Donizetti, informava Jorge Calado: «[...] No século XX, o São Carlos apresentou-a duas vezes: 1901 e 1989. “La fille” só voltou ao repertório nos anos 60, graças às gargantas privilegiadas da Sutherland, do Kraus e do Pavarotti. Aliás, foi a cantar os nove high C de ‘Ah! mês amis, quel jour de fête!’ que Pavarotti (Tonio) ganhou o cognome de “Rei dos Dós de Peito”. [...]»

Oiçam-se, pois, os espantosos nove agudíssimos Dós de Pavarotti. Por exemplo, aqui: os primeiros dois disparados aos 5:41; o nono e último, numa suspensão divinal de sete segundos, aos 6:33. [Gravação “Decca”, 1968].

De outra ordem e noutro reino, um americano de apelido italiano aguentou ontem um fôlego sobre-humano anoanoano de três minutos e trinta e oito segundos. Pavarotti, imagino, lá em cima no assento etéreo de onde tudo se vê, aprecia e decide, observava:  Este é dos meus! Acto contínuo, mandaram subir o senhor Mevoli mal ele emergiu.

mévólimálêlemergiu

domingo, 17 de novembro de 2013

Haiku

«[...]

O nome de Kagawa, o melhor jogador japonês da actualidade, também foi tema de conversa.

[...]

Eu quis
o Kagawa no
Real Madrid
[...]»

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O agastamento de Edviges Ferreira e a nova literacia vocacionalista

«Agastada com o aumento significativo de obras literárias nos novos programas de Português do Secundário, a presidente da Associação de Professores dessa disciplina lamentou publicamente* a inclusão “de um sem número de autores e de obras literárias”, fazendo do Português uma “disciplina de literatura portuguesa”.
[…]
Voltada para as exigências da literacia, a disciplina de Português, língua materna, passou a ser ensinada quase como se fosse uma língua estrangeira. Por exigências da literacia não devemos entender apenas a preocupação com as graves falhas nas competências línguísticas dos alunos, no domínio da escrita e da compreensão. Trata-se de algo muito mais complexo, quase uma ideologia, que tem que a ver com uma nova racionalidade comunicativa que substituiu uma antiga ideia de cultura e está relacionado com o que um universitário norte-americano** chamou “nova literacia vocacionalista”, isto é, a aquisição de uma literacia restrita que fornece competências num código específico. A guerra actualizada nas declarações recentes da presidente da Associação de Professores de Português é aquela entre os que acham que os textos literários são obstáculos na aprendizagem e no treino a que os alunos devem ser submetidos e os que acham que nenhum texto literário é um empecilho, nada impede e muito fornece: quem aprender a ler um soneto de Camões é também capaz de consultar um horário de comboios (exemplo que traz à memória um poema de Enzensberger que começa assim: “Não leias odes, meu filho, lê os horários/ (dos comboios, dos autocarros, dos aviões),/ são mais exactos.”)***.
[…]»
___________________________________ 
* Edviges Ferreira, Público, 05.Nov.2013
** Wlad Godzich, conforme António Guerreiro, “A escola contra a Filosofia” | Expresso/Actual, 13.Jan.2002
*** O poema de Hans Magnus Enzensberger, traduzido por Jorge de Sena e muito bem dito por Cristina Paiva

- x -

«[...] este programa é essencialmente de literatura portuguesa e não de língua portuguesa.
Será que os alunos do sec. XXI conseguirão ser sensibilizados para o estudo só de autores dos séculos passados? O tempo o dirá!»
Edviges Antunes Ferreira, "Uma viagem ao tempo passado" | JL, 13.Nov.2013

domingo, 10 de novembro de 2013

O Comendador Marques de Correia e José Sócrates

De como Henrique Monteiro, do Expresso, tendo ido por lã veio tosquiado.


«[…] descansa, não tens, aqui, nada a temer: depois da leitura desta carta, duvido que ainda haja algum leitor teu que não compreenda que só por ironia (e para, corajosamente, elogiares Sócrates) aceitarias parecer tão ignorante, tão pretensioso, e tão hipócrita. […]»

Expresso/Revista, 02.Nov.2013 | Expresso, 09.Nov.2013

___________________________
Relida a "carta aberta" de 02.Nov.2013 a que Sócrates reagiu ontem, a "Nota do Comendador", de Henrique Monteiro, kantianamente trucidado por KO técnico, soa a miserável arrufo de mau perder. O ódio cega, o ódio cego cega mais.
___________________________
Em tempo
No Expresso de 16.Nov.2013 defende-se Henrique Monteiro e José Lamego defende Immanuel Kant.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Banalidade do mal, banalidade do bem

«[…]

Sujeita a uma repetição tão insistente, transformada numa expressão que "pegou" e que, por isso, como dizia Barthes dos estereótipos, tem uma "nauseabunda impossibilidade de morrer", "a banalidade do mal" ganhou um outro poder: a de nos lembrar que existe uma banalidade do bem. 

[…]

O Parlamento tornou-se, desde há muito tempo, num palco onde se representa a vacuidade da banalidade do bem. Paradoxalmente, esse bem banal caracteriza-se pela obliteração da consciência do mal e, no plano dos instrumentos discursivos, desconhece a ironia e a distância crítica da ordem da metalinguagem. Em suma, é uma política - se tal nome merece - que desconhece a sua matéria primeira: as palavras. E isto é exasperante, dogmático, sem saída.»

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A manta de retalhos de Vânia Carvalho Dias da Silva *

«[…] Uma boa surpresa, muito acima do mínimo que sempre constituiria. Trata-se de um documento com princípio, meio e fim. Escrito num português claro. Frequentemente assertivo. Convido todos os portugueses a lerem-no […] Estamos de regresso à política no seu melhor. […]»

Daniel Bessa, “Guião da Reforma do Estado| Expresso/Economia, 02.Nov.2013


«[…] talvez dos textos mais pobres, mais medíocres, mais vazios que eu vi produzido por algum governo em Portugal. […] um borrão de notas que um político toma para fazer um comício. Acontece que este comício foi feito na Presidência do Conselho de Ministros. […] texto cheio de clichés, cheio de slogans e cheio de trocadilhos que, aliás, é a especialidade do doutor Paulo Portas. […] a instrumentalização do Estado ao serviço da mais vulgar politiquice. […] vulgaridades, banalidades, slogans. […] Nunca o Estado português produziu um papel destes, que me lembre. […]»

"A opinião de José Sócrates" | RTP1, 03.Nov.2013

 

Aceitei o convite do doutor Daniel e, atento principalmente  ao essencial acessório, li o coiso.

Cento e doze páginas de Arial Narrow, corpo 16, espaçamento de linhas duplo, com apresentação paleolítica. «Autor: vania.silva».

O padrão ortográfico tem a coerência e segue o preceito dos esgotos e dos aterros sanitários pré-ecológicos. Consoante as gárgulas - as “fontes” da página 112? -, aplicam-se indistintamente e a esmo as três ortografias em uso na actual esquizofrenia linguística portuguesa a que, aposto, Fernando Pessoa jamais ousaria chamar Minha pátriaa boa, de 1945, que, estranhamente contra o consuetudinário governamental, predomina neste coiso; a de 1990, do Malaca, que pintalguei de amarelo,  e, aqui e ali, enxertos teratológicos das duas. Depois, incorrecções básicas - também as assinalei -, sem patrocínio ortográfico ou gramatical que lhes acuda, como: rúbrica por 'rubrica', inclusivé por 'inclusive', industria por 'indústria', incluíu-se por 'incluiu-se', interfaces intuitivos e seguros por 'interfaces intuitivas e seguras', melhor enquadrados por 'mais bem enquadrados'; concordâncias e regências defeituosas; vírgula inadmissível entre sujeito e predicado repetida até à exaustão; etc.

Que dizer, por exemplo, do desleixo de Código de Trabalho por 'Código do Trabalho'?

Finalmente, imagino quantos de «todos os portugueses» convidados por Daniel Bessa a ler o coiso estarão em condições de decifrar total e correctamente, sem recurso a criptólogos e arúspices encartados, o chorrilho de siglas não explicitadas com que o texto nos massacra: DCI, ENVC, CRESAP, ESPAP, APA, SII, MCDT…        

 

Três ou quatro passagens do coiso:

«em nome do interesse nacional que é de todos» – página 2 [Ao invés do interesse particular que é só de alguns. Este governo é um fofo.]

«A demagogia é, portanto, incompatível com as regras de pertença de Portugal ao euro.» - página 17 [E sobretudo vice-versa, diria eu. Confesso que a  palavra “demagogia” na boca de Paulo Portas me soa sempre a girândola garrida.]

«a redução gradual do efectivo das Forças Armadas para 30 a 32 mil militares» - página 56 [Ora bolas, pensava eu que reforma do Estado que se preze não haveria de fazer a coisa por menos de uma redução para zero militares... Essa é que seria, ó se seria!]

«Ao lançar estas orientações, o Governo actua com humildade democrática.» - página 3

«É conhecido, ainda, que as experiências de simplificação e de desmaterialização administrativas dos últimos anos já mudaram em muitos domínios a relação directa do Estado com os cidadãos e agentes económicos» – página 109 [Mandaria a decência que em vez de «conhecido» fosse «reconhecido». Nisto da simplificação e desmaterialização administrativas, ao menos quanto a isto, disporia o governo de Passos Coelho de oportunidade excelente para, com a «humildade democrática» aqui proclamada, reconhecer ao governo anterior alguma benfeitoria. Mas tá quietinho, macaco: se nem decente, quanto mais humilde...]


No que havia o mefistofélico Portas de meter a sua queriducha e pinícula Vânia de Azurém

_______________________________
* ... e o português claro de Daniel Bessa Fernandes Coelho

domingo, 3 de novembro de 2013

Herdeiros do Eça

12.Mar.1878- Newcastle, carta de Eça de Queirós a Teófilo Braga:

«Meu caro Teófilo Braga.

[…] Eu tenho a paixão de ser leccionado; e basta darem-me a entender o bom caminho para eu me atirar para ele. Mas a crítica, ou a que em Portugal se chama a crítica, conserva sobre mim um silêncio desdenhoso. […]»

28.Ago.1987Na reunião plenária em que se aprovava o programa do XI Governo Constitucional, António Almeida Santos, 15.Fev.1926, PS, um dos melhores tribunos, se não o melhor, que passaram por São Bento depois do 25 de Abril, dirigindo-se a Aníbal Cavaco Silva, 15.Jul.1939, [bronco, videirinho, sem ideologia; o mais nefasto e extenso pesadelo da democracia portuguesa, à volta de quem embrionou e medrou tudo o que de mais medíocre, ignóbil e crapuloso a política pariu nos últimos 40 anos], na altura recém-reempossado Primeiro-Ministro:

«[…] E, já agora, porque herdei do Eça a "paixão de ser leccionado", peço-lhe – a Cavaco Silva - que me ensine por que imperativos nacionais devo acompanhá-lo na recusa das ideologias.

Haverá mesmo política sem elas? Ou Estado sem política? Ou automóvel sem motor?
Não sou sectário e, uma vez mais como o Eça, "vejo capitalistas sem empalidecer". Tecnocratas sem alma é que não! Recuso, com Burdeau, a "mediocridade de projectos de que desertou o espírito". Acredito na força das ideias, e já convivo há tantos anos com as minhas que não aceito desquitar-me delas. Faço até questão em continuar a ter a certeza - como dizia o outro - de que é o leiteiro quem de manhã me bate à porta. […]»
Na bancada do PS, José Sócrates, 06.Set.1957, deputado maçaricoacabara de ser eleito, pela 1.ª vez, no círculo de Castelo Branco. 
25.Jun.2010- Intervenção do Primeiro-Ministro, José Sócrates, no plenário da Assembleia da República em que se debatia o desenvolvimento económico do país, reagindo a Heloísa Apolónia d’ Os Verdes:
«[…] Senhora deputada Heloísa Apolónia, herdei do Eça a paixão por ser leccionado. A senhora deputada, quando quiser dar lições, faça favor que eu oiço! Aliás, adoro vê-la, nesse estilo pós-moderno, de mestre escola que quer dar lições de estalinismo. […]» 

03.Nov.2011- José Sócrates, ex-primeiro ministro [continuo sem vislumbrar na História contemporânea de Portugal pessoa com mais estaleca para o cargo do que José Sócrates], conferenciando em Poitiers, ao minuto 01:21:20:

«[…] Um dos grandes intelectuais portugueses disse um dia que tinha a paixão de ser leccionado. Eu tenho também essa paixão. […]»

02.Nov.2013- "Alta definição", SIC, minuto 22:20:

Daniel Oliveira– Tem algum sonho para cumprir?

José Sócrates- Imensas coisas para cumprir […] Tenho muitas coisas a fazer; em particular, beneficiar desta nova experiência livre de responsabilidades…

DO- O que é que está a ser tão bom?

JS- Ter-me entregue à reflexão, à escrita, à educação no sentido de ser leccionado; eu herdei do Eça a paixão de ser leccionado.


Eu, Plúvio, também tenho a paixão por ser ensinado. Herdei-a da mais pura ignorância. Da pura.

sábado, 2 de novembro de 2013

José Sócrates e a jornalista Clara Ferreira Alves

Daniel Oliveira- Tem sido muito comentada a questão da linguagem na entrevista ao Expresso. Como é que tem acompanhado o que se tem dito?

José Sócrates- Eu nunca utilizo aquelas expressões em público - nunca! -, como os portugueses puderam ver ao longo de toda a minha vida pública. E lamento que a decisão da entrevistadora [Clara Ferreira Alves] tenha sido a de utilizar essas expressões que eu utilizei numa conversa que não era de pergunta/resposta; uma conversa que foi gravada para que a jornalista pudesse utilizar num texto. Nunca me passou pela cabeça que isso pudesse ser editado daquela forma. Mas essa foi a decisão da jornalista, com a qual eu nada tenho a ver, e o que está dito está dito. E se algumas pessoas não gostaram, eu repito: primeiro, acho que todos os ataques de índole pessoal que me fizeram foram um contributo negativo para a nossa vida política e acho que a direita política portuguesa* é responsável por uma decisão que nada tem a ver com os interesses nacionais quando decidiram obrigar o país a pedir ajuda.


Clara Ferreira Alves, Expresso/Revista, 19.Out.2013:

«[…] Nunca, depois da entrevista dada, José Sócrates me pediu para alterar ou omitir frases que tinha dito. […]»

____________________________________
* Acolitada pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista Português, sôfregos por eleições e mais deputados à manjedoura; e o país que se fodesse. Como se vê.
____________________________________

E lá voltou o errar duas vezes:

«O Nietzsche observava que arrependermo-nos é errar duas vezes.» [minuto 12:30]

Alvíssaras a quem me esclarecer acerca desta putativa afirmação de Nietzsche. Em que obra, página?...

Em “Humano, demasiado humano”? Não vejo.

À beira do fim

«[…] À beira do fim há sempre tanta coisa que começa. Uma das lembranças que me são mais queridas provém, por exemplo, do último internamento do meu pai. Recordo-me de, por dias e dias, andar de mão dada com ele, muito devagarinho, no grande corredor do hospital. Eu passava-lhe toda a força que podia com a minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.»

José Tolentino Mendonça, “Aprender a morrer| Expresso/Revista, 02.Nov.2013

Rogério Casanova

Pastoral Portuguesa
- “As sobras – Todos se sentem sobreviventes” [Arrebatamentos, assunções e desaparições súbitas em O Mundo depois do Fim, de Tom Perrotta, Contraponto/2012, passando de raspão por Left Behind, de Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins]
- ‘Consultório literário’
«[…] não me lembro de lhe ler apreciações a livros de fantasia. É uma omissão circunstancial, ou simplesmente não é a sua praia?»


O homem na balança”, sobre Libra, de Don Delillo, Sextante/Novembro de 2013, em torno do assassínio, em 22.Nov.1963, de John F. Kennedy [«O lirismo condensado de DeLillo, um lirismo da superstição, da coincidência, da paranóia, nunca soou tão bem, e nunca devolveu tantas frases citáveis: um facto é inocente até alguém o querer; depois torna-se informação ou a História é a soma de todas as coisas que não nos dizem, ambas com potencial para serem promovidas a autocolantes ou estampadas em T-shirts.»]

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Claudio Magris à conversa com António Guerreiro

"Decifrar o alfabeto do nosso tempo"

Bárbara-Carrilho, a imundície e o Expresso

«[…]

Quem lê jornais não pôde deixar de assistir, nos últimos dias, ao espectáculo obsceno de uma guerra conjugal entre uma apresentadora da televisão e um ex-ministro da Cultura. O assunto é mesquinho, mas revelou algo que convém notar: até jornais com um respeitável passado se comportam perante a imundície jornalística como a esquerda francesa face à extrema-direita, seguem-lhe o rasto para não ficarem para trás.

[…]

o Expresso prova que, em tempos de ascensão da lumpen-burguesia, ele está perfeitamente à altura da sua época. Do Verão azul da Comporta às imundícies negras das Avenidas Novas, o seu raio de acção é amplo e ele sabe que não tem de se envergonhar por conviver com lixo público conjugal (sobretudo quando é produzido por quem é) nem tem de, por razões metodológicas, colocar tacitamente esta pergunta aos seus leitores: "Qual é o limite a partir do qual sentem vergonha?". Tal pergunta implícita abriria uma fissura entre a lumpen-burguesia, que ele acarinha e o acarinha a ele, e uma classe de leitores que, embora relutante, regressa todos os sábados para uma oração matinal.»