terça-feira, 10 de novembro de 2015

Maria Filomena Mónica


Sócrates, Cavaco, Costa, Marcelo, o da Nóvoa, cancro, morte, vida …

Desencantado e céptico, revejo-me largamente no pensamento de Maria Filomena Mónica.

«[…]
Como vê a providência cautelar interposta ao grupo Cofina?
Como cidadã, acho incrível que o juiz Rangel, que emitiu opiniões favoráveis sobre o homem e político José Sócrates, não tenha pedido escusa do processo. Em segundo lugar, no que decorre da providência cautelar é um atentado à liberdade de imprensa. Poderia ser uma limitação razoável por motivos de segurança ou muito graves, mas não é. É uma forma de proteger a personagem do engenheiro e isso é lamentável. É bizarro que um jornal esteja impedido de dizer o que quer que seja sobre um sujeito e ele ande a falar em defesa própria e a justificar-se, passando a ideia de que é um homem íntegro, o que toda a gente percebe que não é possível pelas histórias passadas. A história do amigo muito rico não cabe na cabeça de ninguém.

Portanto não acha natural levar uma vida de luxo com dinheiro de um amigo?
Do ponto de vista moral, um amigo que me sustentasse faria de mim uma mulher tida e mantida. O que até era corrente na sociedade portuguesa, haver amantes financeiramente sustentadas por homens. No caso de um homem é raríssimo, não conheço nenhum caso. Atenção que não me interessa nada levantar o véu sobre a sexualidade do engenheiro Sócrates. Agora, acho moralmente condenável viver à custa de um amigo.

Pelo que se tem sabido, não só o engenheiro Sócrates como a ex-mulher, amigos e amigas.
Na cabeça dele se calhar isso é normal, para nós não. Esse é o grande mistério e pecado de Sócrates: vive num mundo de alucinados. É um mitómano, tudo é exagerado.* Aquela entourage toda parece um circo grotesco.
Do ponto vista jurídico, espero que haja um julgamento em breve e que se prove a sua inocência ou culpa. Sei que os crimes de corrupção são muito difíceis de provar e até pensava que ele era mais estúpido. Aquela rede de transferências ilegais deve estar bem montada porque está a demorar a provar. Mas não me interessa só o que é legal. Em última análise, a moral é o substrato que justifica as leis.** E há todo um comportamento imoral dele ao longo dos anos. Alguém que acaba a sua carreira como primeiro-ministro e que vai para Paris viver num apartamento de luxo quando deixou o país na bancarrota…

E a suposta compra em grande quantidade dos seus próprios livros?
É uma ideia típica do engenheiro Sócrates vender gato por lebre. Ele não abre a boca para dizer uma coisa que seja verdadeira, não age nunca de maneira inatacável. Em tudo o que mexe parece que há lixo; escava-se um bocadinho e só se vê corrupção. Todas as histórias dele são muito estranhas, desde o não ter nascido no sítio que aparece na certidão de nascimento, ao apelido, passando pelas dúvidas suscitadas sobre a tese de mestrado e finalizando na nota de licenciatura atribuída a um domingo. É sempre um carrossel de ilusões, mentiras.

Acha que ele ainda tem algum futuro político?
Penso que não. Estive a ler Os Maias ontem e há lá uma parte muito engraçada em que o Carlos da Maia fala com um mestre-de-obras que lhe diz: "Isto da política resolvia-se bem: comprava-se um navio à custa do País, metia-se lá a cambada — os políticos — e o País ficava desatravancado." Dos eleitores diz que são umas cavalgaduras. Não acho que o povo português seja cavalgadura, portanto não vão votar num homem com este currículo, independentemente do que vier a ser provado em tribunal.
[…]»

«[…] a situação é muito grave e o país precisa de estabilidade. Eu em princípio sou socialista, embora nestas eleições tenha votado nulo.*** Mas acho que ninguém estava à espera que o PS se aliasse a dois partidos bolcheviques. Esta aliança, sendo a possível do ponto de vista legal, é uma aliança antinatura. […]»

«[…]
Agora tenho de ver se vivo ou se morro.
[…]»
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* Lisboa, tarde de domingo, 01.Fev.2009 – José Sócrates, primeiro-ministro, foi com Fernanda Câncio, sua namorada de então, ver "Milk". Nada de extraordinário; veio na comunicação social. O título do filme — repito, "Milk" — é daqueles que até um papagaio disléxico e amnésico fixa à primeira e retém para o resto da vida.
É por isso que não me lembro de alguma vez ter ouvido nem creio tornar a ouvir um presumo tão falso e tão encenado como o que, decorridos seis dias, haveria de escutar na conversa de José Sócrates:
Coimbra, tarde de sábado, 07.Fev.2009 – «[…] o líder socialista recomendou aos participantes na sessão de esclarecimento sobre a moção «PS: A força da mudança» - que apresentará ao XVI congresso nacional do partido entre 27 de Fevereiro e 1 de Março, em Espinho - o filme "Milk", a biografia de um dos primeiros políticos assumidamente homossexuais na América dos anos 70.[…]» 
Está um filme em exibição no nosso país que recomendo a todos. Esse filme chama-se ... ... ... — longa, longa pausa, fingindo puxar pela memória — "Milk", presumo, e fala da biografia de um dos primeiros políticos assumidamente homossexuais.

Se Sócrates não fingia, então tínhamos o país entregue ao primeiro-ministro mais desmiolado de que haverá ... ... ... memória.

É este José Sócrates, narciso público, o José daquele presumo, o José dos filósofos, o José do arrependimento, o José, enfim, que Maria Filomena Mónica caracteriza, que hoje em dia me interessa e nauseia visceralmente. O Sócrates arguido ou o Sócrates político que admirava desde os combates ambientais que travou tenazmente, por exemplo pela co-incineração, afrontando tudo e todos incluindo o próprio vate de Águeda, e em que votei em 2005 e em 2009 para a governação do país, quero que se dane. Desiludiu-me quanto basta e sobra.
A minha catarse do socialista José Sócrates está feita. Preciso agora é de energia para purgar o 'derrotado Costa primeiro-ministro a todo o custo', pressentindo que não haverá nenhum regular votante no PS — em 26 eleições desde 1975 — tão esquizofrénico como eu. 

** Concordo.

*** Também votei nulo.
E o que é que o meu leitor tem a ver com isso?