sábado, 16 de maio de 2015

"Fátima: a enganar pessoas desde 1917™" *


No dia 13 de Maio de 1967, sábado, chuviscou o dia todo. Paulo VI veio à Cova da Iria [vá, leitor, são só 45 minutos de História] rezar e fazer as representações do costume ante uma boneca de cedro brasileiro e outros ícones. Eu estava no coro [o que nós ensaiámos naquela semana, com trinta milheiros!], ali ao lado do Papa, da irmã Lúcia, de Américo Tomás e de Salazar, honrados e desvanecidos pela presença tão próxima do Plúvio. Na altura ainda acreditava religiosamente naquilo tudo. Difícil era não acreditar, pois se nascera, em 1953, a quatro quilómetros dali, fora intensamente caldeado desde a infância naquela realidade e estudava num seminário de missionários italianos em Fátima de que sairia em 1970, sem vocação e com a fé já a dar de si: outra música [se Júlia não é o nome mais bonito de mulher, qual é ele?] e, sobretudo, a mini-saia da Maria do Céu, que vendia bugigangas religiosas no hotel Pax, faziam muito mais pela minha saúde e pelo meu entusiasmo de viver do que um terabaite de pai-nossos. Sim, a entoação e o timbre igníferos de Ornela Vanoni também ajudaram. Oh adolescência indefesa!
Pelos 17 anos, o ar do tempo fez-me entrar num processo de reflexão crítica — de mim, da vida, do mundo, das coisas, de tudo e de nada — que me tomou conta das vísceras e do metabolismo e não mais parou, sem nunca me arrimar a um emblema [vejo sempre mais o indivíduo pregado nele do que o contrário] ou me conformar a alguma certeza certa, como a de que azeitonas em excesso fazem mal ou a de que o mal-falante, funâmbulo e colérico António Costa será melhor primeiro-ministro do que Passos Coelho, nossa pinícula provação. Uma infelicidade, em suma.
Voltando às aparições na charneca, vi e ouvi muito, conversei com variadas pessoas do sítio, coetâneas e testemunhas do fenómeno [1917] ou próximas; li tudo — continuo a ler —, de João De Marchi a João Ilharco, de Fina d'Armada e Joaquim Fernandes a Mário de Oliveira**, etc.
E no que deu tanta indagação?
Não digo que a experiência e o conhecimento de Fátima, apesar de relativamente extensos, me confiram qualquer autoridade para validar o ponto de vista de Hugo Gonçalves, mas que me animam o pressentimento de que Hugo Gonçalves está certo, ai isso animam. Concordo vivamente com ele e felicito o Diário de Notícias pela publicação do título arrojado. Arrojado, num país enraizadamente mariano, crente e catolicozinho da treta que elegeu por cinco vezes Cavaco Silva, se inebria nas gordas do Correio da Manhã, segue, babado, Cristina Ferreira, idolatra o gatuno de cantigas Tony Carreira, põe Eusébio no Panteão [o meu cadáver podem depositá-lo no contentor verde-escuro, o do lixo orgânico, e levá-lo para a Valorsul - base rítmica empolgante] e venera com unção o discurso e o pensamento de Jorge de Jesus que conferencia trinta minutos por semana em directo para cinco canais de TV que depois repetem trinta vezes até à conferência seguinte.
Acho Fátima uma aldrabice megagaláctica. De um gajo ficar gago ... com tanta fé e tanto dinheiro que jorram por ali. A galinha é de ovos d'oiro e a bispalhada não é burra.
Enfim, 'Marias do céu', as minhas são outras, e 'mães Maria', mádar méri ... létit bi.
Com todo o respeito. Deus me perdoe.
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* Certo azeite — aqui não se mencionam marcas, mas não, não é o "Oliveira da Serra" — começou a cantar dois anos depois.

** Mário de Oliveira não se cala; faz bem. Certo que, desacreditando Fátima, crê, todavia, em Jesus Cristo, filho de Deus e da tal senhora mais brilhante que o Sol que o, ups!, O teve por partenogénese, e acredita em Deus, pai de Jesus e parente de não sei quem. É lá consigo, padre Mário.
"Fátima, $.A.", pois.