quinta-feira, 31 de julho de 2014

Na morte do pai

Quando Rui Tovar [Lourinhã, 16.Fev.1948-Lisboa, 03.Jul.2014] morreu, o filho Rui Miguel encontrava-se no Brasil, em serviço.
Não sei porquê, o texto de Rui Miguel Tovar no i de 26.Jul.2014, "Uma família de projeccionistas", comoveu-me.
«Chove dentro do Aeroporto Viracopos, em Campinas. Chove muito. Não há maneira de isto parar. Por muito que os olhos se fechem, a torneira continua aberta
— como a ferida do golpe. Só me vem à cabeça a terceira cena do "Cinema Paraíso", a da chegada do Totó a casa, em Roma. A namorada já está embrulhada nos braços de Morfeu, mas ainda consegue transmitir o recado da mãe: Alfredo [o projeccionista] è morto."
Inicia-se um flash-back.
[...]
Há pais comprometidos, ausentes, realistas, desnaturados, airosos, perigosos, tranquilos, inconsequentes. O meu é amigo. Cúmplice. Verdadeiro.
[...]»

Ao acaso, lembro-me de também me ter comovido com o que Rita Ferro escreveu — "Este português que eu conheci...", no Semanário de 03.Abr.1993 — na morte de António Quadros [14.Jul.1923-21.Mar.1993], seu pai, e de como o malandro do Miguel Esteves Cardoso me comoveu — "Pai", n' O Independente de 29.Jul.1994 — na morte do seu, Joaquim Carlos Esteves Cardoso [?1920-04.Jul.1994].

Não sei porquê? Claro que sei.

«A inércia é preta», Deus uma treta

«[…]
João Magueijo [JM]- Quando se diz “caralho” é mesmo caralho, é a sério. Eu gosto do Pacheco [Luiz] e do Bocage.
[…]
A inércia é preta.
[…]
Clara Ferreira Alves [CFA]- Vamos falar do Large Hadron Collider.
JM- Foda-se!
CFA- Aquela alegoria da partícula de Deus deixa as pessoas intimidadas, como se a física tocasse em Deus.
JM- Eu chamo-lhe a partícula da Nossa Senhora da Agrela. Essa relação com Deus é uma estupidez. Eu sou ateu por razões que não têm nada a ver com física. E vice-versa. Usar a ciência para acreditar? O que o (Richard) Dawkins faz e o que os criacionistas fazem é a mesma coisa. Uns usam a ciência para justificar a crença e outros usam-na para justificar a não-crença. É igualmente estúpido. Mesmo que fosse provado cientificamente que Deus existe eu não acreditava em Deus. É uma ideia má, faz mal à saúde.
CFA- Isso é Dawkins. Já reparou no que a arte tinha perdido sem a religião? Não teríamos a pintura sacra, não teríamos a “Pietà” do Michelangelo, não teríamos...
JM- Não! É o contrário do Dawkins. Eles faziam isso, arte, e lá por trás estava um cão a foder. Pintavam os anjinhos porque era o que lhes pagavam. Nada a ver com os anjinhos.
CFA- Até o Bacon precisou de um Papa.
JM- Eu não falo contra a religião nesse sentido.
CFA- Falo da iconografia e não da fé. Esse é outro problema. A iconografia é esplêndida.
JM- Então e os requiens? O Lopes-Graça, um ateu total, fez um requiem às vítimas do fascismo! Nesse sentido, concordo plenamente. Não sou dogmático. Sei que isso abre as portas à arte. Eu sou ateu.
CFA- Foi sempre ateu? Teve catequese?
JM- Não. Houve fases. Tive e berrava à catequista. Mas o que digo tem a ver com a interacção entre crença e ciência. Uma não pode provar ou não provar a outra. Se se provasse que Deus existia eu continuava ateu porque Deus não resolve o problema ético do modo como nos relacionamos uns com os outros. Prefiro saber que no dia em que morrer é o fim, não há mais nada.
[…]
Eu quando digo que sou antiteísta quero dizer que se Deus existe é um grande filho da puta.
[…]»
Entrevista de Clara Ferreira Alves a João Magueijo, "João Magueijo – A Física é um mundo de doidos" | Expresso/Revista, 26.Jul.2014
- x -
«A entrevista de Clara Ferreira Alves a João Magueijo, na Revista do Expresso de sábado passado, não é bem uma entrevista.
Quando se chega ao fim, percebe-se que aquilo não passa duma batalha verbal entre dois cabotinos.
Ela exibe-se formulando perguntas, que mais parecem orações de sapiência, em que consegue introduzir termos e nomes que todos os leitores do Expresso usam quando vão ao mercado comprar sardinhas. Por exemplo, Margate, englishness, understatement, Hawking (é uma obsessão), D. Afonso da Maia, stasis. E ainda encontra espaço para dizer que tem um aluno de doutoramento que é muçulmano*.
Ele vai respondendo com merda, caralho, foda-se ou cu, q.b.
A dado passo, abandonando fugazmente a ciência e o vernáculo, Clara pergunta − “o que lê quando está triste?”. Logo ali me pareceu que a pergunta estava quase, quase, ao nível da mais famosa pergunta da televisão portuguesa – “o que dizem os seus olhos?”, mas para melhor, claro.
Abreviando, e para quem não teve oportunidade de ler a entrevista, transcrevo uma pergunta/afirmação, e respectiva resposta, que resumem magistralmente o tom e conteúdo deste trabalho jornalístico:
- Vamos falar de Hadron Collider. (diz ela)
- Foda-se! (responde ele)
Um pouco de understatement até nem calhava aqui mal, pois não?!
Melhor calharia ainda sermos poupados a seis páginas de pornográfico exibicionismo de dois egos que se julgam a encarnação única da própria partícula de Deus.»
Maria de Jesus Lourinho, "Clara e João, combate de galácticos" | Blogue "1 Dia Atrás do Outro", 29.Jul.2014

Pelo que vou conhecendo de JM, não me atrevo, por enquanto, a chamar-lhe cabotino. O professor Magueijo integra a trupe de alentejanos sabidos, instruídos e bem-humorados, levemente caóticos, a que pertecem o óptimo Rui Cardoso Martins e o ferrabrás Luís Pedro Nunes, coetâneos. No caso de JM, acho-o, pobre de mim, bem mais do que sabido instruído.
Especialmente para Maria de Jesus Lourinho, ei-lo em 19 minutos sem palavrões, à conversa com Luís Gouveia Monteiro, jornalista nos antípodas do cabotinismo, em "O que fica do que passa", no Canal Q, 11.Jan.2013.

Cosmologicamente, toda esta boa gente, incluindo a cristã CFA, reverbera na galáxia das Produções Fictícias. Podia ser pior.
Mas sobrará sempre a possibilidade de não sabermos nada.
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* Também fui levado a pensar num muçulmano, aluno de doutoramento de CFA, ideia estapafúrdia [fosse um cristão, aluno pós-doc em aeronáutica, ainda vá que não vá…]. Há ali 3 linhas de negrito indevido — «Pode acreditar numa religião» —, a fazerem supor que é CFA que fala quando, na dita passagem, ainda é João Magueijo no uso da palavra. Analisando a conversa com mais cuidado, julgo que desde «É um mito.», na coluna à direita da página 6 da entrevista, até «dentro do Islão.», no topo esquerdo da página 7, é sempre o entrevistado a falar.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não é por nada, mas pode haver crianças a ouvir

21:39- Nos últimos quatro anos quadriplicaram o número de prisões por violência doméstica. [Doutora Teresa Caeiro]
22:33- Como nós sabemos, o CDS foi até há pouco tempo, já deixou de ser há bastante, o partido que defendia [Doutor Pedro Marques Lopes].
- SIC Notícias, Edição da Noite, 30.Jul.2014
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quadruplicou o número de prisões

terça-feira, 29 de julho de 2014

Prosas sobre banditismo

.  Nicolau Santos, "Duas ou três coisas sobre o caso Salgado"
.  Henrique Raposo, "A redenção dos Espírito Santo"
.  Henrique Monteiro, "O poema Quadrilha e Salgado"
.  Pedro Santos Guerreiro, "E no futuro, como será?"
– Expresso, 26.Jul.2014

domingo, 27 de julho de 2014

Clara Ferreira Alves, perigo tóxico [2]

A TAP escreveu ao Expresso — "A carta da semana", 26.Jul.2014 — em desagravo da crónica canalha e criminosa de Clara Ferreira Alves [CFA] publicada na edição da Revista do sábado anterior, 19.Jul.2014.
A "Nota de autor" com que CFA argumenta extensa, pormenorizada e fundadamente as razões que a conduziram à proclamada convicção de que é perigoso voar na TAP  constitui um paradigma de jornalismo exigente, sério e honesto. Somos mesmo levados a crer em que só por falta de espaço a autojustificação de CFA não foi ainda mais contundente. «Estamos esclarecidos».

Mas a TAP não sai da agenda atrabiliária de CFA. Nem — amor se calhar é isto — CFA da minha…

Sexta-feira, 25.Jul.2014, 23:05, Canal Q, edição 92 de "O que fica do que passa":
Luís Gouveia Monteiro- O que é que fica da semana que passou, Clara?… 
CFA- Uma pequena nota: a decadência da TAP, os escândalos sucessivos de adiamentos, desculpas… Uma administração que se mantém há 14 anos no cargo — catorze anos! [CFA repete  e soletra com indignada veemência cada sílaba dos 14 anos; imagino como ela nos advertirá de si mesma — Já ando por cá há 58 anos, cinquenta e oito!!!…], completamente opaca [atentai, gente: a opacidade começa a estar na moda; o tal "medialecto"…]. Raramente se sabe como é que a TAP é gerida, por que é que é gerida. De um lado temos os pilotos, do outro lado temos os trabalhadores da manutenção que dizem que neste momento as condições de manutenção da TAP não são as melhores. Temos um negócio de manutenção no Brasil que nem se sabe o que se passou … Tem sido, tem sugado todo o dinheiro da TAP. Há quem diga, há quem acuse a TAP de estar a aumentar rotas sem ter aviões e sem ter pessoal técnico, incluindo os pilotos, evidentemente porque quer privatizar e portanto quer, como se diz, "embelezar a noiva" — foi uma das acusações da Comissão de Trabalhadores — e há quem diga que pura e simplesmente o que se quer é desvalorizar a TAP para o negócio da privatização ficar mais apetecível. O que é certo é que companhias sérias e companhias competentes, como a Emirates ou a Lufthansa*, que demonstraram — para não falar no grupo British Airways e Iberia —, que demonstraram interesse na TAP deixaram de o demonstrar. Não sabemos o que é que aconteceu nesse semiprocesso de privatização adiado, que era a venda a Efromovich. A TAP tá-se a tornar uma companhia brasileira e africana ! Em vez de ser uma companhia europeia portuguesa boa! Está na altura de percebermos o que se passa na TAP. 

Entretanto, na grande entrevista ao DN/Dinheiro Vivo de sábado, 26.Jul.2014, "Pais do Amaral - O objectivo não é comprar a TAP para vender daqui a três anos" — por mais que não seja, os mui judicativos e capitosos considerandos sobre Ricardo Salgado e Marcelo Rebelo de Sousa valem o tempo gasto a lê-la —, diz a dado momento Miguel Pais do Amaral, conde de Alferrarede e dono de muita coisa, a propósito do seu "chegar-se à frente" para a compra de 100% da TAP:
«a nossa plataforma estratégica é simples: manter a estratégia da empresa, que tem sido de crescimento prudente e sustentável; manter a gestão da empresa, pois achamos que o presidente da TAP, Fernando Pinto, tem feito um bom trabalho e tem anos à frente para continuar a fazê-lo.**»
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* CFA insiste na seriedade da Emirates e da Lufthansa em contraponto com a insegurança, bandalheira e desgoverno — diz ela — da TAP. [Crónica de 19.Jul.2014: «companhias sérias como a Emirates, a Lufthansa e outras»]
É por isso hora de contar:
"Os aviões das 10h10".

** Acho que Pais do Amaral está, quanto a Fernando Pinto, a comprometer-se numa enorme e perigosa imprudência. Afigura-se no mínimo irresponsável que ignore os "efeitos entrópicos do tempo na boa gestão continuada das companhias". Se 10 anos é muito tempo, que dizer de 14? Se 14 configuram obscenidade, como pode, no seu perfeito juízo, admitir que FP ainda «tem anos à frente»?
Mal ides, Dom Miguel Maria, se vos não aconselhardes, quanto à gestão, com dona Clara Ferreira Alves. Mal ides. 

***  Vá lá, Clarinha, atreva-se, meta-se com a Lufthansa, difame-a, achincalhe-a, chame-lhe perigosa, decadente, africana, brasileira.

Vítor Bento

«no Verão gosta de se proteger do sol com um simpático chapéu de palha.»
[Martim Avillez Figueiredo, "Vítor Bento e o segredo da governanta" – Expresso, 19.Jul.2014]

Com a revelação, conhecedora e certificada como é próprio de Avillezes, deste determinante traço idiossincrático do novo presidente do BES, podem os seus clientes dormir finalmente descansados.

Gosto

sábado, 26 de julho de 2014

"Sendo que"

«[…]
Trata-se, digamos com ênfase e presunção, de isolar uma praga da linguagem, um apêndice sintáctico "duro e resistente como o granito", para utilizarmos as palavras que serviram a Hannah Arendt para definir a estupidez. E agora que a "coisa" já começou a ganhar alguma dignidade, por via da citação culta, é altura de nomeá-la: trata-se da conjunção "sendo que", em regime de proliferação desde há já bastante tempo no medialecto, isto é, no dialecto próprio dos media em sentido lato (na imprensa, na rádio e na televisão).
[…]
Em todos os casos, agora que entrou no medialecto e ganhou a condição de um espasmo colectivo, ["sendo que"] não consegue ser mais do que um tique gerundivo que se apanha por mimetismo.
[…]
"Sendo que" é uma forma torpe, equivale a uma injunção mecânica e a um reflexo mimético, abre um espaço liso no momento em que surge, contamina tudo à sua volta e torna-se motivo para uma suspeita mais funda: a de que não é uma pequena anomalia, um momento pontual em que sucumbe o discurso e é rasurado qualquer vestígio de algo a que possamos chamar ideia ou pensamento. Pelo contrário, o "sendo que" torna plausível a suspeita de que a anomalia pode estar por todo o lado, antes e depois. O tique correspondente ao “sendo que” é como um esgar lançado ao leitor, ao espectador, ao ouvinte, ao interlocutor, e funciona como o estereótipo, é dotado de uma forma de vida parasitária, expande-se e multiplica-se por incrustação. A longa vida do "sendo que" e a sua capacidade de se difundir encerram um mistério: porque é que há palavras e expressões que "pegam" e se tornam uma praga? Onde está a origem, a fonte do caudal que vai engrossando? O que há nessas palavras e expressões que as torna tão obrigatórias e faz com que elas passem a ser repetidas sem moderação?
[...]»
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Ainda de António Guerreiro, no Público/Ípsilon de hoje:
«Dois nomes centrais do cânone filosófico e do cânone literário [Kant e Goethe] lidos por uma autora que sempre se moveu em zonas de confins. [...]»

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Saramago e os preços em 9

Por respeito e em homenagem ao sério e austero José Saramago, o Continente decidiu banir uma vez sem exemplo, nos preços de todos e de cada um dos 9 títulos da presente promoção, o dígito 9, dado o seu efeito catalisador da adicção oneomaníca, de acordo com os estudos mais recentes de universidades e laboratórios de grande reputação científica internacional sobre o comportamento dos mercados.
As capas e o lettering são uma alternadíssima e refinadíssima caca, mas isso é com a Porto Editora.
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Fui salvo in extremis pela minha última reserva diária de discernimento quando estava para intitular o presente verbete de "Saramago e os preços em 9bel". Além de que a grande autoridade na matéria é Dalai Lima.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Em família,

estive a ver ao serão o "Frente-a-Frente" em que Catarina Martins, com a acutilância que lhe é peculiar, enervou mais do que nunca, sabe-se lá porquê, o habitualmente plácido Diogo Feio, a propósito da constituição, hoje, de Ricardo Salgado como arguido no caso "Monte Branco".
Catarina Martins [BE]- Há portanto um buraco que tem de ser pago e veremos quem o paga. É bom que seja a família que o criou. […] Aliás, o CDS não tem dito nada sobre isto, o que também registamos.
Diogo Feio [CDS/PP]- Não esperem de mim que num debate político como este, por muito atractivo que isso pudesse ser, faça aqui julgamentos e linchamentos públicos em relação a pessoas. Esse género eu deixo para outros.

Por mim, que não sou de intrigas nem mal-intencionado, jamais arriscaria a possibilidade de o nome de Teresa Caeiro, madrasta da nora Rita de Ricardo Salgado, ter pairado no misterioso "inuendo" do debate. De resto, escutando e lendo regularmente o que Miguel Sousa Tavares diz e escreve sobre o assunto, sinto-me cabal, profunda e pormenorizadamente elucidado, actualizado e tranquilo, acerca do BES, sem necessidade de mais informação.

Pelas 21:55, quem sabe se para aliviar a fervura, Ana Lourenço proferiu a frase do dia: Fazemos agora uma pausa para intervalo.

Quanto ao Ricardo principal da ricardíssima família,
Eu tenho a minha consciência completamente tranquila.
Finalmente, que preciso de arejar, sobre a "tranquilidade da consciência" remeto para o que o excelente Jorge Calado escreveu em 17.Ago.2013 a propósito de políticos. Tratando-se de banqueiros, acho que o «completamente» não só nos deve deixar em sobressalto como julgo prudente chamar a polícia.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Clara Ferreira Alves, perigo tóxico [1]

A jornalista Clara Ferreira Alves [CFA] não merece apenas que se lhe preste atenção. Precisa de que mantenhamos olho nela.
Quando CFA aprontou e entregou a abjecta, ignominiosa e miserável crónica, a que nem uns laivos de racismo faltam, contra a TAP Portugal — admitamos que, avareza minha, ao fim de terça-feira, 15.Jul.2014, para ir a tempo da sua "pluma caprichosa" no Expresso/Revista de sábado, 19.Jul.2014 —,  tinha mais do que obrigação de conhecer o essencial técnico da ocorrência com o voo TP85 na manhã do sábado anterior, 12.Jul.2014, tal era já a informação idónea e autorizada disponível.
Por maioria de razão, não se lhe desculpa o descalabro assanhado e a confissão involuntária de autodesleixo jornalístico com que interveio em "O que fica do que passa" gravado no Canal Q na manhã de 18.Jul.2014 e emitido [1.ª de várias sucessivas emissões ao longo do fim-de-semana] às 23:05 dessa mesma sexta-feira*:
Luís Gouveia Monteiro-  O que é que fica da semana que passou, Clara?
CFA, depois de comentar o "caso BES"- Para terminar e muito brevemente, só em Portugal é que um quase acidente mortal da TAP em que primeiro a PSP diz que explodiu um reactor, depois a TAP diz que não explodiu um reactor, não sabemos exactamente o que é que se passou, foi aberto um inquérito, houve um grande silêncio da administração na primeira fase – a TAP com grandes problemas mas isto é encarado como um fait-divers em Portugal, sabendo nós que temos um aeroporto no centro da cidade! Qualquer coisa que aconteça aqui, mesmo que seja uma peça que cai!... – foram só danos em viaturas, mas podiam ter morto pessoas. Mas isto praticamente foi ignorado nos telejornais, na imprensa, como se fosse uma coisa normal.
Curiosamente, os primeiros três minutos e vinte segundos desta edição, a 91, de "O que fica do que passa" não constam do vídeo disponibilizado pelo Canal Q a meio da tarde de hoje, 22 de Julho, no YouTube e no SAPO. Foi justamente nesse tempo, amputado no vídeo, que CFA bolçou a supratranscrita dose de sapiência aeronáutica e aeroportuária e nos fez saber que a jornalista, que ela é, afinal não vira nada, não ouvira nada, não lera nada da copiosa informação, esclarecimentos e comentários sobre o incidente vertidos nos seis dias precedentes nas televisões, rádios, jornais e redes sociais. Tivesse, por exemplo, dado atenção ao pedido de desculpa e às explicações pormenorizadas que o competente e bem-educado Fernando Pinto, com proverbial bonomia e uma paciência de Job, formulara e dispensara entretanto à comunicação social, quem sabe não asneasse tanto.        

Pelo que deduzo e decorre do seu vómito no Expresso, CFA está incapaz de distinguir a guitarra da palheta, um borborigmo de uma explosão ou — mas isso seria demasiada areia para a camioneta da jornalista — um reactor de uma turbina.
CFA sabe quase nada de aviação mas dá a entender, a leigos e a incautos, que sabe muito. E, ai de nós!, o que ela sabe é sempre com certeza absoluta [Não tenho qualquer dúvida; devo dizer; e portanto; etc.], arrogância de cátedra.
Esta sua crónica é um chorrilho de asneiras, sobranceria e subtexto, incluindo uma contradição patética.
CFA sabe pouco de aviões. CFA baralha A330 com A340, não obstante este ter o dobro de motores daquele.
CFA não sabe o que é desligar um motor e voar em segurança com o outro. Faz lá ela ideia do que seja ETOPS!?
CFA não sabe nada de segurança aeronáutica. CFA desconhece o excelente e invejável perfil de segurança, histórico e actual, da nossa companhia que voa ininterruptamente desde 1945, vai para 70 anos. Anoto: um único sinistro com mortes — Funchal, 19.Nov.1977 —, causado pela obstinação humana e pelo mau-feitio conjunto e sincronizado de Éolo, Thor e Tlaloc.
CFA não sabe nada da idade média da frota da TAP e muito menos da idade de cada avião, nomeadamente do A330-202, matrícula CS-TOO, de seu nome próprio "Fernão de Magalhães", protagonista do incidente,  que leva pouco mais de seis anos a voar na TAP desde que a Airbus lho entregou e cuja manutenção de motores, para provável azar de CFA, é assegurada pelo fabricante, General Electric. Temos pena, doutora CFA, de que o avião de que se soltou uma palheta da turbina de alta, sendo um avião inequivocamente jovem, não dê grande jeito ao reles guião de desastre que improvisou para o "grand finale" [aquele «extraordinaire», que ainda me faz cócegas, estava a pedi-las...] da sua biliosa e bacoca diatribe: «a TAP… deve adquirir aviões novos que voem em condições e não deixem cair peças de reactores a arder sobre a cidade de Lisboa», mas não temos culpa.

CFA, como eu, não gosta deste governo, de Miguel Relvas, de José Luís Arnaut [CFA, rigorosa e perfeccionista, trata-o por "António Arnaut", assim metendo e submetendo o inocente, desprevenido e indefeso pai do nosso precioso Serviço Nacional de Saúde ao barulho atroador de aeronaves podres a despenharem-se…], não gosta da Goldman-Sachs nem do BES; e, evidentemente,  não simpatiza com o «abutre» Efromovich [CFA, rigorosa e perfeccionista, grafa sempre «Efromovitch»]. Lá com ela, mas é, no mínimo, leviano e desconchavado estribar nos seus desamores, na pontual escassez de aviões ou nos atrasos de horário e em dois ou três incidentes operacionais de que nada compreendeu porque não quis ou se calhar não atinge, o perigo de viajar na companhia de bandeira portuguesa, razão da sua lauda miserável cujo garrafal título, "lead" e primeiro parágrafo me recuso a reproduzir aqui por asseio e profilaxia do contágio público.
CFA acha — perdão, ela não acha, ela tem sempre a certeza — que «estrategicamente mais interessantes» do que África ou o Brasil são os «destinos asiáticos». "Eureka"!, temos a receita para a prosperidade da TAP. Os segredos e as coisas que CFA sabe, céus! «Não se trata de um palpite.», diria, perdão, asseveraria ela.

CFA odeia a TAP. Nada, pois, obsta à sua venda, antes pelo contrário, «privatização desejável se feita em condições de transparência e competência». Que tal vendê-la — avanço eu imaginando-me a perguntar por ela ­— ao «cavalheiro americano com quem falei num voo da TAP de Nova Iorque para Lisboa, especialista de aeronáutica e dono de empresas internacionais do sector»?
[Como CFA acabara de proclamar categoricamete — tudo em CFA é categórico —, dois parágrafos antes, «Para voar de um continente para outro, há muito que deixei de usar a TAP», presume-se que a conversa tenha ocorrido, no mínimo, no milénio passado… A menos que Lisboa fique na América, Nova York na Europa e vice-versa reciprocamente ao contrário…]
Vendendo-se a companhia ao tal cavalheiro empresário, para este seria apenas mais uma em carteira e para a TAP o ensejo de integrar finalmente a companhia de «companhias sérias como a Emirates, a Lufthansa e outras», para orgulho de Portugal. Vamos até que o tal «cavalheiro americano» ronda por aqui?… E não, não é insinuação ou suspeição; é minha mera suposição.

Talvez importe dizer que, faz um ano e picos, comecei a desconfiar da pouca exigência, agora abundantemente revelada, de CFA no que toca a aviação comercial.
Então não é que esta distinta plumitiva — «uma marca/estrela que muito valoriza a constelação jornalística do Grupo Impresa», segundo Francisco Pinto Balsemão em "O futuro do jornalismo e o jornalismo do futuro", no Expresso/Revista de 04.Jan.2014 — assinou uma página, por sinal interessante e engraçada, mas nisso é ela competente, na revista de bordo de uma companhia aérea do «Terceiro Mundo», mais precisamente «uma companhia africana com aviões em segunda mão», «na penúria», em «decadência», onde voar se torna cada vez mais perigoso, conhecida por sucessivas «avarias técnicas», «aterragens de emergência», que vem continuadamente perdendo, em «hemorragia», «pilotos, pessoal de bordo e técnicos para companhias melhores e mais ricas»; que enfrenta prolongados «problemas de manutenção técnica e de escassez de aviões» — «aviões pequenos e poucos e preços ridículos» — e por isso tenta remediar-se com aviões «obsoletos» alugados a companhias mais manhosas ainda!?...
É certo que se tratava de um texto pago, mas isso não desculpa a cumplicidade com indigentes. E não é certo que o doutor Balsemão tenha tido conhecimento, senão bem que se arriscaria a um valente puxão de orelhas do patrão amigo: A menina Clara não vê que ao assinar coisas assim, com fotografia e tudo, para uma companhia merdosa e decadente como essa, está a afectar o bom-nome e a idoneidade das minhas publicações?
Dá-se o caso de a revista em que Clara Ferreira Alves assinou em Junho de 2013 a dita página, "O lisboeta bem temperado", ser a melhor revista de bordo do mundo. Mas isso é um daqueles irónicos paradoxos de que o mundo está cheio...
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Os deuses sabem da indignação, do custo e da mágoa com que escrevo isto, não só porque conheço bem e gosto da TAP, que servi durante 33 anos, mas também porque nas três décadas há que acompanho a intervenção jornalística de CFA não raro me tenho revisto na sua opinião e é grande o meu apreço por tantas prosas que assinou, tantas coisas que lhe tenho ouvido, tantas outras que lhe tenho escutado e visto fazer na sociedade e na comunicação pública.
Desculpe, senhora doutora, mas com peças como a que agora redigiu contra a TAP Portugal, você só pode ter-se tornado numa jornalista repulsiva e pouco recomendável.
Ficava-lhe tão bem, cara doutora Clara Ferreira Alves, pedir perdão à TAP e aos muitíssimos milhares de leitores que a estimam e se habituaram a confiar no jornalismo que a senhora pratica; ficava-lhe tão bem, Clara!

Mas então ó Plúvio, corre tudo bem na grande e magnífica companhia que a TAP é?
Não, em várias coisas — ainda, às vezes — não. É da vida.
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* Na indústria de entretenimento de Nuno Artur Silva [Produções Fictícias: Canal Q, “Eixo do Mal, "Inimigo Público", etc., citando CFA], amor à camisola parece não ser simples retórica. CFA comprova-o.

PS
É sempre interessante rever a doutora Clara Ferreira Alves a falar de si, mais ainda por ser coisa que raramente acontece.

Selfie

Declaro por minha honra que não pedi nem paguei o retrato que Gonçalo M. Tavares me tirou.