sábado, 28 de junho de 2014

Acordo Ortográfico [89]

08.Jun.2014 - Saramago traduzido para português | Nuno Pacheco

18.Jun.2014 - 'Abrir mão' ao descalabro ou do descalabro? | vários

27.Jun.2014 – A velhíssima mãe e os seus diferentes filhos | Nuno Pacheco
                   - Língua portuguesa, recurso fabuloso | José Ribeiro e Castro

28.Jun.2014 [online] – Conversor ortográfico Lince: uma estranha forma de estar
                                  na vida pública portuguesa
 | Ivo Miguel Barroso

No Público.

Escritores

«[…]
as entrevistas aos escritores são um campo fecundo de tropismos e tendências. De um modo geral, elas tornaram-se um discurso de complacência e satisfazem as solicitações fúteis do género people: o escritor fala de si próprio e do seu trabalho literário em registo de autopromoção e aceitando que tudo seja focalizado na periferia, que o texto seja um pretexto. Geralmente, o escritor aceita sem reservas nem desvios falar do modo de produção e escrita dos seus livros, dos seus gostos, das circunstâncias em que decorre o seu trabalho. A questão mais recorrente é a de como “surgiu” o livro, como é que tudo começou, como se deu o processo de “criação”. E, necessariamente, a partir daí tende-se para uma concepção quase teológica da “criação”: o escritor entrevistado é elevado naquele momento à condição laicizada do “criador”.
[…]
tornaram-se um género retórico, com os seus códigos: implicam um conjunto de obrigações e estereótipos aos quais tanto o entrevistado como o entrevistador respondem quase automaticamente. As entrevistas aos escritores mais novos — que são as maiores “vítimas” destas entrevistas, já que elas têm quase sempre um objectivo de apresentação — revelam ainda uma outra característica que pode ser também confirmada noutras circunstâncias: escrever, ser escritor, não requer ter lido muito e ter uma relação forte com a história e a tradição literárias. Esta ausência de um vínculo memorial com a literatura é um fenómeno completamente novo.
[…]
há hoje um fenómeno novo que é o dos escritores que não parecem estabelecer um vínculo com o que veio antes deles, que parecem escrever sem ter verdadeiramente lido. Por isso, mas também por outros motivos (faltam os espaços para publicar e desapareceram as solicitações), é cada vez mais rara a crítica de escritores, isto é, os textos de escritores sobre os livros de outros escritores.
[…]»
___________________________________________________
Ainda no Público/Ípsilon de 27.Jun.2014, por António Guerreiro, 
«Uma poesia de alcance intempestivo, que salta para fora do seu tempo de maneira a interrogá-lo e a resgatar o que nele se perdeu.
[…]
quase uma aposta de um místico sem mística, como se o poeta carregasse consigo o destino da humanidade e sofresse, de maneira mais trágica do que qualquer outro indivíduo, o golpe de “misericórdia dos mercados”. Se tudo isto fosse declinado de maneira ingénua, à maneira de uma celebração da transcendência da palavra poética e do canto dos poetas, seria insuportável. Mas o que aqui temos é outra coisa, onde não falta a consciência de si. E o resultado tem algo de intempestivo, na medida em que se projecta, implicitamemente, contra a poesia do desencanto do mundo e de si mesma, contra o ascetismo prosaico que suspendeu toda a crença no “estado de poesia” — uma versão profana do “estado de graça”.
[…]»

quinta-feira, 26 de junho de 2014

sobre o tremor do maremoto

«estava o rei em suas câmaras, mandou que lhe trouxessem as
                                                                                  fêmeas,
disse:
entre os sete e os setenta, ineptas, hábeis,
de ao pé das águas,
e lhes imitem o movimento,
ou ásperas, ou raparigas que se desfaçam quase
de serem súbito tocadas,
inacessíveis no sentido mais recôndito,
fúlgidas, frígidas,
fêmeazinhas de cândido repouso carnal,
e então o demónio as possua e elas subam acima de
                                                        qualquer linha,
que em eu, rei, as tocando, logo soçobrem,
logo tremam, gritem, se desfaçam e refaçam e subam
como se Deus as tocasse entre o cu e a côna,
oh fêmeas ininterruptas,
quero-as de todas as raças, longilíneas, espessas, sedosas,
                                                              árduas, amaras,
bravas debaixo das minhas unhas,
ou humílimas como cadelas domésticas domadas pelas
                                                                   palavras,
ou subtis movidas lunaticamente pela forma poética
— quero ser confirmado,
intrínseco,
tornado vasto como dez campos de aveia compacta,
rio fantasista concorrido por outros mais pequenos,
disse: vão à caça e tragam-mas:
nuas, vestidas, violentas, descalças, catorzinhas, inspiradas,
revôltas, ou como óleo entre os dedos,
e que cheirem ou a cabra ou a jasmim 
lírico, difuso, suprarreal, nocturno,
estava o rei em suas câmaras dolorosas e ordenou as
                                                                  músicas,
e perguntou alguém: ¿Salomé, a cabeça de S. João Baptista
sangrando numa bandeja de ouro?
(não a cômo! — gritou ele),
ou a teoria dodecafónica,
ou uma frauta cabreira,
ou a voz acerbadamente fugida da Dietrich,
ou esse fantasma de voz quebrada pelo soluço da Marylin*,
ou Mahala** Jackson,
para ele, rei em suas câmaras, morrer durante a noite
                                                                     inteira?
— só lhe falta a rapariga esquiva que ele pense que é um
                                                                        enigma,
só lhe falta saber tudo,
só lhe falta a mulher para morrer com ele,
a mulher que só há nele, no fundo,
a morta nele que de noite ressuscita,
e pelo dia todo de cada dia da terra
lhe rouba a alma,
o ceptro,
o segredo de ser senhor de tudo
(menos dela que é pensamento sensível
dos elementos juntos dois feito como do mundo,
etc.)
tragam-ma —
e vão trazendo mas nunca lhe trazem a mulher que está nele,
e ele não lhe toca nem de olhos nem de boca nem do nó de
                                                                      um só dedo
da mão que firma o ceptro sobre a terra,
o rei sòzinho no meio das mulheres menos a outra
(que é mãe e filha de todas),
e que pode um rei assim fazer senão deixar que as águas o
                                                                            subam
pelas câmaras acima e afoguem tudo,
como o mundo está sempre à espera que aconteça,
pois está escrito nos livros,
está marcado a fogo nas cabeças,
treme em todos os sentidos de quem vive nas câmaras,
ela nas altas montanhas ele ao rés das águas baixas,
sobre o tremor do maremoto,
sobre a ameaça maior do desejo do seu corpo pelo corpo
                                          que está selado dentro dele,
porque ele é rei apenas no fundo dos espelhos que
                                estremecem cheios de água,
— levem (lavem) a minha cara, eu sou outro,
levem a minha alma,
levem a minha amante e troquem-ma por outra,
outra mais conforme à mulher que não existe,
e ponham tão baixo a música que deitado no chão estreme
só eu a ouça, a música escrita apenas
para a minha loucura, a paixão, a aflição, a explicação
da minha biografia irónica e sensível:
e não se esqueçam: as putas todas e as virgens todas nas
                                                   minhas câmaras vazias,
manda o rei terrífico com voz política,
aquela voz de muito falar já treme um pouco,
que eles não saibam sobretudo que já estou demente
(mas toda a gente sabe),
tragam-me as putas todas, religiosas, profanas ou outras,
o meu pénis tem o tamanho de um ceptro
(e ergue o ceptro que tem cerca de metro e meio,
e na verdade o sexo dele é até maior um pouco),
traspasso-as da côna ao coração
(e que mulher não tremeria de pânico e oculto gozo?),
e assim passa ele o tempo e o medo e o mundo»

Trasladado de "A morte sem mestre", de Herberto Helder
[Páginas 34/38]
Porto Editora
1.ª edição: Maio de 2014
[À venda desde 09.Jun.2014]

«Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo electrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.»
© Porto Editora, 2014

Sou um delinquente.
____________________________________
* A senhora chamava-se Marilyn. *** 
** A senhora chamava-se Mahalia.
Responderá a PE, limpando as mãos à parede da cagada que fez: «não alteramos a intenção do poeta».
Fodam-se.

*** Leitor bem mais atento do que eu, e não menos indignado, vem hoje, 27, chamar-me a atenção para o erro em Marylin, que ontem me escapara. Agradeço-lhe.
Não alcançando com que espécie de intencionalidade poderá HH ter gralhado dois nomes próprios em dois versos consecutivos da página 36, avoluma-se-me penosa dúvida alastrada às 64 páginas da obra: que confiança textual pode merecer esta edição? Pelos vistos, pouca.
A propósito de "A morte sem mestre", começa a impor-se a pertinência de novo livro da Porto Editora. Não direi 2.ª edição  Herberto Helder proíbe-as , mas uma urgente sequela: o Livro de Reclamações. Por mim, dispenso CD de oferta.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Porto Editora | Herberto Helder

Em 9 de Junho corrente, na Feira do Livro de Lisboa, testemunhei e deixei-me inadvertidamente envolver no acto principal da encenação reles que vinha constituindo, e prosseguiu, o lançamento pela Porto Editora de "A morte sem mestre", de Herberto Helder, velha e fulgurante galinha-dos-ovos-d'oiro no mercado poético português. *
Acredito, decepcionado, em que Herberto Helder não é alheio a esta nunca vista por cá – enfim, fez-se um ensaio no ano passado com "Servidões" - mescambillha livreira. Por isso, acompanho António Guerreiro, "Herberto e os cálculos editoriais", ou António Araújo,"Herberto, S.A.", entre outros, no que puseram a nu.

O que, aposto, até ao próprio poeta escapou foi o descuido miserável na revisão, com desvios graves, intoleráveis, do original. Confrontei a leitura pelo autor de cinco poemas que integra o pacote de 22,00 € [livro + CD que a Porto Editora, iscando a coisa com engodo rasca comparável ao dos alucinogénios preços em 9, informa ser «de oferta». Não lhes bastava um simples e honesto «Inclui CD»?] com os respectivos textos no livro. Não me restando presumir senão que Herberto Helder lê o que Herberto Helder escreveu, vejam-se as diferenças: 

. HH: «o dia, a noite, o inverno, o inferno»
  No livro: «o dia, a noite, o inferno, o inverno
. HH: «para sempre um jogo ou uma razão,»
  No livro: «para sequer um jogo ou uma razão,»

. HH: «ou mais devagar como sempre acontece a quem espera ainda
  No livro: «ou mais devagar como sempre acontece a quem ainda espera
. HH: «ao vapor de verão no ar onde entram as pessoas,»
  No livro: «ao vapor de verão no ar aonde entram as pessoas,»
. HH: «estio e inverno afora no mundo»
  No livro: «estio e inverno agora no mundo»

. HH: «um pão que se tire do forno e se coma ainda quente por entre as linhas,»
  No livro: «um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre as linhas,»

Sem diferença.

. HH: «não me queixo de nada do mundo senão do preço das bilhas de gás,»
  No livro: «não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,»
. HH: «ou então de já não me venderem fiado»
  No livro: «ou então de mas não venderem fiado»

Se em quatro de cinco poemas é isto, não quero imaginar os atropelos ao original nos 23 que não nos é dado ouvir dizer pelo autor.
Nem a advertência do poeta-energúmeno, conforme António Guerreiro o enaltece, de que «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional.»  ou o pedido no primeiro poema - «peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido / seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.» - livram a Porto Editora de nos fazer suspeitar de que uma coisa são os poemas que Herberto Helder escreve e lê, outra os poemas que saem adulterados do prelo.
Por exemplo, sob que desculpa, no poema a um burro velho dê-se-lhe uma pouca de palha velha, páginas 43/47, se faz supor ter HH escrito «[...] vou-me embora pra Parságada, disse então o Manuel Bandeira; [...] Vou-me embora pra Parságada [...]», se o que Manuel Bandeira escreveu, e disse!, foi Pasárgada? Não nos venham com a justificação de que Parságada é de facto intencional ou, dado o poema, assumida  burrada do nosso poeta. Mesmo que, remotamente, fosse erro de HH, para que raios serve o editor, afinal? Inadmissível, meus senhores!

Tende lá paciência, malta da Porto Editora, de cujas produções até costumo gostar, mas desta vez fizeram merda da grossa, insultando e defraudando o «bom leitor impuro», preparado para a côna, para os pintaínhos, para o sufôco e para inúmeros outros cometimentos ortográficos do actual maior poeta português, mas não defendido, nem HH decerto, da incúria e da incompetência a jusante.
______________________________________
* Um dia depois, 10.Jun.2014,  vendia-se aqui, a custo justo, com 450% [!] de lucro. O que o desinteressado amor à poesia faz... 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Direita

«Os Intelectuais de Direita Estão a Sair do Armário é o título de uma reportagem de Paulo Moura publicada na revista 2, do PÚBLICO, no passado domingo. Tal título veicula a suposição de que o pensamento de direita foi reprimido ou levado a um regime de auto-limitação, tendo finalmente chegado o momento da sua libertação e afirmação pública. Pensar assim é um equívoco.
[…]
Esta nova direita é, pura e simplesmente, um realismo. Por isso é que não precisa de grandes elaborações teóricas e a sua afirmação, como mostra muito bem a reportagem de Paulo Moura e os depoimentos que recolhe (nomeadamente, os de António Araújo), faz-se privilegiadamente nos media. Esse é o seu ambiente “natural”: o da comunicação, o do divertimento, o da burguesia como classe universal. Ela não precisa de construir um pensamento, só precisa de seguir uma cultura difusa e dispersa, de não interromper o entretenimento, de alimentar o conformismo dos media, de seguir com eficácia a estratégia da sedução, de aproveitar a onda de desculturalização da política que a esquerda superlight decidiu surfar.
[…]
Hoje, a questão verdadeiramente pertinente não é verificar, com algum equívoco, que os intelectuais de direita saíram do armário; é perceber que muito dos intelectuais que se afirmam de esquerda e falam em nome dela se converteram a essa cultura difusa da nova direita e aceitaram preencher as quotas de mediatização que esta lhe concede, aceitando um papel protocolar de “representação”. Também eles glorificam o novo realismo.» 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sandro William Junqueira, marido de sua mulher

«[…]
Durante semanas, com a anuência da mulher, fechou-se a escrever durante nove a dez horas por dia.
[…]
A minha mulher diz que nas alturas de trabalho intensivo fico assombrado, parece que trago da escrita os fantasmas atrás de mim.
[…]»
José Mário Silva conversa com Sandro William Junqueira a propósito de No céu não há limões, seu 3.º romance, depois de O caderno do algoz e de Um piano para cavalos altos.

Antevejo o título do 4.º romance: O dedo asfixiado ...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

quarta-feira, 11 de junho de 2014

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Populismo | cultura popular vs. cultura de massas

«[…]
A reacção ao resultado das eleições tinha acabado de mostrar que estas ora fabricam legitimidade, ora fabricam vencedores, consoante as necessidades, as argúcias e o jogo das aparências. Por efeito de um relato jornalístico conformado às regras actuais do storytelling, toda a disputa política a que estamos assistindo no interior do PS decorre em termos de competição desportiva ou de novela. Até ao limite do nauseabundo. O sucesso de Marcelo Rebelo de Sousa deve-se precisamente ao facto de ele entrar sem pudor nesta linguagem, “naturalizando-a” para consumo das massas. Ele é o mais alto representante do populismo cultural (algo que devia ser radicalmente incompatível com a função de professor universitário), um conjunto de procedimentos e convenções vindos precisamente daqueles que acenam com o perigo do populismo político e que se encontra sediado nos media. Este aparente paradoxo de um populismo cultural que se instalou sem resistência por intermédio daqueles que não parecem alimentar simpatias pelo populismo político diz-nos que toda a questão do populismo (ou do conjunto de fenómenos que a palavra hoje designa, no discurso corrente) precisa de ser vista de outra maneira. Precisa, em primeiro lugar, que se observe e analise esta regra geral: sempre que há uma intenção populista, é o povo que falta. Por isso é que se revela tão necessária uma distinção, em que Hannah Arendt insistiu, entre cultura popular e cultura de massas. Outro paradoxo deste populismo cultural (observável hoje até nos modos de circulação e legitimação de muita da cultura erudita) reside no facto de ele, nos momentos em que se entrega a arremedos de reflexão, gostar tanto de denunciar a “decadência” e a “crise moral”, ou dos “valores”. Sempre que alguém fala desta maneira, sempre que alguém apela aos “valores”, podemos ter quase a certeza de que está a reivindicar um novo conformismo, uma ideologia kitsch reactiva e restauradora, inimiga de todo o pensamento. A reivindicação dos “valores” segue a par de uma ideologia ética que se tornou sinónimo de moralidade e se satisfaz com todos os retornos.
[…]»

- x -

Ainda António Guerreiro, no Público/Ípsilon de hoje,
«Evitando cair nas questões mais controversas da historiografia judaica, Simon Schama empreendeu um trabalho de grande ambição.
[…]
A história que este livro nos dá a ler abrange um período de dois milénios e meio: começa por volta do ano 1000 a.C., trazendo à luz o mercenário Shalomam, ao serviço do exército da Judeia em Elefantina, uma ilha do Nilo, e acaba em 1492, com a expulsão dos judeus da Península Ibérica.
[…]
Uma tese fundamental atravessa esta História dos Judeus: a de que eles não se auto-segregaram, por rigidez e puritanismo cultural e religioso, e sempre tiveram ao longo da sua história uma atitude favorável à miscigenação; nunca quiseram ser uma parte separada do mundo em que viviam e, por isso, misturaram-se com os canaanitas, os egípcios, os persas, os gregos, os romanos, os árabes, etc. A segregação foi-lhes infligida: o pluralismo judeu é uma das linhas de sentido desta história de Schama.
[…]»