sexta-feira, 28 de março de 2014

Biopolítica, biopoder

«[…]
O que significa dizer que daqui a 200 anos já não haverá portugueses? Que o território nacional está despovoado (hipótese absurda, apenas verificável se as fronteiras fossem fechadas por uma polícia fanática e suicida) ou que o “sangue” que por aqui corre pertencerá a outras “linhagens”, que queremos excluir da pertença a uma cidadania portuguesa? Mas, afinal, a linhagem actual tem algo de “próprio” que está ameaçado de degeneração?
[…]
Ainda na semana passada ficámos a saber que a um casal português, em Inglaterra, foram retirados os seus cinco filhos por “risco futuro de dano emocional”. É certo que não conhecemos a situação para avaliar convenientemente. Mas o argumento baseado no “risco futuro” para separar coercivamente cinco crianças e instalá-las em internatos e famílias de acolhimento mostra até que ponto o Estado já não se limita a intervir sobre o “como” da vida, sobre a maneira de viver, mas vai mais longe: apodera-se de toda a vida. Não é que os filhos não devam ser protegidos das sevícias que os pais sobre eles eventualmente exerçam. Mas, uma vez caídos nas garras do Estado, eles ficam submetidos, sem protecção, à pior das sevícias. Os esquemas biopolíticos de intervenção sobre a vida e a realidade populacional não estão, porém, desligados de um fenómeno de abstractização generalizada que tanto se aplica à monetarização e financeirização da economia como ao nascimento de crianças.
[…]
As regressões dos nascimentos são como as regressões da poesia: dão-se quando se extingue um território de crenças e de sentimentos. É a este território que devemos atribuir a razão pela qual, nas sociedades ocidentais, a natalidade entrou em regressão, e não a critérios exclusivamente materiais.»

quinta-feira, 27 de março de 2014

No que me entretinha às treze e sete, e outros tês.

Como se por ser pinículo lhe devêssemos tolerar a burrice,
o ministro disse:
«[...]
Acho bastante negativo, de resto, que alguns partidos da oposição, tanto quanto sei ao longo da manhã de hoje, entreteram-se já a cavalgar essas notícias [...]»

Já eu, de resto, acho bastante negativo que o Ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, doutor Luís Marques Guedes, senhor de verbo garboso, tanto quanto sei [do currículo escolar conhece-se infinitamente pouco] e conforme oficialmente apenas consta, «licenciado em Direito, jurista de profissão»*, se estatele com tamanha ignorância no pretérito perfeito de entreter. Além de que «Acho bastante negativo … que alguns partidos da oposição … se tivessem entretido …» era como o doutor deveria ter dito.
_________________________________________
* Merece prémio quem, em menos de três minutos, lobrigar na internet a universidade em que Marques Guedes se formou. Demorei bastante mais e não sei se me fie no sítio, aliás único, onde vem que Luís Marques Guedes é licenciado em Direito pela universidade de … **
Porquê tanto mistério? Discrição e humildade, decerto.

** A pedido de um leitor exasperado, aqui vai: foi na, tarantantan!,  universidade de Verão  ...  ... ...  ...  ... que li em que universidade o senhor doutor se licenciou.

domingo, 23 de março de 2014

Sobernal

«[...]
Em média, o tempo de trabalho é hoje superior ao que vigorava no século XIX. Todas as utopias que prometiam uma sociedade do lazer e viam no progresso tecnológico um meio que nos libertaria do trabalho foram desmentidas. Pior do que isso: a evolução e a multiplicação dos utensílios, em vez de serem factores de libertação, dilataram o tempo de trabalho e elevaram à máxima potência a lógica económica que se realiza na corrida pelo aumento da produção e do lucro. Evidentemente, isso só foi possível pondo em prática métodos de gestão que submetem, controlam, pressionam e induzem a uma competição que quebra solidariedades e cria delatores. Veja-se, aliás, como o apelo governamental à delação — algo que outrora seria considerado abjecto — começa a generalizar-se. O burn-out consiste em ultrapassar o limiar da resistência a uma adaptação violenta, coerciva, que, no limite, exige dos empregados que eles sejam “empreendedores” e, até, que os artistas se inclinem perante os códigos e as prerrogativas das indústrias culturais. Adaptação e flexibilidade são os nomes da actual ideologia do trabalho e da produção.
[...] a regra em que vivemos: os hospitais estão cheios de médicos doentes; as escolas estão cheias de professores que temem mais as aulas e a avaliação a que estão submetidos do que os alunos que ensinam e avaliam; os guardas das prisões estão tão encarcerados como os detidos que vigiam. Não há exterior ao tempo de trabalho. E, imersos em tudo isto, aqueles que dizem combater o capitalismo, ou pelo menos as suas lógicas mais nefastas, não fazem senão exaltar o trabalho e fixar as formas de vida que ele implica.
[...]»

quarta-feira, 19 de março de 2014

Esterco em Ré menor e a justa reabilitação de um papagaio de papel*

Em 1981, os bolivianos Los Kjarkas gravaram "Llorando se fué", composição de Ulises Hermosa [1954-1992] e do seu irmão mais velho, respeitável médico, Gonzalo [1950-], que viria a tornar-se um êxito planetário, de La Paz à Bobadela, incluindo Tóquio, sucessiva e alambadamente interpretada por, entre outros, o porto-riquenho Wilkins, 1984a brasileira Márcia Ferreira, 1986, a brasileira Yvete Sangalo, 2005 ou a norte-americana Jennifer Lopez, 2011. Mas quem haveria de estrelar o sucesso, sem alterar a tonalidade, foi a formação franco-brasileira Kaoma, em 1989, pela voz de Loalwa Braz. Os Kaoma alambadazaram-se sem autorização dos autores e por isso foram judicialmente obrigados a indemnizá-los.
Letra original:
"Llorando se fué"
Llorando se fué
Y me dejó solo sin su amor
Llorando se fué
Y me dejó solo sin su amor
Solo estará, recordando este amor
Que el tiempo no puede borrar
Solo estará recordando este amor
Que el tiempo no puede borrar
La recuerdo hoy
Y en mi pecho no existe rencor
La recuerdo hoy
Y en mi pecho no existe rencor
Llorando estará, recordando el amor
Que un día no supo cuidar
Llorando estará recordando el amor
Que un día no supo cuidar

Versão brasileira:
"Chorando se foi" ou "Lambada" [pelos Kaoma]
Chorando se foi quem um dia só me fez chorar
Chorando se foi quem um dia só me fez chorar
Chorando estará ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar
Chorando estará ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar
A recordação vai estar com ele aonde for 
A recordação vai estar pra sempre aonde eu for 
Dança sol e mar guardarei no olhar 
O amor faz perder encontar 
Lambando estarei ao lembrar que este amor 
Por um dia um instante foi rei 
A recordação vai estar com ele aonde for 
A recordação vai estar pra sempre aonde eu for 
Chorando estará ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar 
Canção riso e dor melodia de amor 
Um momento que fica no ar

Tudo no mundo vinha correndo mais ou menos bem, tirando o desterro das tartarugas para a Ásia, eis que, na noite de sábado para domingo passados, se dá aquela calamidade no Convento do Beato: uma tal Suzy, rainha do Carnaval da Figueira da Foz, aparece a cantar, mais desafinada do que um autoclismo destemperado, a composição de — letra e música, diz ele, e provavelmente já as registou na Sociedade Portuguesa de Autores — um tal Emanuel, sumo pontífice do pimba, que dá pelo volitivo título de "Quero ser tua", com o seguinte desenvolvimento ontológico:
Em minhas asas eu quero levar-te ao céu
E em meu nu beijar-te tudo o que é meu
Eu quero ser o teu cupido da paixão
Eu quero ser a dona do teu coração
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o sol do seu brilhar
Eu quero ser tua como o rio é do seu mar
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o mel do teu beijar
Eu quero ser tua, eu nasci para te amar
Eu quero ser a luz que guia o teu caminho
Quero levar-te o doce mundo do carinho
Quero banhar-me no teu corpo de prazer
E saciar a minha sede de te ter
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o sol do seu brilhar
Eu quero ser tua como o rio é do seu mar 
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o mel do teu beijar 
Eu quero ser tua, eu nasci para te amar
Eu quero ser tua, oh, tua!!!!!
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o sol do seu brilhar 
Eu quero ser tua como o rio é do seu mar 
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua, oh, oh, oh, oh, oh
Eu quero ser tua como o mel do teu beijar
Eu quero ser tua, eu nasci para te amar

Para nossa grande vergonha e com falta dela, a RTP prepara-se para levar este esterco a Copenhaga em 06 de Maio próximo, sob o estandarte de Portugal.
Não bastasse a indigência do conteúdo e da interpretação, com coreografia apopléctica, sucede que a melodia dos versos assinalados a azul é decalque descarado da melodia — o Ré menor boliviano mantém-se — correspondente aos versos que também assinalei no original em espanhol e na versão brasileira; para não falar dos motivos orquestrais igualmente mimetizados.
36 anos depois do memorável serão de 22 de Abril de 1978 no Palácio dos Congressos em Paris, vejo-me forçado a admitir o que nem nos momentos mais complacentes do discernimento julgaria possível: comparado com "Quero ser tua", "Dai Li Dou" — letra de Carlos Quintas, música de Vítor Mamede —, pelos Gemini num Fá maior afinado e honesto, merece reintegração no ramo sacro do repertório clássico.
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terça-feira, 18 de março de 2014

Rita Ferro

- O que é que dizem os seus olhos?
- Às vezes, mentiras.
Mantenho desde os anos 70 do século passado, quando encomendava discos à Lúcia de Abreu e livros à Marta Neves [grandes cacas alguns, enfim],  um crescente fraquinho por Rita Ferro, escritora.
Decepciona-me a leviandade preguiçosa com que se apouca a valia de uma pessoa como ela.
E não, não preciso de neste verbete falar de mais alguém ou de alguma coisa de que goste, para "compensar" a altíssima recomendabilidade dos meus gostos ante leitores do Chove que desdenhem, como eu, de escritoras como Margarida Rebelo Pinto ou, vá, Mónica Marques.
"Veneza pode esperar".
Ia para citar Albert Einstein, que fica sempre bem citar num blogue culto - É mais difícil desfazer um preconceito do que um átomo. -, mas confirmo o que receava: é muito mais fácil dinamitar um preconceito do que confirmar na internet a autenticidade de uma citação. Quando, onde, em que obra, em que carta, a quem, em que circunstância e de que exacto modo Einstein disse ou escreveu isso? Átomos, então, cindo-os como quem descasca pevides.
Todavia, não me decepciona menos a preguiça leviana com que se enaltece a mediocridade.
E assim sucessivamente

segunda-feira, 17 de março de 2014

O valor das palavras

21:05- Eu acho que este episódio  chumbo parlamentar, em 14.Mar.2014, da co-adopção por casais do mesmo sexo  foi uma desgraça. […] Mas verdadeiramente o que fica daquela votação é esta ideia de um parlamento democrático no século XXI, perante uma injustiça clara que nós temos na nossa sociedade, perante a necessidade de dar uma resposta a pessoas que têm as famílias constituídas, que lhes digamos "não". Isto significa manter a discriminação. […] Somámos à injustiça a injúria. […] Nós estamos a dizer a essas pessoas que não têm o mesmos direitos que nós. E porquê? Porque são homossexuais. […] O problema não está nessas pessoas; o problema está em nós, no nosso preconceito, na nossa educação, na nossa cultura. Aí é que está o problema.

21:09 [Sobre a morte, em 12.Mar.2014, do patriarca emérito de Lisboa, José Policarpo]- Ainda bem que me dá oportunidade de poder deixar uma palavra a José Policarpo. […] Era um homem de uma grande inteligência e de uma grande sensibilidade. Eu tenho gosto em recordá-lo. […] Lembro-me de que no final da cerimónia — 05.Out.2010, inauguração da igreja da Divina Misericórdia em Alfragide, Amadora — nos encontrámos para celebrar aquilo que me parece ser uma das grandes obras de Dom [link especialmente para si, caríssima Fernanda] José Policarpo: foi ter conduzido uma Igreja bem integrada numa sociedade democrática e plural. Essa foi a grande obra que José Policarpo nos deixa.

Apreciem-se, então, alguns ladrilhos da grande inteligência e da grande sensibilidade, que tanto impressionavam o engenheiro Sócrates e que grande gosto terá decerto em recordar, da mui respeitável criatura cuja morte suscitou das maiores enxurradas de ranço e unanimidade mediática* a que nos últimos tempos se assistiu por cá:

Fátima, 19.Jun.2013
«D. José Policarpo, patriarca emérito de Lisboa, disse hoje que a legalização do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo são o “mais chocante” exemplo da recente evolução cultural em Portugal.
[…]
O patriarca emérito de Lisboa considerou que neste “positivismo”, as leis não são tanto “propostas éticas” que ditem “caminhos de verdade e do bem”, mas “regulação da realidade humana, seja ela qual for”.
“Aborto clandestino era uma realidade preocupante? Legaliza-se a interrupção voluntária da gravidez, relativizando o sentido ético da interrupção violenta da vida”, exemplificou D. José Policarpo.
“A homossexualidade é uma realidade, pessoas do mesmo sexo estabelecem relações amorosas que na antropologia cultural são próprias da relação do homem com a mulher? Estabelece-se a igualdade de género, sendo a opção homossexual tão verdadeira como a heterossexual, permite-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e está-se à beira de permitir adopção de crianças por esses pares de pessoas do mesmo sexo”, prosseguiu.
D. José Policarpo sustentou que estes dois casos, protegidos por lei, estão em “total ruptura com a visão do homem em sociedade, enraizada no direito natural e aprofundada na visão cristã da sociedade”.
[…]»
Ecclesia - Agência de notícias da Igreja Católica em Portugal
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* O padre Henrique Pinto, honra lhe seja, constituiu a isolada diferença entre o mugido louvaminheiro na longuíssima tarde exequial de 14 de Março, das 15:00 às 19:30 (!), dos três canais de notícias no cabo [RTP Informação, SIC N, TVI24].

sexta-feira, 14 de março de 2014

Se a virgem concebeu do Espírito Santo, qual é a admiração?

De tanto se vir para dentro de meias, acabou por emprenhar uma*.
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Facebook e outros palratórios

«O principal tropismo das redes sociais (como o Facebook), dos blogues e do jornalismo instantâneo on-line são as manifestações de superfície. Eles afogam-nos na prosa do mundo e na banalidade, criam ondas e centros de atracção, recriam uma lógica tribal e fornecem o ornamento da massa.
[…]
o uso que fazemos das tecnologias da informação e da Internet permitiu-nos criar a ilusão de que vivemos num mundo completamente fanérico e onde foi potencializado o exercício da crítica. Ora, a deambulação desenfreada pelas manifestações de superfície (o vício maior a que estamos expostos) impede-nos de parar e sondar os mecanismos secretos da sociedade. Daí, este paradoxo que decorre das facilidades da indignação, sempre muito mais rápida do que a análise: aquilo que é hoje objecto de uma onda de indignação ou de sátira colectiva vê legitimado o seu lugar, teve direito a um atestado de existência. É exactamente o mesmo que acontece aos cronistas que concitam o insulto e um vasto consenso de que têm uma jubilosa inclinação para a imbecilidade: isso garante-lhes o posto, porque passam a ser olhados com aquele fascínio universal que a estupidez suscita. Reconstruir o sentido da nossa época tornou-se mais difícil do que nunca. Não por falta de atenção às suas manifestações de superfície, mas porque tudo se tornou “pessoal”, isto é, diz sempre respeito a pessoas, a entidades civis com nomes próprios. É a lógica do Facebook.
[…]»

quinta-feira, 13 de março de 2014

O Credo, o PIB e o Hino

Sem fé que me valha, fui ver [não confundo com "participar"] a missa das seis.
Pelos 25 minutos da celebração, todos os presentes menos eu desataram a recitar, de cor e em coro, sem qualquer hesitação prosódica ou sintáctica, isto:
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito  de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;
gerado, não criadoconsubstancial ao Pai.
[…]
Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho;
[…]
espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir. Amen!»

À saída, pedi separadamente a quatro senhoras ao calhas, na casa dos 60-70, todas dando mostra de andarem a rezar aquilo de cor, pelo menos uma vez por semana há mais de 50 anos, se me explicavam o que significa cada uma das palavras e expressões avivadas  a negrito.
Ainda contribuí no «procede»  — quem sabe significasse o mesmo que aquilo que se ouve na CP: o comboio procedente da Azambuja… — mas nenhuma me ajudou por aí além; todas admitiram, com bonomia e simplicidade desvanecedoras, que foi como aprenderam, que na igreja há palavras difíceis de entender e que o importante é a Fé.
Perguntei-lhes ainda se sabiam o que é o PIB.
Têm ouvido falar disso na televisão, mas nenhuma fazia ideia. Eu também não.

Aposto dobrado contra singelo — ao contrário é usura, doutor Pedro Marques Lopes...  — em que aquelas simpáticas fiéis também não sabem o que são egrégios avós; e isso, não só o dizem há mais anos do que o Credo como até cantam de cor. Foi o que lhes ensinaram.
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* Eu acredito neles todos; feitos todos à imagem e semelhança do homem. Enfim, alguns têm barbas brancas muito compridas e nem todos usam báculo

Rogério Casanova


Pastoral Portuguesa

- ‘Possuídos pelo amor da sobrevalorização'

«[…]

A opinião moderada é rara e ouve-se quase sempre em contacto pessoal. Quase ninguém sente a urgência de expressar os seus sentimentos numa plataforma pública quando os sentimentos se resumem a achar que uma canção é razoável, ou que um romance é assim-assim. Como as opiniões moderadas são, à partida, excluídas do debate, este tende a ser orientado por duelos correctivos e reacções de pânico hierárquico. Se a resposta a um livro for vagamente positiva e se encontram três respostas violentamente negativas, o impulso é calibrar a opinião original para um nível mais drástico, mais não seja para neutralizar os excessos opostos.

[…]

A acusação mais conhecida (e bem-sucedida) contra um romance sobrevalorizado aconteceu nos Estados Unidos em 1957, quando By Love Possessed foi publicado perante uma orgia de aclamação: vendeu meio milhão de exemplares em poucas semanas e os mais conhecidos críticos americanos formaram filas ordeiras para o elogiar como um marco na história da literatura.

[…]

tudo isto é um processo longo e contínuo, porque a derradeira correcção de valor é feita pelo tempo.

[…]

A sobrevalorização existe, mas é extremamente sobrevalorizada.»


Acusam-me de sobrevalorizar Rogério Casanova. Não têm razão.


- ‘Consultório literário’

Qual é a melhor maneira, assim em termos literários, de calçar um par de meias? Há algum bom livro sobre o tema? - Jaime

«Caro Jaime,

[…]

O problema é que o aparentemente elegante método do pré-amarfanhamento + deslize telescópico reduz as probabilidades de desalojar quaisquer partículas de sujidade incrustadas na sola do pé durante a caminhada entre a casa de banho e o quarto, sobre o chão que as badalhocas das pessoas nunca aspiram devidamente (o que é todo um outro problema).

[…]

Quanto a um livro sobre o assunto, recomendo o extraordinário The Mezzanine, de Nicholson Baker (infelizmente, creio, sem tradução portuguesa), que apresenta toda a reflexão anterior de forma muito mais eloquente.»


Breve história pessoal do horror

«Muito embora a história da literatura de terror não exiba propriamente uma colossal colecção de obras-primas, quando uma história de terror é eficaz, é também sempre muito mais do que uma eficaz história de terror. Aqui está uma bibliografia essencial.

[…]

susto, repulsa, inquietação metafísica. […]

O primeiro e o segundo registos são os mais fáceis de alcançar, dependendo apenas do estímulo das extremidades nervosas para provocar reacções instintivas e viscerais. O terceiro é mais complicado: porque funciona ao retardador, porque depende da colaboração de outras faculdades, porque é obrigado a universalizar com precisão um temor, ao mesmo tempo que o faz colidir com sensibilidades individuais. Quando uma sequência de caracteres numa página consegue os três efeitos, alguém, algures, está de parabéns.

[…]

Dos últimos cem anos, aqui ficam dez exemplos do que acontece quando as coisas correm bem.

[…]»

terça-feira, 11 de março de 2014

Os tweets de Paulo Rangel e o poder de síntese de Pedro Mexia

Paulo Rangel é federalista; Pedro Mexia, abrenúncio.

federalismo*
«Esse tweet chega, não preciso dos outros 100. Essa palavrinha chega-me, como possível eleitor — neste caso, como não-eleitor —, para não votar na coligação, e essa é uma questão essencial.  …  São apenas nove caracteres, é um microtweet, mas a mim chega-me, não preciso de ler os outros 100.»

Vêm-me inevitavelmente à lembrança as famosas 'sete letras de Pascoaes e de Pasolini', contadas por António-Pedro Vasconcelos na apresentação de "São Paulo".
A-PV tê-las-á contado de ouvido, sendo de presumir que o revisor da Assírio & Alvim conferiu na calculadora.
__________________________________
* Palavra não explicitamente ladrada por nenhum dos 101 dálmatas de Rangel, nem por isso federalismo [11 caracteres, como Pedro Mexia bem contara segundos antes de chegar à síntese] deixa de ressoar por todo o manifesto da "Aliança Portugal" [muito engole o CDS…], maxime no tweet 19., anteriores e seguintes, não considerando os demais 
em português, ão-ão-ão,
au-au-au em alemão.

Apetece-me maledicência:

dizer de quem diz mal e a quem mal se perdoa que mal diga.
Viva a língua portuguesa!

.  Clara Ferreira Alves, licenciada em Direito, jornalista, escritora
[Nada como começar pelas estrelas. Em artigo de há dois meses, bastante recomendável, de que ninguém falou e a que talvez volte por causa de uma tralha que trago a levedar, diz Francisco Pinto Balsemão de Clara Ferreira Alves, sua dilecta assalariada no Expresso:
«(…) A própria Clara Ferreira Alves é uma marca/estrela que muito valoriza a constelação jornalística do Grupo Impresa. (…)»
Clara Ferreira Alves está envelhecida (eu, que nasci três anos antes, acompanho e aprecio a sua prestação escrita e televisiva desde que ela trabalha em público, vivo ciente de que cada segundo na idade dela representa um segundo a mais na minha), prenhe de si, tem-se em himalaica conta e exprime-se infestada de tiques — e portanto, dito isto, etc.— e de meneios de sobranceria*. Ninguém a contrarie, que ela grita mais.
Mas, tirando os defeitos de expressão, alguns rombos no rigor**, e não obstante a idolatria cega por Mário Soares e o alinhamento fascinado por Ricardo Sá Fernandes, apóstolo de Camarate e da inocência de Carlos Cruz***, tenho CFA por muito boa; é, sem ironia, das melhores. Tanto me encanita quanto a admiro, concordando com ela a maioria das vezes, na maioria dos casos.]
Mas vejamos três ou quatro amostras do eloquente falar de CFA, que é isso que aqui me traz.
Eu andei em Coimbra, a inventora desta obnóchia tradição., referindo-se às praxes académicas.
A doutora de Coimbra que me desculpe mas, na frequência instruída em que gosta de emitir, obnóchia soa a enormidade ridícula numa boca culta. 
A licenciada em Direito e comunicadora de TV Clara Ferreira Alves diz recorrentemente, e sempre mal,  acòrdos, pèrda, èconoclastia, pzeudo-alèrgias, pâtético.
["O Eixo do Mal", "O que fica do que passa", mas oiça-se em particular a conversa com Aurélio Gomes no programa "Baseado numa história verídica", Canal Q, 01.Dez.2012]

Não diferencia "melhor" de "mais bem". Exemplo: Acho que estou melhor preparada.

Atente-se no solecismo que assenta particularmente mal numa auto-reclamada queirosófila: Vão começar a haver na Europa movimentos destes., referindo-se ao Tea Party.

Etc., como, e portanto, ela diz.

.  Vítor Ramalho, licenciado em Direito
Vão haver agora eleições para o Parlamento Europeu.

. Aníbal Cavaco Silva, doutorado em Economia, professor universitário, Presidente da República
Vamos ver aqui este belo trofeu...
Palácio de Belém, 20.Jan.2014
Acho que só por caridade com o falante e consideração pela língua portuguesa é que A Bola TV não legendou exactamente como o Presidente falou. Ouvi bem: o professor doutor disse por cinco vezes trofeu, a rimar com Bartolomeu, meu, deu, eu e o sr. Tadeu.
[Em tempo: Canal Q, Altos & Baixos, 28.Mar.2014

.  Maria João Avillez, tia, jornalista, escritora
Ó Mário, quando é criada uma situação que tem que ser debelada, o remédio é amarguérrimo, o remédio foi amarguérrimo.
Não admira que quem diz verosímel, inverosímel ou idiossincracia não conheça o superlativo de amargo.

.  Henrique Cayatte, professor universitário, designer
plàtaforma, gèração, gèracional
Gosto de Henrique Cayatte.

.  Luís Represas, músico
Gravou e anda a cantar há 30 anos um enorme dislate gramatical e um desrespeito menor ao original de Carlos de Oliveira [poema "Xácara das bruxas dançando", do livro "Mãe Pobre", publicado em 1945]:
«[…]
Ó castelos moiros, armas e tesoiros  /  Quem vos escondeu?
Ó laranjas de oiro que ventos de agoiro  /  vos apodreceu?
Há choros, ganidos,  /  à luz das cavernas  / onde as bruxas moram, 
onde as bruxas dançam  /  quando os mochos amam  /  e as pedras choram.
[…]»
«[…]
Ó castelos moiros, / armas e tesoiros, quem vos escondeu?
Ó laranjas de oiro, / que vento de agoiro / vos apodreceu?
Há choros, ganidos, / à luz da caverna / onde as bruxas moram, 
onde as bruxas dançam  / quando os mochos amam / e as pedras choram.
[…]»
Para rimar com escondeu teria de ser vento o que apodreceu as laranjas. Por outro lado, as bruxas do poeta moravam todas na mesma caverna. Luís Represas dispersou-as.
Interpretação [Rock in Rio, 2010] e letra, com os perpetuados "erros Trovante".
- Declamação de Maria Barroso. Ela diz bem, "vento", ainda que a letra aqui apresentada contenha os "ventos" espúrios. O que a doutora diz mal, inventa, é «as unhas podres de nojo». Carlos de Oliveira escrevera «podres de tojo».
- Mas quem, apesar dos "ventos", afinal virais na transcrição do poema, recita "Xácara das bruxas dançando" esmerada e impecavelmente é João Grosso
  
.  Pedro Vieira, licenciado em Publicidade e Marketing, ilustrador, apresentador de TV, blogger
drògados
Canal Q, "Inferno" 

.  O patusco Fernando Seara, licenciado em Direito, benfiquista
Há passeios em Lisboa cheios de buracos. … As pessoas caem, magoam-se, trocem o pé.

as consequências resultantes daquilo que eu chamo os swaps
Eu diria mais: as consequentes, decorrentes e advindas consequências resultantes e supervenientes

.  Pedro Passos Coelho, licenciado em Economia, Primeiro-Ministro, pinículo
«Hoje, na Assembleia da República, o primeiro-ministro disse claramente estejemos. Esperemos que tenha dúvidas e que procure rapidamente saber como é.»
Mas não procurou:
Isso não significa que estejemos alheados das muitíssimas dificuldades que estamos a viver.
Desde que nós tenhamos os pés assentes na terra e sejemos realistas
Registe-se a supressão cirúrgica da frase com o sejemos no vídeo disponibilizado pelo Governo de Portugal. Ad usum delphini... 

.  Assunção Cristas, licenciada em Direito, ministra, pinícula
Isto não quer dizer que sejemos fracos com os fortes.

.  João Perry, actor, declamador, encenador
Levávamos pacotes de papel pardo com feijão, grão e outras virtualhas.

.  Jorge Barreto Xavier, licenciado em Direito, Secretário de Estado da Cultura, pinículo
Isso foi uma enfabulação de uma circunstância., ...
… quem sabe se sob influência remota da cultivadíssima
.  Maria Filomena Mónica, licenciada em Filosofia, doutorada em Sociologia,  investigadora,
que se fartara de enfabular com Paula Moura Pinheiro na RTP 2, "Câmara Clara", 27.Out.2006    

.  Mário Crespo, nessa zona, jornalista
Eu vou começar por citar um filósofo norte-americano, John Dewey, que diz que a arte é uma experiência de vida que combina espontaniedade com um sentido de forma.,
à conversa com
.  Miguel Arruda, licenciado em Arquitectura, escultor, designer,
que do outro lado explicava:
aquilo que nós hoje, à distância, chamamos de 25 de Abril, tinha de facto uma certa áurea … E isso perspassou a toda a gente.
O nome exacto daquilo, "25 de Abril", esqueceu-se Arruda de explicar e Crespo, aqui fica, de lhe perguntar.

.  Mário David, licenciado em Medicina, eurodeputado pelo PSD
Vitali Klitcshko, do partido Udar, ex-campeão mundial de boxe, e esse, sim, com toda a áurea de um herói nacional.

. Catarina Martins, sempre em iminente asfixia, licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, mestre em Linguística, actriz, dirigente e deputada do BE, que não só está preocupada com os ucranianos como também está preocupada com as ucranianas [SIC Notícias, "Jornal das 9", 18.Fev.2014, minuto 02:35] 
O estado ficou com as imparidades que têm a ver com o lixo chico.

.  Helena Sacadura Cabral, licenciada em Economia, jornalista, escritora
Havia na borda da estrada o cabo coachial

.  Paulo Portas, homem, licenciado em Direito, jornalista, Vice-Primeiro-Ministro, pinículo
Obrigadíssima!

.  Adriano Moreira, doutorado em Direito, professor catedrático
Espero que a democracia cristã se revigore em Portugal, quanto muito com a intervenção do actual patriarca de Lisboa, que é um sujeito muito inteligente, muito informado, muito devotado e com grande fé.

.  Eduardo Paz Ferreira, doutorado em Direito, professor catedrático
filhos de dignatários do regime

.  Pedro Marques Lopes, e com isto termino, licenciado em Direito, empresário,
Não podem haver debates, nas televisões nem nas rádios, não podem!

a maneira como o euro foi incorporado nas nossas economias, de uma maneira que eu acho abesolutamente nigligente … foi abesolutamente nigligente nós impormos uma moeda.

A procissão dos swaps ainda vai no adro. Era capaz de apostar singelo contra dobrado que durante os próximos tempos mais casos surgirão.
Era capaz de apostar singelo contra dobrado que o acordo com o PSD era total.
Apostar nesta modalidade, até eu, que nasci pobre e hei-de morrer miserável.

PML, belo e trauliteiro espécime-produto do excelente ensino da Católica, continua a ir de encontro a quando quer ir ao encontro de [SIC/Eixo do Mal, DN]. Mas não deprima, caro doutor Pedro, que não está só:
.  Marcelo Rebelo de Sousa, professor catedrático de Direito,
quando quer ir ao encontro também vai de encontro:
Quanto à ideia de que quem paga impostos é beneficiado, eu não sei o que é que ele [Vítor Gaspar] tem na cabeça, se é fazer aquilo que Portas Pediu, ir de encontro ao que Portas pediu, ou se é uma coisa mais modesta, tipo as facturas.,
TVI, 30.Jun.2013, minuto 21:20
tal como, de resto, outro ilustre e opinativo professor universitário,
.  Rui Ramos, licenciado em História, doutorado em Ciência Política,
porque o historiador procura audiência para aquilo que escreve e, nesse sentido, estuda o que vai de encontro àquilo que são as preocupações do seu tempo.
DN/Q, 07.Dez.2013  

.  Luís Pedro Nunes, licenciado em Comunicação Social, jornalista
E há tipos que são um pouco irrascíveis, como eu e outros.

LPN também diz cócigas [Canal Q, "Inferno", 09.Out.2013, gravação indisponível].

Pedro Mexia, que muito admiro, observa em "Erros de pronúncia" — recensão a Pnin, de Vladimir Nabokov —, no Expresso/Atual de 07.Dez.2013, que o narrador dedica uma atenção maníaca aos detalhes.
Só não estou inteiramente certo de ser também esse o meu mal porque a minha atenção é mais aos pormenores. Onde mora o diabo.

- O sr. demarco dizobnóxio  .  acordos  .  perda  .  iconoclastia  .  pseudo-    alergia  .  patético  .  troféu  .  verosímil, inverosímil  .  idiossincrasia  .  plataforma  .  geração  .  geracional  .  drogado  .  torcer  .  estejamos  .  sejamos .  vitualhas  .  efabulação  .  espontaneidade  .  aura  .  perpassar  .  tóxico  .  coaxial  .  dignitário  .  absolutamente  .  negligente  .  irascível  .  cócegas 
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* Clara Ferreira Alves no Canal Q, "O que fica do que passa", 07.Mar.2014 – minuto 10:18 [quando disponibilizarem o vídeo, conecto], comentando a manifestação dos polícias de 05.Mar.2014 frente a S. Bento:
Os polícias não são arruaceiros e portanto não tapam a cara. … Uma coisa é reivindicar e negociar, outra coisa invadir as escadarias e meter um, um, um, um, um, um passe-partoute lançar petardos.
Luís Gouveia Monteiro- Um passa-montanhas
Movida pelo seu idiossincrático empertigamento cultural, a doutora Clara em vez de, agradecida, pegar com simplicidade no passa-montanhas com que o excelente LGM veio acudir ao seu engasgue, não resiste, antes de prosseguir, a uma explicação errática e bacoca de má perdedora:
É isso, um passa-montanhas. Há quem lhe chame passe-partout. Aqui nós chamamos passe-partout às molduras, incluindo as montanhas. Dá para passar por todo o lado porque ninguém sabe quem lá está dentro. 

** Escrevi em tempos que Clara Ferreira Alves nem sempre é de fiar  calúnias dos blogues de direita, explicará ela
Nova ilustração:
«Estava sentada numa cadeira ao sol, à beira de uma piscina pública de Coimbra. Sol de Junho. Nos altifalantes, a voz do Sérgio Godinho: 'Este é o primeiro dia do resto da tua vida'. […] Um dia quente de um Verão quente, estávamos em 75.»

No fim da primavera de 1978, Sérgio Godinho lançou o seu 5.º LP, "pano-cru", de que constava – lado A, faixa 2 – "O primeiro dia", inédito. 
Três anos antes, em 1975, e a fiarmo-nos no jornalismo sério escoado pelo Expresso, a promissora e jovem caloira de Direito, Clara Ferreira Alves, «sentada numa cadeira ao sol, à beira de uma piscina pública de Coimbra», escutava Sérgio Godinho a cantar "Este é o primeiro dia do resto da tua vida", decerto acometida por prodigioso transe proléptico e quem sabe se trauteando a letra ela própria também.
Investigação mais cuidadosa do episódio permitiu-me detectar uma pequeníssima e irrelevante inconformidade tudo indicando que devida a deficiência técnica dos altifalantes da piscina: de facto, Sérgio Godinho sempre cantou e tem cantado "Hoje é o primeiro dia" e não "Este é o primeiro dia". Não será, contudo, de tal minudência que o jornalismo sério sai infirmado. 

Clara Ferreira Alves, excitadíssima- Sobre a Casa Pia, queria dizer que, retomando tudo o que já foi dito, que é um processo que assenta em prova testemunhal [cara de enjoo] numa falabilidade [sic] absoluta e que, sem querer de maneira nenhuma minorar o sofrimento das vítimas … As vítimas e as alegadas vítimas também se enganam às vezes nessa prova testemunhal; e repito apenas aquilo que o Daniel disse: "e se estiverem inocentes?" Há um princípio básico no Direito Penal; chama-se “in dubio, pro reo” [batendo, furiosa, com a mão na mesa]. Se houver dúvida!, temos que absolver. Se houver dúvida, temos que absolver. E eu tenho muitas dúvidas neste 'caso Casa Pia', muitas dúvidas.

Clara Ferreira Alves, assanhada e gritante, expondo à câmara o livro "Inocente para além de qualquer dúvida", brandindo-o e propagandeando-o com veemência de megafone típica dos feirantes de banha-da-cobra- Queria falar deste livro, do Carlos Cruz, cujo julgamento está neste momento em recurso e a ser avaliado pelos tribunais, e é impossível  o livro tem o prefácio do Miguel Esteves Cardoso , é impossível ler este livro sem ficar com enormes dúvidas, não sobre a inocência de Carlos Cruz, que essa tem sido a base de tudo isto, mas sobre a culpabilidade de Carlos Cruz. Este processo [CFA com ar de troça] não deixa qualquer dúvidas [sic] de que há dúvida sobre a culpabilidade de Carlos Cruz e há um princípio-base no Direito Penal: chama-se “in dubio, pro reo” —  em caso de dúvida, absolve-se; em caso de dúvida, absolve-se. Não é um juízo subjectivo, é um juízo objectivo, é a base de todo o Direito Penal  [CFA gesticula, sentenciosa]. Além de que, como dizia um amigo meu, não é só da liberdade de Carlos Cruz que estamos a tratar; é da nossa própria liberdade. Este processo é terrível. É dreyfusiano e deixa-me assustada. Que ele tenha sido conduzido, investigado e tenha chegado a este ponto deixa-me muito assustada sobre a democracia portuguesa e sobre as instituições de defesa em Portugal.
Pedro Marques Lopes- … quanto a Carlos Cruz e em relação àquele livro que eu li É assustador ler aquele livro.  Eu não precisava de ter lido o livro  sou muito franco  para saber ou julgar saber o que se passou dentro deste processo. Foi um processo que eu acompanhei de perto, por muitas razões. É… eu senti-me, não houve página que eu não tivesse passado em que eu não me sentisse arrepiado, como já me tinha sentido ao conhecer os procedimentos. E, antes do “in dubio, pro reo”, se me permites, há uma coisa vital, que é a presunção da inocência. E o que se passou neste processo, aquilo que está naquele livro; muitas das coisas que estão ali naquele livro, que são baseadas em peças processuais, os testemunhos, são de nós nos assustarmos porque … eu faço minhas as palavras, salvo erro, do Miguel Esteves Cardoso, no prefácio, que diz Isto podia-nos acontecer a cada um de nós”. E este processo vai ser um processo de que daqui a 20 anos ainda vamos falar mas que me faz ter muito medo, muito medo de sair à rua.
Aparte de CFA– É o nosso caso Dreyfus, é o nosso caso Dreyfus!
Daniel Oliveira-  Eu quando falo com alguém sobre o 'caso Casa Pia', que deve ser o caso que mais insultos me mereceu até hoje 
Nuno Artur Silva- A todos 
DO- … a todos, provavelmente, as pessoas têm convicções  "Mas tu achas que ele é culpado?" […] Muitas pessoas não têm claro para que é que serve a justiça. A questão não é  para mim nunca foi  se Carlos Cruz é culpado ou inocente; não sei. Para mim, a questão é simples. Eu comecei a ler este livro, acompanhei bastante o processo, comecei a ler este livro, ainda não acabei, e o que digo é que há uma convicção que eu tenho: o 'processo casa Pia', como foi julgado e feito, é assustador.
PML, corroborando- Assustador!
DO - … e isso é o que me interessa e independentemente e para lá de Carlos Cruz.

Com Carlos Cruz e os outros entretanto na cadeia, condenados e recondenados — crimes de abuso sexual de menores — por uma legião de profissionais da Justiça incompetentes e mancomunados em obscuro propósito mefistofélico, nunca mais Clara Ferreira Alves, Pedro Marques Lopes e Daniel Oliveira, borrados de medo, terão saído à rua sem escolta, mas parece que o livro foi um sucesso editorial.