sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Vira* o disco e toca o mesmo

Toca a descobrir diferenças.

Último parágrafo de "Ano novo, tempo novo", texto de António Costa no DN de 02.Jan.2016, com uma vírgula espúria entre Godinho e cantou:
«Em 1974, Sérgio Godinho, cantou que "a sede de uma espera só se estanca na torrente". Depois destes brutais anos de austeridade, temos de gerir com inteligência a torrente, transformando a sua força em energia e progressivamente ir alargando as margens, aplacando a velocidade a que corre o caudal, permitindo navegação tranquila e com rumo certo.»
Sete parágrafos antes, António Costa escrevera:
«O ano de 2016 é por isso marcado por este tempo da urgência de relançar a economia portuguesa e de recuperar as fracturas sociais da austeridade, de combate à precariedade. Mas a este tempo de urgência junta-se uma visão estratégica de reforço da cidadania, modernização da economia e do Estado, de desenvolvimento do país que assentará nos pilares do conhecimento: a cultura, a ciência e a educação.»

Pelas 10h00 de hoje, o senhor Primeiro-Ministro abriu o debate quinzenal na Assembleia da República, não se notando vírgula entre Godinho e cantou:
«Em 1974, Sérgio Godinho cantou que "a sede de uma espera só se estanca na torrente". […] Depois destes brutais anos de austeridade, temos de gerir com inteligência a torrente, transformando a sua força em energia e progressivamente ir alargando as margens, de forma a aplacar a velocidade a que corre o caudal, permitindo a navegação tranquila e com rumo certo.
Sendo o início do ano de 2016 muito marcado por este tempo de urgência de relançar a economia portuguesa, de recuperar as fracturas sociais da austeridade, de combater a precariedade, é tamém em 2016 que temos de começar a preparação do futuro. A este tempo de urgência deve juntar-se uma visão estratégica de reforço da cidadania, modernização da economia e do Estado, de desenvolvimento do país que assentará nos pilares do conhecimento, a cultura, a ciência e a educação.
[...]»

Catarina Martins, emBEvecida: «o senhor Primeiro-Ministro começou por Sérgio Godinho, eu cito também Sérgio Godinho: o que é que Portugal tem que é diferente dos outros?»

O que a BEata Catarina não sabia e à generalidade dos deputados terá escapado foi que o senhor Primeiro-Ministro acabara de plagiar despudoradamente um texto do doutor António Costa publicado no DN de quatro semanas antes.
Também admiro, muito, Sérgio Godinho.

Deixa ver se a grafonola do Plúvio tem... 
Tem.
________________________________
* Vinil, claro.

Acordo Ortográfico [103]

«[…]
decidi embrenhar-me no projecto de intervenção da 2.ª Circular que a Câmara Municipal de Lisboa “colocou em consulta pública”. Recomendo cautela. Além de pérolas como ‘características’ e ‘caraterísticas’ (sic) na mesma frase, ‘carácter’ e ‘caráter’ (sic) no mesmo parágrafo ou “Arquitetura (sic) Paisagista (NPK, arquitectos paisagistas associados)”, encontramos “esquema das adoções (sic) de água ao separador”, quando aquilo que se pretende de facto referir é o “fornecimento de água do ponto de captação para o local onde é feita a distribuição”, isto é, ‘adução’, ou seja, ‘aduções’.
[…]
Aquilo que verificamos é que um escrevente de português europeu grafou ‘adoções’ (sic) em vez de ‘aduções’, cometendo um erro ortográfico, mas identificando correctamente aquela letra ‘o’, em posição átona, como equivalente a ‘u’. Neste padrão, em português europeu, o diacrítico ‘p’ impede tal percepção. Isto é, ‘adoções’ corresponde a um dois-em-um: erro ortográfico (por ‘aduções’) e erro grafémico criado pelo AO90 (por ‘adopções’).
[…]
Tendo o actual primeiro-ministro admitido recentemente que não toma “a iniciativa de desfazer o acordo ortográfico”, então, tomemo-la nós.»

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Rescaldo dum serão — Todos, todas, tudo e o mais

Fervorosas e extraordinárias coisas se disseram e gritaram.
O Bloco de Esquerda anda alucinado e tentou atirar-nos poeira aos olhos.
Marcelo cantou.
António Costa, feliz, proferiu um dislate afrontoso.
Maria de Belém sem lepra nem lepro. 

20h06 [José Gusmão, direcção da campanha de Marisa Matias, inebriado]— «Um resultado que será de longe certamente o maior resultado alguma vez obtido em eleições presidenciais de uma candidatura desta área política.* […] A candidatura da Marisa foi a candidatura que mais espaço político conquistou durante este processo eleitoral. Foi uma candidatura que conquistou dezenas de milhares de eleitores à abstenção.»

20h13 [Correia de Campos, mandatário nacional de Sampaio da Nóvoa]— «Os primeiros resultados que foram divulgados com base em sondagens à boca da urna manifestam que existe ainda uma grande incerteza sobre o resultado final.»
Homem de fé.

20h41 [Maria de Belém, candidata vencida]— «Boa noite a todos. […] Saúdo todos os portugueses, designadamente os cidadãos eleitores.»
Felicite-se, desta vez, a candidata libelinha videirinha que poupou o auditório à lepra do gargarejo "politicamente correcto".

- «Doutor Manuel Alegre, ficou desiludido?»
- «Doutor Manuel Alegre, como é que fica o Partido Socialista?»
- «Esperava uma vitória à primeira volta do professor Marcelo Rebelo de Sousa, senhor doutor?»
- «Quem é que fez essa campanha [Manuel Alegre acusara indeterminados de "uma campanha ignóbil" contra Maria de Belém], senhor doutor?»
Esperar-se-ia que barítono de Águeda, cuja habilitação escolar completa é o antigo 3.º ciclo liceal, pedisse ao repórter da SIC qualquer coisa como Por favor, não me trate por doutor!, mas o mais perto que andou disso foi «Não me empurrem, por favor!» - 00:12

21h16 [Marisa Matias, candidata vencida, levitante]— «Em democracia, o mais precioso que temos é mesmo a decisão dos portugueses e das portuguesas.» 

21h31 [Edgar Silva, candidato vencido]— «É meu dever agradecer a cada um dos portugueses e a cada uma das portuguesas […] Saúdo cada um dos portugueses e cada uma das portuguesas.»

21h46 [Sampaio da Nóvoa, candidato vencido]— «Boa noite e obrigado a todos e a todas. [...] Nesta noite, tenho apenas duas mensagens para os portugueses e para as portuguesas. [...] A segunda palavra é para me dirigir a todos e a todas que fizeram esta campanha extraordinária. [...] Peço a todos e a todas que apoiaram esta candidatura [...] A todos e a todas, muito e muito obrigado.»

21h53 [Catarina Martins, porta-voz do BE, em evidente estado de alucinação]— É o maior resultado numas presidenciais à esquerda*. O maior de sempre da área política do Bloco de Esquerda*. A Marisa Matias mobilizou da esquerda à direita, mobilizou na abstenção, mobilizou todas as pessoas que mesmo sofrendo tanto não desistem do país. Mobilizou quem nunca soube o que era um contrato de trabalho mas luta por um futuro com dignidade no nosso país»
Se o ridículo matasse...
«[...] Parabéns, Marisa Matias, que grande campanha!»
Se a pastorinha do venerando Boaventura mobilizou tanto e em tanto lado, como conseguiu perder mais de 80 000 votos dos que o Bloco de Esquerda obtivera em 04.Out.2015? Nas 10 presidenciais desde 1976, só numa 2011, reeleição de Cavaco Silva , a abstenção, 53.48%, foi superior à desta eleição, 51.16%. Isto é que foi mobilizar, doutora Marisa!

22h11 [Marcelo Rebelo de Sousa, candidato vencedor, presidente eleito, num discurso razoavelzinho], a abrir— «Portuguesas e portugueses […] Não há portugueses vencedores ou vencidos. Não há vencidos nestas eleições. [...]portuguesas e portugueses sem excepções nem discriminações.»
Lérias, conversa de sempre; claro que há vencedores e vencidos. Neste caso, uma candidatura e os seus eleitores venceram, nove foram vencidas.
«[...] Serei a partir de agora o presidente de todas as portuguesas e de todos os portugueses. [...] Saúdo igualmente os meus oponentes** nesta eleição, que nunca foram meus adversários.»
Foram adversários, foram. Que mal nisso? 
«[...] Portuguesas e portugueses, [...] não deixarei de ser em termos sociais empenhado e actuante olhando preferencialmente para […] os que vivem nas periferias da sociedade, de que fala o Papa Francisco.»
Gritou-se na Faculdade de Direito de Lisboa «Viva o Papa!». Receei que o professor puxasse do terço. O doutor Mário Soares há-de ter gostado.
«[...] Confio nas portuguesas e nos portugueses


Nunca António Costa terá sido tão sincero.
dos maiores sucessos no exercício do mandato que hoje lhe foi conferido pelas portuguesas e pelos portugueses. [...] Ao Presidente da República ora eleito quero reafirmar o compromisso da máxima lealdade e plena cooperação inchtucional. [...]»
22h35 [O doutor António Costa, num desconchavo grave e insultuoso]— «Quero congratular-me muito em especial pelo facto de, ao contrário do que vem acontecendo em outros países europeus, os portugueses terem rejeitado claramente as candidaturas populistas e que se apresentavam como sendo anti-sistema, o que revela uma saudável confiança de que é no quadro democrático e só no quadro democrático que encontramos respostas para as ansiedades, os desgostos e os problemas que temos pela frente [...]»
'candidaturas populistas' ainda é o menos; no fundo, todas têm disso. Agora, 'anti-sistema', fora do quadro democrático?! A quais, destas 10 pessoas, se referia? Que candidaturas, das 10, se «apresentavam» em tais preparos? A República Portuguesa deverá exigir à presuntiva limpidez e frontalidade democráticas deste primeiro-ministro que diga de quem falava.  
______________________________________
* Mentira, mentira. É consultar a história. Desde o bambúrrio de 4 de Outubro, que fica a dever a Ricardo Salgado [deixem-me imaginar como estaria hoje o BE, não fosse a tranquibérnia do BES], o Bloco de Esquerda anda numa BEbedeira pegada. Nem para administrar um pequeno condomínio confiaria nesta BEatífica, arrogante e alucinada gente. 

** «[...]
Tal como Marisa Matias, (Marcelo Rebelo de Sousa) elogiou a democracia e os “oponentes” (substantivo deselegante) que o elegeram.
[...]»
_______________________________________
Insisto: o resultado destas presidenciais só poderá ser tomado por correcto e definitivo depois de dilucidado o escrutínio da mirabolante secção de voto n.º 27 da União das Freguesias de Santa Iria de Azóia, São João da Talha e Bobadela.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Mesa 27

Votaram 529 das 1044 pessoas inscritas*; 9 em branco, 7 de modo nulo.

Queira por favor observar o quadro de que antecipo três factos surpreendentes:
- a vitória estratosférica de Maria de Belém, com 45,9% dos votos;
- o retumbante 3.º lugar de Vitorino Silva, 13,0%;
- o resultado ultravexatório de Marcelo, 1,7%.

Levei cinco minutos a encontrar uma explicação tecnicamente razoável para o sucedido, que me dispenso de revelar aqui.
Ao fim de outros cinco, descobri a razão antropológica que, a meu ver, explica tudo:
secretariada por uma "parola", com um escrutinador que tem "dias" e outro que não bastando ser "calhas" permanece "calado", tudo seria de esperar da mirabolante secção de voto n.º 27 da União das Freguesias de Santa Iria de Azóia, São João da Talha e Bobadela.

Ou seja, o escrutínio das presidenciais está falseado. Eu, se mandasse, determinaria imediatamente a repetição do acto eleitoral e previno desde já que, se forem repetidas, voltarei, consciente e inconsequente, a pôr a cruzinha na letra V.
_______________________________________
* Marisa Matias diria pessoas e pessoos...

domingo, 24 de janeiro de 2016

Paradeiro do menino da lágrima

Como tudo tem o seu tempo e a malta nova não tem parado de se escapulir de Portugal, convenci-me de que o menino da lágrima — não o avistava desde Junho de 2013 — já não morasse cá.
Descobri anteontem que ainda mora. Refugiado. Na sala da stôra Salomé, que dá Português e Francês em Cascais.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Chegue-lhes, Fernanda, chegue-lhes! *

«[...]
todos os candidatos a PR a competir na mais abjecta demagogia.
[...]»
________________________________
* Ia a escrever «Chega-lhes, Fernanda!», mas lembrei-me a tempo...

Tudo e mais alguma coisa

«[...]
uma unanimidade total
[...]»
__________________________
* Nome totalmente completo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Corvídeos

Terça-feira, 19.Jan.2016, serão na RTP:
Marcelo Rebelo de Sousa, fato escuro, gravata preta;
António Sampaio da Nóvoa, luto carregado.
Não consta que qualquer deles seja parente do falecido.

- x -

Ontem, o sol ainda não tinha nascido quando a libelinha videirinha* entregava pelo telefone à SIC Notícias uma afirmação a resvalar para a mais atrevida e pateta do ano:
Quando pessoas destas desaparecem o mundo não fica igual. [E, portanto, - explicava ela.]
De facto, sempre que alguém nasce, sempre que alguém morre, o mundo nunca fica igual. No caso vertente, ficará até — quem pode sabê-lo? — mais limpo. A natureza usa regenerar-se.
_________________________________
* Sim, videirinha.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Azar dos Pires?

A qualidade das fontes em que o Diário de Notícias bebe no Porto não está grande espingarda.

DN, diário de referência, de um dia para o outro:

«A Fundação Sindika Dokolo, do marido da empresária angolana Isabel dos Santos, chegou a ponderar este espaço [casa Manoel Oliveira] na cidade, tal como o Palacete Pinto Leite, como possíveis futuras instalações da sede para a Europa do seu acervo de arte. No entanto, nos últimos meses, a intenção de sediar no Porto parte da colecção de Sindika Dokolo não terá tido desenvolvimentos.»

«Sindika Dokolo compra casa Manoel de Oliveira para expor colecção
O edifício de Eduardo Souto Moura, vendido ontem por 1,58 milhões, será a sede da Fundação Sindika Dokolo na Europa»

- x -

«Sérgio Conceição, como o DN noticiou em primeira mão, vai suceder a Julen Lopetegui como treinador da equipa de futebol principal do FC Porto.»

«José Peseiro.
Finalmente encontrado o substituto de Lopetegui.
Pinto da Costa já o tinha tentado contratar em duas ocasiões. É apresentado hoje e vai assinar por uma temporada e meia.»

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Acordo Ortográfico [102]

«[…]
Um Presidente da República garante da independência nacional não pode assinar ou manter em vigor o Acordo Ortográfico de abastardamento da língua portuguesa
[…]»
Miguel Sousa Tavares, "A deserção presidencial e a rendição governamental" | Expresso, 16.Jan.2016

- x - 

«Embora o voto seja a escolha de um programa político global, consideramos que o posicionamento dos Candidatos acerca do AO90 é um elemento preponderante nessa decisão.»

Más notícias

«É muito difícil a cura para a esclerose lateral amiotrófica»
- x -
«Morrer não é o pior que lhe pode acontecer em Santa Maria»

Marcelo Rebelo de Sousa

«Marcelo Rebelo de Sousa está para a gravitas como Jorge Jesus está para a gramática.
[…]
O porreirismo de Marcelo será um problema em Belém, porque ninguém levará a sério um homem que é ontologicamente incapaz de acreditar seja no que for.
[…]»

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Tempo novo e o dilema do pacotinho

«Açúcar no café? Saúde quer reduzir quantidade dos pacotes para metade»

Li, empenhado, as duas mui circunstanciadas e densas páginas da notícia na expectativa, afinal gorada, de achar luz para um antigo e persistente dilema que me tira o sono, me angustia e creio que ao país em geral:
Para que destino reciclável hei-de, depois de esvaziada, encaminhar a saqueta?
Azul  ou  Amarelo?
Em que ficamos, raios? Venha de lá um decreto*, ó doutor António Costa. Ou o tempo novo é só nos hidratos?
_______________________________
* Ups!, uma «Resolução».

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

"A Criada Malcriada"

«Às vezes estou a pintar um óleo de uma paisagem marinha e apetece-me um café. Então, digo bem alto:"Traz-me em café!" Levanto-me, vou fazê-lo e trago-o para mim, numa bandeja.»

Hugo Tavares, autor de "A Criada Malcriada". Sou fã.

Errado, certo, confuso, o azar latino de Maria Filomena Mónica, um engano cósmico de Virgílio Azevedo e o sempre inefável Sampaio da Nóvoa


Miguel Sousa Tavares escreve mal:
«A grande notícia destas presidenciais é a de que vamos finalmente vermo-nos livres do casal Aníbal/Maria Cavaco Silva.» *vamos finalmente ver-nos livres

Margarida Davim, ultraconfusa: 
«[...] 
Não há quem não acredite que não haverá uma segunda volta.» — Não falta quem acredite que haverá uma segunda volta. [Por exemplo] 
"Os não-comícios de Marcelo" | Sol, 09.Jan.2016

Miguel Esteves Cardoso escreve mal: 
«[…] 
acolhem e servem toda a gente que por ali passa como se se tratassem de velhos amigos.
[…]» — como se se tratasse de velhos amigos 
"Um branquinho perfeito, o Corvus 2014, para a praia da Adraga" | Público/Fugas, 09.Jan.2016

Carlos Bessa escreve bem:
«[…] 
Há, em todo o livro, uma voz quase sinfónica, com diferentes entoações, como se se tratasse de diferentes instrumentos que dialogam
[…]» 
Recensão de "Porto do Mistério do Norte", de Dimas Simas Lopes | Expresso/E, 09.Jan.2016

David Teles Pereira escreve mal:
«[…] 
o que justifica em grande parte a circunstância da sua obra se ter tornado (…) uma obra de referência do pensamento político
[…]» — a circunstância de a sua obra se ter tornado 
Recensão de "O conceito do político", de Carl Schmitt | Sol/b.i., 09.Jan.2016

Paulo Portas frusta? Jamais em tempo algum.
«[...] 
O futuro ex-líder do PP não frusta a sua agente
[...]» — frustra 
"O livro que é um bom investimento" | Sol, 09.Jan.2016

Maria Filomena Mónica não sabe latim:
«[…] 
O jantar tinha de estar terminado antes da meia-noite, quando partíamos para a capelinha em São Pedro de Alcântara onde, durante a Missa do Galo, se cantava o Adestis Fidelis.
[…]» — Adestes Fideles 
"O avental" | Expresso, 09.Jan.2016

Engano cósmico de Virgílio Azevedo:
«[...] 
a idade do Universo é de 13,82 mil milhões de anos-luz.
[…]» — Ai isso é que não é, que eu fui contar. Tem 13,82 mil milhões de anosAno-luz é distância.
"Os segredos de Einstein" | Expresso, 09.Jan.2016
__________________________________
* Já agora, um dos outros contra quem Marcelo concorre e de quem Miguel Sousa Tavares diz:
«[…]
Sampaio da Nóvoa, inventado por Mário Soares após um célebre discurso numa das sessões soaristas da Aula Magna, vem do absoluto vazio sideral: ninguém sabe onde ele esteve, o que fez, o que pensou, o que disse, nestes 40 anos de democracia. Mas o pior é o que diz e pensa hoje, uma névoa discursiva que ninguém entende e que faz dele o cantautor destas presidenciais, uma fusão entre o MDP/CDE e o Festival da Canção, versão Ary dos Santos. Frases como "a República também é vida, tem de ser sentida todos os dias na vida das pessoas" (já sentiu a República hoje?), dizem-nos tanto sobre o que seria uma Presidência sua como o facto de ter jogado futebol na Académica. Apenas podemos ter como certo que os seus discursos levariam semanas a ser digeridos e interpretados, fazendo de alguns dicursos de Jorge Sampaio textos de uma clareza fulgurante.
[…]»
Rio-me e aplaudo.
PUB.
A partir daqui, que é quando o sapo Cocas vai pisar a embraiagem e engrenar as mudanças, o presente verbete tem o patrocínio de Cá Vai Sintra

Entre as 10h15 e as 10h45 de ontem, 13.Jan.2016, Sampaio da Nóvoa deu uma entrevista na Antena 1.
Maria Flor Pedroso para o candidato [minuto 29:50]- A sua escolha musical tem a ver com a morte de David Bowie [08.Jan.1947-10.Jan.2016]. Só lhe pergunto se ele por acaso faz parte da sua banda sonora, não fora o facto de ele ter morrido; mas se ele faz parte da sua banda sonora.
Sampaio da Nóvoa- Faz, fez durante muito tempo, durante muitos anos. Foi uma referência muito constante nas minhas músicas e nos meus silêncios também, que é sempre a coisa mais importante da música, é o silêncio; é a nota mais difícil de escrever, é o silêncio. E também porque representa, esta música de mudança, de apelo à mudança, uma homenagem também a um homem que desapareceu agora, que é uma marca forte para mim, para muitas gerações em Portugal e que traz essa ideia de mudanças que nós precisamos para este país, para termos um país diferente, um país em que as mudanças sejam promovidas também pelo Presidente da República. É em nome da mudança e não em nome da estagnação que eu venho a estas eleições presidenciais.
Maria Flor Pedroso- "Changes", de David Bowie, é a escolha de António Sampaio da Nóvoa para fechar esta conversa.

Nesta série de entrevistas radiofónicas todos os candidatos trazem, para fim de conversa, uma música de sua eleição. Por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa, esta manhã, trouxe o António Zambujo, "Pica do 7"
Julgando eu que o cantochão gregoriano fosse a banda sonora mais conforme ao perfil incorpóreo deste candidato, eis que ele nos surpreende — serei o último a pensar em oportunismo** — com o azougado do Bowie fazendo-nos crer que tem passado os últimos 50 anos a assobiar-lhe as modas.

** Ainda assim, estou capaz de suspeitar que Sampaio da Nóvoa viria com o "Acordai", «... homenagem também a um homem que desapareceu agora, que é uma marca forte para mim, para muitas gerações em Portugal e que traz essa ideia de mudanças que nós precisamos para este país, para termos um país diferente, um país em que as mudanças sejam promovidas também pelo Presidente da República ...», tivesse Fernando Lopes-Graça morrido na véspera, o que só pode ser delírio meu, já que os comunistas são imortais.
Admito, finalmente, que o nosso ex-magnífico reitor tenha ponderado trazer 4'33", em tributo da coisa mais importante da música e da nota mais difícil de escrever. Mas o cadáver de John Cage nunca renderia tantos votos como um cadáver ainda morno, além de que a Maria Flor Pedroso era capaz de não achar graça.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Desaprender e aprender em seis minutos sem mudar de canal

«'Séniores' é errado. A palavra 'senioresé uma palavra aguda, ou seja, paroxítona. Não leva acento.»
António Bagão Félix, 22h19
Deveria ter dito «A palavra 'seniores' é uma palavra grave». E tudo ficaria certo, incluindo «ou seja». 
- x -
«O Futebol Clube do Porto, em minha opinião, foi forte na primeira parte, com uma posse de bola mais agressiva, mais pressionante na tentativa de recuperação da bola, mais vertical na projecção da equipa para o ataque.»
David Borges, 22h25
Eu se fosse ao Wittgenstein ressuscitava e voltava a ir-me embora, desta vez de suicídio com vergonha da glória imerecida na "Filosofia da linguagem", não sem antes ordenar que me enterrassem na vertical.

SIC Notícias, Edição da Noite, 13.Jan.2016

Acordo Ortográfico [101]

Nos últimos quatro minutos da "Quadratura do círculo" especial, na passada sexta-feira, 08.Jan.2016, na SIC Notícias, deu-se a conversa que se segue.

José Pacheco Pereira [JPP]- Eu acho que das coisas mais positivas que o governo tem feito é rever, revogar e reverter. E há muita coisa para rever, revogar e reverter, e uma delas é que se olhe de novo para o Acordo Ortográfico. O Acordo Ortográfico não é um mero tratado internacional como os outros. É um tratado internacional que uma parte importante dos países que falam a língua portuguesa não está a aplicar ou então têm-no no papel mas não o aplicam. É um factor importante de abastardamento da língua portuguesa. Há um conjunto de interesses económicos ligados ao Acordo Ortográfico que têm de ser acautelados, em particular as editoras — mas isso é possível fazer — de livros escolares. O problema é este: isto é uma questão que tem a ver com a identidade nacional. O abastardamento da língua portuguesa gerado pelo Acordo Ortográfico atinge esta situação absurda de haver jornais escritos em... antes e depois de acordo. Há uma parte significativa dos portugueses que não vai nunca escrever na base do novo acordo. A questão é esta, muito simples: será que o governo pensa pelo menos olhar de novo para uma eventual alteração do Acordo Ortográfico, o mais cedo possível para que os seus custos não sejam cada vez maiores e se possa repor uma situação de dignidade da língua portuguesa? A esmagadora maioria dos portugueses, que escrevem literatura, que escrevem nos jornais, que falam português, não se revê naquelas coisas absurdas.
António Lobo Xavier [ALX]- Eu secundo.
António Costa, Primeiro-Ministro [AC]- Para mim, acho que não faz sentido mexer no Acordo Ortográfico. Acho que faz sentido deixar que a sociedade evolua naturalmente na sua aplicação.
JPP- Mas para isso não o pode impor obrigatoriamente nas escolas e no Estado.
AC- Ainda hoje há muitas pessoas que escrevem Luís não terminando com s mas com z.
JPP- Mas se for num exame marcam um erro de ortografia.
AC- A minha geração já aprendeu na escola que Luís se escreve com s e não com z, e naturalmente essa evolução se há-de ir fazendo. E acho que temos convivido todos bem e creio que nunca até agora ninguém deixou de compreender aquilo que está escrito.
JPP- Posso interpretar das suas palavras ...
ALX- Eu delego.
JPP- ... como deixando de haver a obrigatoriedade no Estado e nas escolas de impor a ortografia do Acordo Ortográfico? É que isso só é válido se efectivamente a liberdade for maior.
AC- Vm lá ver, o Estado deve praticar aquilo que é estritamente a língua oficial e a fazê-lo.
JPP, caridoso- Está a fazê-lo.
AC- Que para as novas gerações deve ser divulgada e deve ser ensinada a nova ortografia, deve ser brlft, como aconteceu a mim! Eu não sei se foi atingido por algum acordo ortográfico; eu fui* e o António [Lobo Xavier] também deve ter sido. Eu lembro-me, quer dizer, a mim ensinaram-me na escola primária, foi para aí na segunda ou na terceira classe…*
ALX- Mas esse acordo fazia sentido…
AC- Oiça, fazia tanto sentido como o brlft. Vm lá ver, essa é outra questão.
JPP- Mas porque é que a gente não reverte isto? Rapidamente!
AC- Ó Pacheco Pereira, se me pergunta se eu teria tomado a iniciativa de fazer o Acordo Ortográfico, eu diria "não, não teria tomado a iniciativa de fazer o Acordo Ortográfico". A sua pergunta agora é outra: é se tomo a iniciativa de desfazer o Acordo Ortográfico. E eu também lhe digo "não, não tomo a iniciativa de desfazer o Acordo Ortográfico".**
_______________________________________
* António Costa nasceu em 17.Jul.1961. Nessa altura, a reforma ortográfica mais recente datava de 1945. Só em 1973, através do Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro, a ortografia portuguesa de Portugal voltaria a sofrer pequenas alterações que não emergiam de nenhum acordo formal e nada tinham a ver com o senhor Luiz. Correriam os anos de 1968/1969 quando António Costa andava na segunda ou na terceira classe... O menino Costa há-de por certo ter sido atingido — nota-se que foi —, não por um acordo mas por um brlft; disso não quero duvidar.
** Intimassem-no o Partido Comunista Português ou o Bloco de Esquerda a desfazê-lo e veríamos se o não desfaria. A correr e a saltar.
Do doutor António Costa só podemos esperar iniciativas, as que forem mesmo dele, de extrema motivação patriótica. Sem prejuízo, obviamente, do brlft. A língua que se dane.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

«[...] a cobardia intrínseca desta personagem

[...]
Durante as últimas décadas, Marcelo foi o grande mordomo do regime e um dos responsáveis pela ausência de debate sério sobre os problemas de Portugal.
[...]
O ex-discípulo de Marcello Caetano foi o idiota útil dos donos do sistema, o fala-barato que encheu o ar com pólvora seca.
[...]
uma máquina discursiva sem nada lá dentro.
[...]»  
_______________________________
A despropósito, o Quim da bomba.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

PB - PB, a ceifeira não descansa

Paul Bley, 10.Nov.1932 - 03.Jan.2016


* Nome inverso de Carla [Carla Bley] 

- x - 


Presidenciais 2016

O sapo e o reitor.

Acordo Ortográfico [100]

Exmo. Senhor
Arturo Pérez-…, ups!, António Costa-Reverte, chefe do governo de Portugal.
Em defesa dos reais elementos de soberania nacional que ainda vai a tempo de resgatar, pela reabilitação e dignificação das «letras e das sonoridades que uma comunidade de língua veicula», desígnio que lhe parece caro, oiça, por favor, com humildade e atenção o que Nuno Pacheco disse na TVI24, "Olhos nos olhos", entre as 22h33 e as 23h27 de ontemVá lá, são só 54 minutos; se ouviu volte a ouvir e oiça de novo: 3 x 54 não chega a dois jogos de futebol do seu Benfica.

Acalme, doutor Costa-Reverte, «aplaque a velocidade a que corre o caudal dessa torrente» reversiva, não seja tonto, deixe em paz a TAP e o interesse público que ela representa, não perca mais tempo com os transtornados que entesoam a tentar desgraçá-la,* poupe-nos a aventuras perigosas e dedique-se às coisas importantes. Faça o que tem de (des)fazer, e pode, pela Língua Portuguesa. Peça ajuda, se não conseguir dar-lhe ordens, ao ministro da Cultura que é para isso que lhe pagamos.
Pelo asseio da minha pátria.

Parabéns e muito obrigado, caríssimo Nuno Pacheco.
______________________________________________
* «[…] o Partido Socialista de António Costa, talvez por interesses ocultos, insiste em que o Estado deve ter a maioria do capital da TAP, que, se não fosse privatizada, corria o risco de fechar as portas e de colocar no desemprego milhares de trabalhadores. Se isso acontecesse, o funeral da TAP seria inevitável. Logo, tudo isto prova a falta de respeito de António Costa pela TAP e pelo dinheiro dos contribuintes. Uma falta ignóbil semelhante a tantas outras de José Sócrates, que levou Portugal à bancarrota. Por isso, não podemos deixar de lembrar que a TAP não pode continuar a ser um albergue de “boys”, ao serviço de políticos incompetentes e sem escrúpulos.
[…]»
J. Martins Pereira Coutinho, na revista "Cargo", Nov/Dez2015.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Se a gente já não se vir

Urge que o governo Costa & Centeno, com que embarcámos em 26.Nov.2015 no "tempo novo" e nos restituiu agora os quatro dias de festa confiscados, diligencie quanto antes o dispositivo legal — conchtucional por ora não pode porque precisaria de dois terços e nem o que Marcelo reza ajudaria — que dissipe de vez a seguinte questão social fracturante: 
A partir de quando não é demasiado cedo — se já não nos virmos — e até quando não é demasiado tarde — ainda não nos vimos — para desejar bom ano?
A partir de 15 de Dezembro e até 10 de Janeiro?
A partir de 1 de Outubro, que é quando o Natal está à porta, e até 31 de Março?
A partir de 1 de Julho, que é quando falta pouco para o Natal estar à porta, e até 30 de Junho?
Mal é que a joint venture Catarina & Jerónimo não aprove, ela em nome da alegria e da felicidade, ele dos trabalhadores e do povo.
Isto, sem prejuízo do que o doutor Miguel Tamen não tardará a ensinar sobre "a tempestiva pertinência dos cumprimentos, saudações, desejos e votos".

É pois com a supra-enunciada incerteza metafísica, que me dilacera a cidadania, que venho desejar ao paciente leitor, se ainda nos não vimos, um excelente 2015 e anteriores, e, se já não nos virmos, um óptimo 2017 e seguintes.
E um feliz Natal para todos, todas e tudo.
__________________________________    
O quê? Esqueci-me de 2016 e da pacienta leitora?
Tenham paciência mas o departamento de bissextos não é aqui e não me chamo Marisa Matias.

Leituras de fim-de-semana

«[…]
É tempo de completar o bem-sucedido quadro de cooperação política e económica da CPLP com a afirmação de um pilar de cidadania, essencial para consolidar este espaço em percursos de vida, partilha de letras e de sonoridades, que uma comunidade de língua veicula. 
[…]
Em 1974, Sérgio Godinho, cantou que "a sede de uma espera só se estanca na torrente". Depois destes brutais anos de austeridade, temos de gerir com inteligência a torrente, transformando a sua força em energia e progressivamente ir alargando as margens, aplacando a velocidade a que corre o caudal, permitindo navegação tranquila e com rumo certo.»

bem-sucedido? pilar? cidadania? pilar de cidadania? consolidação do espaço em percursos de vida? partilha de letras letras? — e de sonoridades? [e o jindungo, pá?] E a Guiné Equatorial? De que fala exactamente Costa?
O verso de Sérgio Godinho é da cantiga "Liberdade", do álbum "À queima roupa" gravado no seguimento do 25 de Abril.
De que concreto tempo antigo, com que extensão e discriminados tormentos, pretende António Costa libertar Portugal? Que ideia faz António Costa de uma torrente? gerir a torrente? alargando as margens? Que margens? Pode elucidar-nos sobre a navegabilidade das torrentes? Mais ainda, sobre a navegação tranquila numa torrente? Está na cara que o doutor Costa confunde corrente com torrente. Nisso, no charivari silábico, ele é, façamos-lhe justiça, insuperável.
A gente sabe: fica sempre bem trazer um Zeca ou um Sérgio ao discurso político esquerdalho ... nem que para salvar o efeito se force a fazer de rio a enxurrada .  
Enfim, conversa de chacha, tontice, demagogia. 

- x -
«[...]
Desejo a tod@s um feliz e suculento ano de 2016.»
A doutora — Marta Crawford, "O suco da essência", Notícias Magazine, 03.Jan.2016 — a chapinhar no ridículo do fervor em manobras politicamente correctas, aprendidas no sistema educativo em que, por exemplo e entre milhões de psitacídeos do género, a pastorinha do venerando Boaventura também aprendeu. A propósito,

«[…] 
Expresso- Há pela primeira vez duas candidatas a Belém. É a evolução da sociedade portuguesa? 
Marisa Matias- Não é evolução: é um enorme reflexo do nosso atraso. Em 40 anos de democracia só tivemos uma candidata — maravilhosa candidata, Maria de Lourdes Pintasilgo. 
[…]» 

Relampejam de esplendor as celestiais cintilâncias sempre que uma BEata chama maravilhosa a uma beata, ainda que a candidata Pintasilgo se tenha extinguido com 7,38%  no dia 26 de Janeiro de 1986, vivia a maravilhada pastorinha em alcouce, peço perdão, em Alcouce e ia fazer 10 anos...  

- x -

«[...]
AT-T—  Em 2016, vai editar algum disco?
MJV—  Desde há dois anos, tenho composto, por razões pessoais, canções românticas e apetece-me mesmo fazer um interregno. Será um disco de canções sentimentais, para descansar do labiríntico zigurate caralhiforme que erigi.
[...]»
Assim é que é falar.

domingo, 3 de janeiro de 2016

A intendente

Esta manhã ultrapassei na rua um par, na casa dos 20, no justo momento em que, iam* de mão dada, ela o intimava em tom de pasmada altivez:
- Como assim?!
Não ouvi mais, que ando depressa, nem se ele se explicou.**

* Não irão longe.
Para que se não diga que sou preconceituoso.
_________________________
** nãesiêlcieis?

sábado, 2 de janeiro de 2016

Encastelados calhaus de sabedoria [2]

"Jamais haverá ano novo se continuar a copiar os erros dos anos velhos

Como é possível que um jornal que tem Diogo Vaz Pinto na secção de Cultura propale estas mentiras e ofensas?
Camões jamais diria coisa tão pífia e num português-mostrengo daqueles. 
Haja respeito e decoro.
Ó Diogo, grite com essa gente, foda-se, até porque, malfadadamente, não é a primeira vez. Com que porcaria de jornalistagem trabalha aí?*
Parem de gozar c’o Camões!

* Trabalham deste modo, a gente sabe.
Ó Raquel, editora da Cultura, ponha brio nisso, porra!
_____________________________
Quem é o Diogo? – pergunta-me o leitor desavisado.
Um rapaz que falava assim, há dois anos e picos; que escreve assim, hoje. Diogo Vaz Pinto é dos melhores.

Todas as semanas José Cutileiro avia um morto

Um dos meus abscônditos e impartilháveis divertimentos é o de contar as palavras interpostas entre o sujeito e o predicado da oração principal do mítico e extenuante primeiro parágrafo dos obituários os melhores da imprensa portuguesa com que José Cutileiro [JC] nos desafia, regala e ensina no Expresso.
Por exemplo, «Bajraj Khyatriya Birabara Champati Singh Mahapatra morreu no passado dia 30 de Novembro.» seria uma abertura quase inimaginável em JC. 
«Bajraj Khyatriya Birabara Champati Singh Mahapatra, último Rajá de Tigiria, reino de menos de 60 quilómetros quadrados no meio das florestas de Odisha na Índia Oriental, onde os seus antepassados se estabeleceram em 1246, desde então assegurando o poder em linha pura e varonil, havendo ele próprio subido ao trono em 1943, aceite de bom grado o domínio inglês quando este chegara, entendendo-se para vantagem mútua com a Companhia das Índias Orientais que lhe deixava grande liberdade de acção, incluindo cobrança de impostos nos seus domínios tradicionais (numa governação invulgarmente tolerante, a única cadeia do reino era um telhado assente em quatro colunas, sem paredes: a pena mais pesada era o Rajá deixar de falar ao condenado) e aceitando, em 1947, o estipêndio decretado pela Índia independente governada pelo Pandita Nehru — muito menor do que os rendimentos históricos que até então lhe haviam cabido e suprimido em 1975 pela filha de Nehru, Indira Gandhi —, morreu no passado dia 30 de Novembro, depois de doença breve sobre velhice debilitada, na sua residência há 28 anos, miserável casebre de terra batida com asbestos por telhado que deixava passar água da chuva, em cama pobre de madeira, grande oleado a servir de manta e meia dúzia de cadeiras de plástico, cercado por muitos súbditos fiéis que em multidão se transformaram na cerimónia fúnebre que se seguiu, cada um dos camponeses de Purana Tigiria pagando 10 rupias para a cremação, tal como lhes havia pedido o Rajá (o qual nos últimos anos preferia que lhe chamassem “ajá”, o que na língua local significa “avô”).
[...]»
Do sujeito principal ao predicado «morreu», 148 palavras; 255 palavras — contando como uma as seis do mnemónico nome do Rajá — antes do primeiro ponto final.
É quase sempre assim. Além do gozo salutar de ir escandindo a bela prosa, a divisão das orações nos primeiros parágrafos de JC não deve andar longe da eficácia do sudoku na profilaxia do Alzheimer

O pior é quando de longe em longe o nosso diplomata se passa dos carretos, atalha cerce e temos de engolir a saliva que ficou por gastar na falta das orações com que semanalmente se compraz a atormentar o fôlego do leitor até ao primeiro ponto final da peça. Foi o que aconteceu em 21.Fev.2015Carl Friedmann Djerassi morreu na sua casa de São Francisco da Califórnia no passado 31 de Janeiro de complicações de um cancro nos ossos.»] e ia sucedendo em 15.Ago.2015Samuel Pisar, que morreu de pneumonia em Manhattan em 27 de Julho passado, foi um advogado internacional especializado em relações económicas,»], não fora o primeiro ponto final da peça surgir à distância apneica de 243 vocábulos, assim se compensando o leitor adicto, como eu, da frustração de entre o sujeito e o predicado principais não haver senão a míngua de 11 palavritas.

Para que se não diga que o Plúvio é um chato.