quinta-feira, 31 de março de 2016

Manuela e a dissolução dos costumes

«e isso leva-os [os cidadãos], por exemplo, a ter uma atitude mais lasciva* relativamente por exemplo ao consumo, que é uma das apostas deste governo.»
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* Vamos que a virtuosa doutora e portanto não quis mesmo dizer «laxista»?...
Mas eu, perverso, quero apostar no "lapsus linguae".
Ai, Manuela!

quarta-feira, 30 de março de 2016

Arlequim, arlequim aos molhos

Não oferecia dúvida a nenhum olhar minimamente atento que a conversa de 10 minutos e picos com que o Presidente da República veio, pelas 17h00 de anteontem, explicar na TV a promulgação do Orçamento do Estado consistia de texto meticulosamente estudado e previamente escrito. Dissimulando uma espontaneidade de gato escondido com rabo de fora, Marcelo lá foi seguindo, certinho, o teleponto até que ao minuto 08:55 se entaramelou na leitura:
«Nós sabemos que como orçamento-compromisso houve reservas de parte a parte e que porventura não este o governo, não é o orçamento que o governo teria preferido.»

.  Constança Cunha e Sá- Há aqui um registo completamente diferente. O passeio pelos jardins, o facto de estar sentado, o facto de não ser uma comunicação escrita. Que me lembre deve ser a primeira comunicação ao país de um Presidente … 
José Alberto Carvalho- Não escrita! 
Constança- … não escrita. Portanto, tudo isto é de certa forma surpreendente. 
.  o Presidente, que falou de improviso num pouco comum horário das 17h00, diferente das 20h00 que tantos governantes utilizam para fazerem as aberturas dos noticiários.

.  Sentado, de improviso — mas que Presidente é que faz uma comunicação ao país de improviso? —, este foi mais um comentário que podia ter continuado com um “Judite, ainda temos tempo para ir aos livros?”

.  o Presidente da República falou de improviso e elencou as razões pelas quais deu luz verde ao OE.

.  E Marcelo marcou a diferença com discurso de improviso

Etc.

Que porcaria de jornalismo é este?

- x - 

Aproveito para meia dúzia de impressões requentadas que conservo daquela estapafúrdia quarta-feira, 9 de Março de 2016, dia da posse de Marcelo, o mais cartilagíneo dos políticos, a mais azougada das criaturas, até agora uma espécie de presidente-arlequim.

10h11- Marcelo jura e torna-se PR.

10h12- Canta-se «contra os canhões marchar, marchar» enquanto o canhão canta 21 estrondos contra a Trafaria.

10h18 – Ferro Rodrigues discursa.
«Eleito “de forma clara”, discursou ainda o Ferro Rodrigues, “a partir de hoje, vossa excelência” — virando-se para Marcelo Rebelo de Sousa — “é o nosso Presidente, o Presidente de todos os portugueses. Desejo-lhe as maiores felicidades”.»
Contesto. O que ouvi e vi:
«A partir de hoje, Vossa Excelência, Marcelo Rebelo de Sousa — Ferro Rodrigues vira-se para Aníbal Cavaco Silva, à sua esquerda, minuto 01:25 —, é o nosso presidente, é o presidente de todos nós, o presidente de todos os portugueses.»
Era.

Que tal? 
.  Paulo Portas- literariamente bem escrito 
.  Nuno Rogeiro- literariamente exemplar
.  Diogo Ramada Curto- o que nele mostrou foi um somatório de referências obsoletas, para não lhes chamar bacocas.
.  João Miguel Tavares- Em resumo, foi uma chatice.
. Plúvio, valendo-me de Alexandre O'Neill- Uma coisa em forma de assim, redonda, limpinha, demagógica qb, patrioteira, exaltante, optimista, para agradar a todos, com citações de Mouzinho de Albuquerque, Adam Smith, António Lobo Antunes e Miguel Torga. Atenhamo-nos à parte final:
«Mas a resposta vem de um dos nossos maiores, Miguel Torga. Que escreveu em 1987, vai para trinta anos: 
"O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista. Daí a espécie de obscura inocência com que actuamos na História. A poder e a valer, nem sempre temos consciência do que podemos e valemos. Hipertrofiamos provincianamente as capacidades alheias e minimizamos maceradamente as nossas, sem nos lembrarmos sequer que [Torga escreveu, e bem, lembrarmos sequer de que] uma criatura só não presta quando deixou de ser inquieta. E nós somos a própria inquietação encarnada. Foi ela que nos fez transpor todos os limites espaciais e conhecer todas as longitudes humanas…
... Não somos um povo morto, nem sequer esgotado. Temos ainda um grande papel a desempenhar no seio das nações, como a mais ecuménica de todas. O mundo não precisa hoje da nossa insuficiente técnica, nem da nossa precária indústria, nem das nossas escassas matérias-primas. Necessita da nossa cultura e da nossa vocação para o abraçar cordialmente, como se ele fosse o património natural de todos os homens." 
Pode soar a muito distante este retrato, quando se multiplicam, na ciência, na técnica, na criação da riqueza, tantos exemplos da inventiva portuguesa, entre nós ou nos confins do universo. [Levemente exagerado. Ou será que a NASA conseguiu identificar num cantinho da A1689-zD1 gases de um tuga que ali se peidou?]
E, no entanto, Torga viu o essencial. 
O essencial, é que continuamos a minimizar o que valemos. 
E, no entanto, valemos muito mais do que pensamos ou dizemos. 
O essencial, é que o nosso génio – o que nos distingue dos demais – é a indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica. Abraçando o mundo todo.
[Mas que merda de vírgulas são estas, senhor Presidente? Ou esta — "O essencial, é" —, repetida aqui.]
Ela nos fez como somos. 
Grandes no passado. 
Grandes no futuro. 
Por isso, aqui estamos. 
Por isso, aqui estou. 
Pelo Portugal de sempre!»
[Anoto que Marcelo, bailarino, inverteu a ordem por que Torga escreveu os parágrafos: o que começa por "O difícil" pertence à página 216 e o que começa por "Não somos" à página 215 do livro "miguel torga – diário, volumes XIII a XVI"]

11h02- António Costa aperta a mão de Marcelo durante sete segundos à velocidade convulsiva de seis sacudidelas por segundo. Não quero imaginar a entorse de que Sampaio da Nóvoa se livrou...

11h24- Maria Manuel, lady in red, simplex 

Paulo Magalhães, da TVI, agora chefe do gabinete de comunicação da Presidência, realça a presença de «vários dignatários de confissões religiosas».


«É uma encenação de espontaniedade que Marcelo sabe muito bem fazer.»

Foi isto.

sábado, 26 de março de 2016

«as senhoras vão gostar muito»

«[...]
Mas claro que nem só de miúdos vai viver o 4DX. Luís Brito, 50 anos e coordenador de eventos corporate, à saída da sessão-teste aprovava o sistema: "Aquilo permite uma sensação orgásmica! Diria que é uma experiência sensual e que as senhoras vão gostar muito."
[...]»

Capazes, câncias e mortáguas, por que esperam? Toca a malhar no Brito.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Paris-Bruxelas: Cazeneuve às apalpadelas

Ministro francês da Administração Interna*, ontem:
Aqui avivo em auxílio de monsieur Bernardo Casanova — não precisa de agradecer — três elementos que ligam inconsutilmente as matanças de 13 de Novembro passado e de 22 de Março corrente, para não falar de todas as outras interligáveis: Alá, Maomé, Alcorão. O resto pouco mais será do que ruído e entretenimento.
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* Reconheço que a polícia é pouco calhada para a "intangibilidade dos elementos", mas pergunto-me se não é tempo de levar a Teologia ao senhor juiz de instrução; e constituí-la, agora que é moda, arguida com termo de identidade e residência. No mínimo. Tal como o ambiente, como diziam Inês e Francisco nos oito anos de "Um minuto pela Terra", talvez a civilização, em que me calhou nascer e em que gosto de habitar, também agradeça.
A Inês e o Francisco das «rãs e outros insectos»; lembram-se?

terça-feira, 22 de março de 2016

Maomerda em Bruxelas

Com a infinita e omnipresente ternura de Deus do Papa Francisco e uma leitura correcta do Alcorão, o afecto do presidente-arlequim e a clarividência de todos os BEatos do planeta, mal é que a coisa não se resolva.

Terça-feira santa, 22 de Março de 2016
. 10h35, António Costa, nos Açores, reagindo, com pensamento estagiado em longos e acarvalhados séculos de ponderação, ao assassínio de César por Bruto e ao seu próprio não envenenamento cada vez que engole sílabas da 'constituição' e das 'instituições':
«Não podemos estar sempre a responder por impulso cada vez que há um atentado. […] Por cada atentado que ocorre há dezenas de atentados que não ocorreram.»
Ai de nós se o doutor António Costa fosse impulsivo.

«Eu vinha hoje para o estúdio acompanhada do meu filho de oito anos a pensar que quando eu tinha a idade dele ninguém me falava de terrorismo, eu não ouvia falar de terrorismo. Quando ouvia falar de terrorismo, estava associado a uns grupos de guerrilheiros algures na América latina e até havia uma espécie de áurea, quase nobre, passe a expressão, nesses grupos.»
Isabel Estrada Carvalhais nasceu em 1973. Se por alturas de 1981, aos oito anos, não ouvia senão aquilo acerca do terrorismo, é porque não lhe permitiram saber o que o terrorismo já vinha sendo, o que, convenhamos, tratando-se de criança de oito anos, não era grave nem importante.
Grave e deveras penoso é que Isabel tenha chegado a professora doutora, escritora, colunista e comentadora especializada, sem ter ouvido falar no erro tosco da troca do substantivo 'aura' pelo adjectivo 'áurea'.

«Tive oportunidade, já, de transmitir a Sua Majestade o Rei dos belgas — ena! — o pesar, o repúdio e a solidariedade do povo português e estou a acompanhar atentamente a situação, incluindo no que respeita à nossa compatriota ferida num desses ataques.»

. 12h47, Sónia Ferrador, enfermeira em Bruxelas, parceira de quarto da 'nossa compatriota ferida':
«Ela não está ferida, não tem qualquer ferimento.» *

«Aprofundando um pouco a análise…, a radicalização e o radicalismo nunca vão desaparecer no espaço europeu, no espaço das sociedades democráticas, nas sociedades ocidentais. Porquê? Há-de haver sempre o choque entre a expectativa e a dimensão factual. Ora bem, no choque entre a expectativa e a dimensão factual, nem sempre a dimensão factual permite que a expectativa seja cumprida […] Essa mesma radicalização tornou-se permeável a uma outra narrativa […] Neste caso, é uma narrativa puramente identitária.»
Pum!!!

«Não se pode continuar a cultivar isto como se fosse uma guerra de civilizações e uma questão identitária.»
Ai pode, pode, senhora doutora! De civilizações é que estas merdas, maomerdas, são também, se não principalmente.
Quem passou a juventude, com o esqueleto ainda em consolidação, a charrar Boaventura Sousa Santos é inevitável que desemboque nesta clarividência.

Todas as televisões 'acompanharam em permanência'. Foi o que lhes valeu. Estas merdas rendem; maomerdas destas, então, nem se fala.

«Um, dois, experiência; um, dois, experiência ... Chama-se Deus à cabina de som, repito, chama-se Deus com urgência à cabina de som. Obrigado.» 
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* Parece haver frustração noticiosa sempre que não há portugueses, um luso-descendente de 4.ª geração que seja, relacionados com a estas merdas e maomerdas. Force-se pois a imaginação: enfermeira de Coimbra ferida de susto em Bruxelas; trolha da Covilhã vítima de enxurrada no Sri Lanka, no seguimento de rotura de um autoclismo.