sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Furacões e furaconas

«[...]
O algoritmo do Google tem a indelicadeza de mostrar que, quinze dias antes, uma revista que se dedica a relatar factos sensíveis de gente sensível para gente sensível confundiu Catarina Furtado com um bulldozer e comunicou: "Catarina Furtado arrasa em biquíni". Mas como os furacões têm nomes de mulher e logo a seguir aparece um título onde o verbo "arrasar" é usado no sentido literal — "Furacão Maria arrasou a ilha de Dominica" —, somos levados a pensar que talvez estivéssemos equivocados e que o nome de Catarina Furtado designa, no idioma da revista sensível, não um efeito bulldozer provocado pela magia do biquíni, mas um verdadeiro furacão — feminino, como é o nome de todos os furacões.
[...]»

Num destes dias considerei António Guerreiro como «o melhor e mais bem informado colunista da nossa comunicação social».
Faltou-me acrescentar «salvo quanto à onomástica dos furacões em que António Guerreiro leva um atraso de 37 anos». Atraso zombeteiro e encanitante quando se escreve todas as sextas numa "estação meteorológica"...
«[...] Em 1953, o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos deu o primeiro nome de uma pessoa a estas tempestades, para ser mais fácil comunicar com o público, estreando-se com Alice. Durante anos, os furacões, tempestades tropicais que se formam no Atlântico, apenas tinham nomes de mulheres. No Pacífico, estas tempestades tropicais (que aí se chamam tufões) também receberam nomes de pessoas, que no início eram igualmente de mulheres.
Mas os furacões do Atlântico tiveram o seu primeiro nome de homem em 1979 – Bob. O mesmo aconteceu nessa década para os tufões no Pacífico.
Desde então, para evitar discriminações sexuais, a designação deste fenómeno natural é escolhida, de forma alternada, a partir de uma listagem de nomes masculinos e femininos, e cada um desses furacões pode revelar-se bastante violento independentemente da sua denominação. [...]»

Qual o nome do próximo?
Fui espreitar. Tão cedo não virá nenhum António.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A comissão dos arquitetos e o clarinete

Entre os 1060 comissários de honra de Medina2017, de que conheço 360, avultam com maior representação por mester
72 arquitetos, nenhum arquitecto,
55 empresários,
45 advogados,
33 jornalistas,
28 atrizes, nenhuma actriz,
26 actores e um ator [Hélder Gamboa],
26 músicos, dos propriamente ditos,
19 fadistas,
18 deputados e ex-deputados, nenhum ministro,
12 cozinheiros.

Ademais,
nenhum padre ou bispo, mas dois abades [Agostinho e Tiago],
um enrabador notório, no T,   
um ladrão rasca, sim, rasca, no T,
nenhum jovem da Cova da Moura, talvez para desgosto de Joana Gorjão Henriques, Valentina Marcelino e Fernanda Câncio [tenho quase aprontado um exaustivo e explosivo estudo, ahahah, que logo publicarei].

Vai para 40 anos que me entretenho a perscrutar listas de "comissões de honra" nos processos eleitorais.
Por exemplo, é todo um tratado de hermenêutica antropológica adivinhar e distinguir os que apoiam Fernando Medina para que ganhe dos que apoiam Fernando Medina porque vai ganhar. Alguns destes, parasitas e oportunistas de turno, fedem que tresandam.

Exercício divertido, salutar e edificante é igualmente o de, mais um exemplo, reconhecer os comissários de honra comuns à presente campanha de Medina e, seis anos atrás, à campanha de recandidatura de Cavaco Silva, a começar, significativamente, pelo primeiro nome da ordem alfabética...

Por exemplo ainda, sendo óbvio que não causa nem poderá causar a menor estranheza a não comparência de Alberto Gonçalves entre os apoiantes de Medina, confesso que ainda hoje me desconcerta revisitar o seu nome na Comissão de Honra de um bronco de Boliqueime.

Nenhum dos candidatos a Lisboa me suscita a menor simpatia e detesto especialmente o esfíngico e videirinho alMedina.
É também por isso que no próximo domingo vou votar com redobrado gosto na projecção do concelho em que resido «como Capital do Clarinete». Na CDU, pois então.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

De tanto cair em mim

estou cheio de hematomas.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Vida de merda,

a que levamos no escrutínio de indícios de sangue na inocência alva do papel higiénico.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Zapping – Coisas erradas com palavras erradas

Godofredo Alvim: «José Mourinho e o seu emblemático professor, António Sérgio.»  

Romualdo Alvim: «Era o António Sérgio, ... era o António Sérgio! ... Vocês não acreditam; é verdade.»

Manuel Sérgio: «Vale mais dizer coisas certas com as palavras erradas do que dizer coisas erradas com as palavras certas.»

- x -
«Feira farta - Productos da Terra» 
RTP Memória, 17.Set.2017
Talvez o apedeuta que redigiu e o apedeuta que aprovou o reclame estejam contra o Acordo Ortográfico, mas tanto brio intoxica.
Acudam-nos, ó da Guarda!

- x -
Simpósio Cónogo Formigão
Deixem-me adivinhar: Cónogo por parte da mãe; Formigão, do pai.
Ia para dizer cona da tia mas lembrei-me a tempo de que é feio brincar com a nossa senhora.

sábado, 16 de setembro de 2017

Sobremesa caramelizada

caramelo acha que «um bocadinho de bom senso dá para concluir que se tratou de um mero lapso» a obliteração de no mínimo 13 cláusulas e número indeterminado de páginas no anexo "Escritura" da "TRANSPARÊNCIA" de Fernando Medina.
Apetece-me imaginar caramelo na hora da sobremesa, com o seu bondoso e relaxado critério de transparência [ninguém exigiu de Medina a exibição do contrato, mas já que o fez, com a denominação de "Escritura" e não de "E..r.t..a", conviria que não nos desse por lebre uma amostra de gato], em diálogo com o constrangido empregado do restaurante, face aos filamentos de esfregão de arame no arroz doce:
- Deixe lá, amigo, são coisas que acontecem, decerto um mero lapso. Traga-me uma maçã assada e não se fala mais no assunto.
O fervor das causas costuma acelerar a miopia. Eu, por exemplo, que em Lisboa votei sempre no PS, vou votar na CDU em Loures.
O proselitismo piora as coisas. Por exemplo eu, olivófilo infrene e míope, não consigo encontrar defeito nas azeitonas alentejanas que compro ao senhor Elias. 

«Dispensa-se tanto o exercício de grafologia do Plúvio como o caricato ar de quem decifrou a pedra da roseta no documento.»
Concordo com caramelo. Admito, de resto, que segundos antes de publicar o verbete sobre a transparência e a vaidade de Fernando Medina ainda hesitava: Plúvio, Plúvio caricato, quando paras de esbanjar o tempo em «exercícios estúpidos e ridículos»?

Quanto à convocação do genial, imenso e, virtude não menor, divertidíssimo Umberto Eco, atrevo-me a adivinhar que caramelo e o Plúvio comungam de apreciáveis afinidades literárias.

- Pode ser ananás caramelizado com pêssego, um café e a continha, por favor.

Henrique Raposo | António Guerreiro

Temos a burra nas couves.
«[...]
Comparar o sangue de um animal ao sangue humano é que é desumano, pois rasga a sacralidade da vida humana, dos direitos humanos, do direito natural.
[...]
Comer o que se mata é um acto de seriedade para com a natureza e para com a humanidade, até porque estabelece as devidas diferenças entre os animais tocáveis e os humanos intocáveis.
[...]»

«[...]
No nosso tempo, não é fácil reconhecer um fascista: porque eles não ousam dizer o seu nome ou nem sequer sabem que o são; porque um antifascismo demasiado espontâneo provocou uma inflação demagógica dessa classificação e retirou-lhe todo o rigor.
Com algumas precauções, confirmei na semana passada a existência de um exemplar da espécie: chama-se Henrique Raposo e é cronista do Expresso.
[...]
Na versão kitsch e pindérica de Henrique Raposo (mas não é o kitsch ideológico uma característica do fascismo?) o culto da morte exprime-se desta maneira: “Há qualquer coisa de belo num tiro que é o encontro entre a trajectória da bala e a trajectória da presa; colocar a bala ou chumbo naquele milionésimo de segundo em que as duas linhas, a do tiro e a da presa, se encontram é um desafio belo”.
[...]»

Se, retribuindo a taxonomia, Henrique Raposo, «pequeno fascista piroso e pindérico», vier contar no Expresso que reconheceu em António Guerreiro, porventura, desde 1986 no Expresso e desde 2013 no Público, o melhor e mais bem informado colunista da nossa comunicação social, um «paneleiro marxista e amigo dos animais», quem pode espantar-se?
Onde mora a virtude?
Quem professa os deuses certos?
Que saberá António Guerreiro, que muito estimo, da sensibilidade das alfaces?

Sagradas escrituras e grafologia

«Para que cada pessoa possa aferir por si própria, sem retórica ou argumentação», o doutor Fernando Medina, genro deste antigo ministro de Sócrateso maior incompetente do mundo», Marcelus dixit], presidente da Câmara de Lisboa e candidato a continuar a presidi-la, vem, num exercício patético com o seu quê de ridículo — «Tive como motivo ter residência próxima da família, para bem-estar de todos.» — de "TRANSPARÊNCIA" aparente, sem data, em 12 pontos e com sete anexos, contrariar esta notícia alegadamente malévola sobre rendosos negócios seus.
Íntegro e probo, alheio e imune a compadrios, cambalachos e favores, o edil alMedina  aspira aos altares.
Confesso-me comovido.
Mas o que mais me tocou, a mim que me pauto por estritos critérios de ciência e objectividade, foi a portentosa assinatura que nos é revelada no "CONTRATO DE COMPRA E VENDA E MÚTUO COM HIPOTECA" [com hiatos a dar com um pau: entre a página 1 e a página 2 salta do "TERCEIRO" para a "Quarta"; entre a página 3 e a página 4 salta da "Cláusula Terceira" para a "Cláusula Quinta"; entre a página 4 e a página 5 salta da "Cláusula Quinta" para a "Cláusula Oitava"; entre a página 5 e a página 6 salta da "Cláusula Nona" para a "Cláusula Décima Segunda"; entre a página 6 e a página 7 salta da "Cláusula Décima Segunda" para a "Cláusula Décima Quarta"; entre a página 7 e a página 8 salta da "Cláusula Décima Quarta" para a "Cláusula Décima Sétima"; e culmima com um "TERMO DE AUTENTICAÇÃO" coxo e amputado entre a página 9 e a página 10; mas toda a gente sabe que a transparência é uma saltitona endiabrada...], na página 8, a fechar a "Cláusula Décima Sétima":
Repare-se na assinatura de Fernando Medina Maciel Almeida Correia. Que projecção, céus!, que animal determinado, que ambição, que cagança!       

A propósito,
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É delicioso perceber a participação de Luís Vargas na "TRANSPARÊNCIA" - Anexo B / "Propriedades do documento".
A tratar-se de Luís Vargas do "Geringonça" é porque se vai cumprindo a ordem natural das coisas. Afinal, Medina não «precisa de todos»?

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ladroagem, honra, orgulho

«Ministério Público acusa Tony Carreira de plagiar 11 músicas
...
Os arguidos aproveitam a matriz de obras alheias, utilizando a mesma estrutura, melodia, harmonia, ritmo e orquestração e, por vezes, a própria letra de obras estrangeiras que traduzem, obtendo um trabalho que não é mais do que uma reprodução parcial do original, não obstante a introdução de modificações”, explica a acusação.
...
Tony Carreira está acusado de 11 crimes de usurpação e de outros tantos de contrafacção

António Costa, primeiro-ministro, rejubila e aplaude de pé.
«Foi uma sorte esta coincidênciaEu quis transmitir de forma clara e inequívoca o grande respeito e consideração que o Estado português tem pelo trabalho que ele faz e o orgulho que temos por ter visto o seu trabalho reconhecido pela França.»
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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Nisto, Fernando Rosas interveio.



Foi aí e em consequência que o iracundo Irma amansou de 5 para 4 e em contraciclo emocional os astecas haveriam de estremecer de espanto. Alguma vírgula em falta faz favor de pôr.

O Professor Doutor Fernando Rosas nunca intervém em vão.
Mas vistas melhor as coisas, quer-me parecer que há um problema de conjugação nos BEatos, sem prejuízo da pandemia geral interventiva, passe a redundância e, sendo caso disso, a redonda ânsia. 

Muito boas noites.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O canoísta "rapper"

Eu julgava insuperáveis as calamidades corais de Marcoussis, 07.Jul.2016, e de Champigny, 09.Jul.2016, na eurofuteboleuforia lusitana de 2016. Eis que nem 14 meses passados assistimos a uma interpretação porventura mais desastrada do hino nacional.
Desta vez, a uma voz, pelo nosso prodigioso canoísta — Racice, República Checa, 26.Ago.2017.
Sugiro a Fernando Pimenta que na próxima medalha de ouro cante em "playback".

Mas nada se compara ao horror pandémico e inerradicável do "Parabéns a você".
Nos aniversários da minha família é o "Oliveirinha da serra" que entoamos. O espumante cai muito melhor.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Saber e correcção em alta pedalada

«[...] Para já, sabe-se que a premissa grega do corpo são em mente sã sempre esteve correcta. [...]»

Para já, não é corpo são em mente sã (?!) mas mente sã em corpo são.
Por fim, acuso o Expresso de disseminação de falácias.

«[...] Mas ainda há algumas pontas soltas. Resta saber se num tipo de aprendizagem mais intenso e mais trabalhoso haverá os mesmos resultados. [...]»

Pois há, Ana Maria, pois há; pontas soltas de sobra. E quanto a aprendizagens mais intensas não hesite, Ana Maria Pimentel, força nisso! A Universidade Nova de Lisboa também tem por lá uns estudos clássicos.

sábado, 26 de agosto de 2017

O bispo das grandes causas e o tempo quente

Oleiros, ontem à noite
«Ainda no outro dia, e muito bem, um senhor bispo, o bispo de Viana do Castelo, dizia: Esta é uma grande causa nacional e o Presidente da República está certamente atento a ela. E eu telefonei ao senhor bispo de Viana do Castelo a dizer: Olhe, senhor bispo, ainda bem que percebeu, ainda bem que apoia aquilo que é fundamental.»

Uns espalham brasas no «teatro de operações», o presidente-arlequim pulula fogoso de teatro em teatro.

Livre-nos a Senhora d'Agonia, que dom Anacleto trata por tu, de que o bispo de Viana se lembre de falar na Xylella fastidiosa*. Ainda haveríamos de perder o amado professor no imenso olivedo...
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* Não confundir  com Patriccya gasparosa
Carnaxide, sábado, 26.Ago.2017, 9 da manhã
PG1- «Então muito bom dia a todos. Agradecer desde já a vossa presença em mais um brífingue operacional sobre a situação do país em matéria de incêndios florestais.»
Hoje em dia todos os políticos e preopinantes de pacotilha gorjeiam como Patrícia Gaspar. A retórica enfunada fá-los incapazes de coisas simples como «Agradeço», «Quero agradecer» ou «Muito obrigado».

PG2- «Temos pequenas ocorrências em curso sem qualquer, para já, expressão de preocupação, designadamente quatro incêndios em despacho operacional de meios.»
Praticante de língua campanuda, Patrícia Gaspar tem um expressivo fraquinho pela expressão.
Nos mais recentes cerca de 97 brífingues, Patrícia perpetrou, que eu tenha contabilizado, 300 ocorrências de "expressão"/"expressivo".

PG3- «Relativamente à meteorologia, mantém-se a previsão, para já, ... uma alteração que se começa já a fazer sentir hoje mas com maior expressão a partir de amanhã e nos dias de segunda e de terça-feira caso não haja nenhuma evolução em contrário.»
Nem Raul Solnado, na sua mítica previsão meteorológica na RTP — «Amanhã talvez chova, talvez não chova; talvez esteja frio, talvez faça calor.» — acertara tão certeiramente.

«... muito fogo para um homem só ...»

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A prosa manca da doutora Isabel Moreira

A náufraga Visão de hoje traz uma página de propaganda a Fernando Medina assinada por Isabel Moreira. Entre outras coisas a articulista diz as seguintes, previsíveis nela mas tontas sempre:

«Lisboa pode provar que a inclusão de todas e de todos beneficia a cidade»

«Um candidato ou uma candidata à CML não pode ser desligado* da sua filiação partidária»

«Há quatro anos, os lisboetas e as lisboetas eram mais pobres»

«todas e todos assistimos à aposta na reabilitação urbana»

Revelando, porém, uma incongruência estilística assustadora, a azougada parlamentar do PS, jurista, Mestre em Direito Constitucional, ex-professora universitária, profere no mesmo reclame ao alMedina da mesquita as seguintes inesperadas atrocidades:

«os pagamentos aos fornecedores»,  no lugar de «pagamentos às fornecedoras e aos fornecedores»

«temos mais de 300 mil idosos», no lugar de «temos mais de 300 mil idosas e idosos»

«escolas dos nossos filhos», no lugar de «escolas das nossas filhas e dos nossos filhos»

«Ganham os senhorios», no lugar de «Ganham as senhorias e os senhorios»


Tenham paciência mas não posso deixar de denunciar publicamente estes desvarios de lesa-antropologia e de vil atropelo ao asseio gramatical por parte de representantes do povo eleitos num Estado de direito democrático.
De resto, Isabel Moreira não é virgem. Nestas patifarias na Visão, digo.
Para que conste.

Se o ridículo matasse...
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* «não podem ser desligados», s.f.f.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

A política e o mantra da decepção

O DN traz hoje uma entrevista de Fernanda Câncio, a quem me liga uma antiga e imarcescível sicofilia, à secretária de Estado da Modernização Administrativa, Graça Fonseca, como Marisa Matias mas na sombra doutra pernada da azinheira, pastorinha do indigesto bonzo de Coimbra. *
A entrevista diz muito de Fernanda Câncio e do actual DN. Graça Fufasseca — trocadilho, perdão, torcadilho soez e gratuito que muito dirá do Plúvio — não diz praticamente nada.
Fernanda Câncio introduz a entrevistada, negritos meus:
«Em Julho, quando três colegas de governo apresentaram a demissão devido ao caso das viagens da Galp, citou o filósofo Daniel Innerarity no Facebook: "A política, especialmente quando queremos distingui-la de outras atividades, exige duas coisas: ter-se dado conta de que o seu terreno próprio é o da contingência; uma especial habilidade para conviver com a decepção."
[...]
Do CES e do estudo da Justiça passou à acção, no respectivo ministério, então — em 2000 — liderado por António Costa. Foi aí que o conheceu e desde então o actual PM levou-a consigo para todo o lado: para o Ministério da Administração Interna em 2006, para a Câmara de Lisboa em 2007, para a lista de deputados por Lisboa nas legislativas de 2015. E para o seu governo, claro.
[...]»

Na parte do Daniel Innerarity repicaram-me sinos na cornadura; mais intensos ainda decerto porque o Big Ben amuou.
Permitam, pois, que repristine uma pequena cronologia.
«[...]
Da política
26.Mai.2001- Daniel Innerarity [Bilbau,1959], político, filósofo e professor basco, publica no El País um artigo de opinião, “Hacer política”,
"A mi juicio, la política, especialmente cuando queremos diferenciarla de otras actividades, exige fundamentalmente dos cosas: primera, haber caído en la cuenta de que su terreno propio es el de la contingencia, y segunda, una especial habilidad para convivir con la decepción. Habrá, sin duda, otras definiciones más exactas, pero seguro que ninguna de ellas deja de recoger, en alguna medida, estas dos propiedades.
[…]
En algún momento hay que recoger el veredicto y hacer con ello la política que se pueda. De ahí que la política sea fundamentalmente un aprendizaje de la decepción. Está incapacitado para la política quien no haya aprendido a gestionar el fracaso o el éxito parcial, porque el éxito absoluto no existe. […]."
2002- Daniel Innerarity publica o livro “La transformación de la política”, no qual plasma, com levíssimas adaptações, o dito artigo.
2005- 1.ª edição portuguesa do livro de Daniel Innerarity, “A Transformação da Política”.
28.Fev.2007- "A seguir ao debate mensal na Assembleia da República, José Sócrates, primeiro-ministro e secretário-geral do PS, juntou-se aos deputados socialistas num colóquio sobre a 'transformação da política na era da globalização', com o filósofo espanhol Daniel Innerarity. […]
Da obra de Daniel Innerarity, que contou ter conhecido quando António Costa lhe ofereceu um livro pelo Natal, Sócrates disse ter retido que 'a política é a aprendizagem permanente do convívio com a decepção', uma frase que o impressionou e iluminou". - Lusa, 01.Mar.2007
13.Mar.2008- Na reportagem da SIC, Sócrates como nunca o viu” [minuto 30:10], José Sócrates flana com Raquel Alexandra: "Sabe, um filósofo espanhol que conheci aliás recentemente — eu leio filósofos espanhóis; eu não conhecia este, é um basco, um homem que conheci aliás pessoalmente —, escreveu um livro que comprei, ou melhor, perdão, que me foi oferecido, aliás, pelo António Costa no Natal de 2005, e que dizia uma coisa muito interessante. Dizia ele que a actividade política é a eterna aprendizagem do convívio com a decepção.
30.Abr.2010- Intervenção de José Sócrates na cerimónia de doutoramento 'Honoris Causa' atribuído pela Universidade da Beira Interior a António Guterres: "Um grande filósofo europeu disse que a política é a eterna aprendizagem do convívio com a decepção. Não posso estar mais de acordo."
18.Out.2010, página 23, folha 115-  "No Salão Nobre do Edifício dos Antigos Paços do Concelho de Lagos, ... a Sra. Vice-Presidente da Câmara Municipal, Maria Joaquina Matos — viria a ser eleita presidente, na lista do PS, em 29.Set.2013 —, parafraseando um filósofo político disse que 'a actividade política é a eterna aprendizagem do convívio com a decepção'."
[...]»

Não é por nada, mas desde a prenda de Costa ao seu dilecto líder Sócrates, cheira-me a que esta gente desatou a ficar levemente ridícula. Mimetismo parolo.

No clímax — quando a entrevistada acaba de assumir que é com mulheres que a atrai foder, nisso não me distinguindo dela; já o velho Alçada Baptista, aristocrata naftalínico, se proclamava fogosamente lésbico — da peça organizada para propaganda das suas causas [que jornalismo, Fernanda Câncio, que jornalismo!...], a entrevistadora injecta o seguinte considerando à guisa de pergunta:
«Harvey Milk, o político americano dos anos 1970 que é uma referência do movimento pelos direitos dos homossexuais, disse, no início da luta, "a privacidade é a nossa pior inimiga". No sentido em que era preciso dizer "eu sou homossexual" como afirmação política.»

Lembrei-me logo daquele Fevereiro de 2009: «Milk, presumo...»
Isto anda tudo ligado.
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* Vá, Plúvio, confessa agora aqui o valente murro no estômago que levaste anteontem do João Taborda da Gama:
«[...] Law against Law é a tese de doutoramento de Boaventura de Sousa Santos. Boaventura, ao contrário do que acha alguma da direita acéfala, e do que deseja alguma da esquerda invejosa que nunca saiu de Portugal, mesmo tendo saído de Portugal, é dos mais interessantes e sólidos pensadores do direito que nasceu em Portugal e dos poucos reconhecidos na academia global (sem dúvida único na sua geração, hoje acompanhado de nomes como Nuno Garoupa e Poiares Maduro). Fui educado numa academia jurídica onde os seus textos não eram sequer referidos e, com certeza por culpa minha, só descobri o Boaventura jurídico há poucos anos, nos Estados Unidos, ultrapassando o preconceito e lendo de rajada o que pude. Pouco importa que não concorde com muito do que diz, e sobretudo com a linha onde se insere (que aliás não esconde), mas são daqueles textos que nos fazem mais espertos e onde se sente o gozo que teve quem os fez, pensou, escreveu. [...]»
"O morro e o asfalto" | DN, 20.Ago.2017

Muito certamente eu estava a pedi-las. Mas não sei se o João me convence com o «Boaventura jurídico».

Peça interessante de Catarina Homem Marques sobre a menstruação. A diferença de género é uma chatice? A igualdade seria.

Nota final quase a destempo.
Francisco Seixas da Costa rotula de Dignidade — sideral, sem um nome, sem um linque — o que, a meu ver, não passa de mero efeito conjuntural oportunista do anticiclone dos Açores. Nada de surpreendente, os apparatchiks, aparato-chiques e prosélitos, precisam regularmente de se comover uns aos outros. Por exemplo, Eduardo Pitta: mal se entra, o monitor lacrimeja.
Ai de nós, simples e imperfeitos normais.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

«dizia o António»

Diz a Maria:
«Eu penso que em mim há um conceito de liberdade. A professora Maria João Reynaud diz que a minha poesia assenta no conceito radical de liberdade. E eu penso que ela tem razão, é exactamente isso.
[...]
No tempo do fascismo*, era muito difícil fazer poesia naquela altura.
[...]
Nós somos a nossa poesia e isso é uma coisa que nós só temos que agradecer não sei a quem nem a quê. Eu costumo dizer que tenho uma fada madrinha, que é muito relapsa, mas na realidade disse duas coisas: esta menina há-de fazer poesia e esta menina tem olhos azuis. Dois factos importantes para mim.
[...]
A poesia é realmente liberdade livre, como dizia o António.**
[...]
Eu sou extremamente rigorosa.
[...]
A minha poesia tem cheiro, tem cor.
[...]»

«[...]
Costumo dizer que nasci na biblioteca do meu pai. 
[...]
- É erótico o acto de escrever?
É! Sempre erótico. Excepto os poemas, que me dão prazer mas que têm a ver com o lado político e com a resistência fascista.*
[...]»

«fui militante do Partido Comunista Português durante 14 anos»***
«fiz 17 anos de psicanálise»***
Na dita entrevista ao Expresso.

Em resumo, a Maria afigura-se ligeiramente possuída de si, a tender para o obeso. Não me parece difícil gostar mais da poesia dela do que dela.
_______________________________________
* Fascista não é coisa fácil. Ao que um fascista tem de resistir...

** António Ramos Rosa, se faz favor. Que ideia fazia a Maria de quem fosse escutá-la na RTP? Eu próprio, telespectador com cultura muito acima da média, devo dizer que me convenci por momentos de o António ser este.

*** Causa ou consequência?

domingo, 20 de agosto de 2017

Patrícia certa no lugar errado

Que faz esta mulher no estúdio?
Ponham-na nas «frentes activas» e verão se o lume não recua.
Só com «homens no terreno» e «meios aéreos» não vão lá. Disso é que os lavradores gostam. 

Por que espera, ministra Constança, arre!?
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Patrícia Gaspar, da Autoridade Nacional de Protecção Civil:
Hoje, 1 - Acompanhamos com particular destaque as ocorrências activas e os incêndios dominados.
Hoje, 2 - Vento muito forte e três «frentes activas» no «teatro de operações».

Isto é espectáculo, senhores, isto é propaganda, isto é cagança, isto é pornografia.

Para o que der e vier mantenho o manómetro no verde.

sábado, 19 de agosto de 2017

Graduação da sinceridade

Cardápio:
condolências insinceras, condolências pouco sinceras, condolências assim-assim, condolências sinceras, condolências muito sinceras, condolências mais sinceras ainda, condolências retóricas, condolências cínicas, condolências fingidas, condolências festivas, condolências sentidas, condolências hiperbólicas, condolências sem sentido, condolências profundas, condolências minhas, condolências da minha mulher, condolências nossas, condolências da família, condolências à família, condolências de sua majestade, condolências do país, condolências do governo, condolências de coveiro, condolências de palhaço, condolências de papas franciscos, condolências do coração, condolências expressas, condolências apresentadas, condolências enviadas, condolências no livro, condolensias mal escritas, condolências.

«Relativamente à vítima portuguesa eu queria* exprimir, antes do mais, as minhas mais sinceras condolências à sua família.»


E assim sucessivamente.
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* Inesperado imperfeito pretérito indicativo de delicadeza, já que do professor se espera sempre o canónico condicional presente de cartilagineidade: quereria, pois. 

** lo lo al cil le

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

José Sócrates tragicómico*

Em desagravo da peça de 12 páginas, incluindo a primeira e o editorial, no Público de ontem, "Justiça suspeita de gestão danosa na velha PT", o antigo primeiro-ministro José Sócrates preenche a página 47 do Público de hoje com 11 comentários subordinados ao mote "Não vem ao caso", da autoria do juiz brasileiro Sérgio Moro, e termina assim, negrito meu:
«toda a notícia, o editorial e a primeira página não passam de um serviço aos interesses económicos do proprietário, envergonhando o jornalismo decente e honesto.»

Sabido o fadário da convivência de José Sócrates e seus presuntivos capangas com a história, de 2005 para cá, designadammente da RTP, da TVI, da LUSA, do DN e do JN — e tendo por exemplo em atenção o artigo na Visão de 27.Jul.2017, "Como Sócrates quis comprar o Público" ou "Os planos secretos de Vara para calar os media", no Sol de 12.Ago.2017 —, não consigo deixar de sentir na coda «envergonhando o jornalismo decente e honesto»** a ressonância de um dos momentos mais arrebatadores nos guiões de tragicomédia escritos desde o século II antes de Cristo.

Sílvia Caneco, "Como Sócrates quis comprar o Público" | Visão, 27.Jul.2017 [5 páginas]




Mentira, infâmia, perseguição, cabala, injúria, esgoto, difamação maldosa, ignomínia!

Em tempo - 18.Ago.2017
Depois de fechado o verbete "José Sócrates tragicómico" dei com o testemunho de Henrique Monteiro no 'Expresso diário' de 17.Ago.2017, "Sócrates: para que não se esqueça". Não consigo deixar de citar:
«[...] Nunca conheci alguém que fosse simultaneamente tão malcriado, no sentido de ordinário, exigente no sentido de embirrento e censório. Não podia, em consciência, deixar passar, como se viesse de alguém, digamos, normal, aquela referência ao jornalismo decente e honesto.
Eu vi e sei que decência e honestidade não são conceitos muito aprofundados na consciência de José Sócrates.»

Repito-me, para esconjuro de dúvidas: votei no PS de José Sócrates nas legislativas de 2005 e, crédulo de mim!, nas de 2009. Não tendo nunca morrido idiossincraticamente de amores pela criatura, talvez andasse distraído ou, mais certo, não dispusesse então de conhecimento bastante para enxergar o lastimável farsante que José Sócrates hoje se me afigura.  
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* Espécie de sequela de "O engenheiro e os filósofos

** Sobre jornalismo decente e honesto Fernanda Câncio não diria melhor.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Rebranding* do incêndio

Patrícia Gaspar, da Autoridade Nacional de Protecção Civil [ANPC], é incapaz de abandalhar a conversa. Conforme anotei, esmera-se no rigor neurocirúrgico das quantidades. Assim, não espanta que, seguidora das melhores doutrinas, também contabilize feridos em vez de simplesmente os contar. Ainda ontem de manhã, dada a «dimensão mais expressiva das ocorrências, a contabilidade estava a ser feita».
Não se bastando na alta precisão aritmética, a façanhuda Adjunta de Operações Nacional da ANPC emprega tal sofisticação na linguagem que, de um tiro, pôs o país de António Costa, que não quer bombeiros a confundir o povo, nos píncaros do progresso comunicacional. Cada ponto da situação — briefing, diria Sá de Miranda — costurado pela doutora Patrícia é um banho de elegância estilística. Por exemplo, e é só um exemplo, atente-se no lavrador de Louriçal do Campo que «ao final da tarde ganhou contornos de maior complexidade» e «onde temos não só combate mas também as defesas perimétricas dos aglomerados populacionais».
Eia! Que vai ser de nós quando os lavradores chegarem à vizinhança das casas?

Confesso, no entanto, um estranho fenómeno psicossensorial, um aflitivo receio recorrente sempre que, duas vezes ao dia, Patrícia Gaspar vem brifar os fogos: a qualquer momento vão irromper detrás dos estandartes, dos logótipos, das siglas e de todo aquele intimidante aparato heráldico o bigode de Pinochet num canto, o bigode de Estaline noutro, o bigode de Kadhafi noutro e o bigode de Maduro noutro. O que, convenhamos, com crianças ou humanos mais sensíveis na sala assumiria proporção suficientemente avassaladora para, sei lá, obrigar o presidente-arlequim a montar-se de novo no falcão.

Patrícia Gaspar, ontem, no justo instante em que um acto terrorista na SIC lhe dava cabo da protecção.
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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Festas e procissões

ora! Última hora! Última hora! Última hora! Última hora! Última hora! Última h


Ficção, quase.
Corria o presidente-arlequim a toda a brida para Vilar do Torno e Alentém a ver se ajudava a amparar o andor em queda, eis que o chamam por causa de tombo muito maior na pérola do Atlântico. Qual bumerangue alucinado, retorna ao Algarve, saca da primeira gravata preta que encontrou e do primeiro Falcon disponível e toca a voar para o afectuoso abraço a Miguel Albuquerque que, fosse japonês de honra pública, talvez o encontrasse de haraquiri consumado, nisto já o andor do Torno se espatifara e o carvalho do Monte matara 13, com Rui Ochôa sem saber para que ângulo apontar o codaque:
- Ó Presidente, e que fotografo eu agora, o andor ou o carvalho?
- Tudo, Rui, fotografe tudo, tudo! Quero o álbum dos "Dois anos depois" ainda mais vistoso.

Com toda a compreensão pelas perspectivas em presença e independentemente delas, prometo investigar melhor a esotérica correlação do verbo tombar com a susceptibilidade das Senhoras, a da Aparecida e a do Monte, quando lhes fazem festas.

E sempre queria ver, tocasse-lhe a desgraça pela porta ou na pele das suas lindas filhas, se o Plúvio vinha para aqui fazer humor barato a propósito...

Valha-nos Deus na sua infinita bondade e Nossa Senhora no seu desvelo maternal. Amém.
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* Ver Nota 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Idiossincrasia da combustão

Por razões de segurança esta chamada vai ser gravada.
- Boa noite. É dos fogos?
Florestal, fátuo e de santelmo, marque zero; pirotécnico e de artifício, marque umjeitomanso; circo, marque marcelo; outros, markzuckerberg
- Boa noite, o meu nome é hipocorístico mas pode tratar-me por Elisabete Vil de Moinhos sem acento. Em que posso ser-lhe útil?
- Boa noite, Betty, desculpe, por acaso tem uma frente activa que me dispense?
- Vem buscar ou quer que leve a casa?
- Pode ser, obrigado. Já agora, desculpe, quantos operacionais no terreno têm?
- Cerca de 344. Mas se precisar de meios aéreos, podemos fazer uma atençãozinha...
- E lavra bem?
- Desculpe. Lavra quem, o quê?
- O fogo. Pergunto que tal lavra ele.
- Meu caro senhor,
do melhor que há no mercado,
quais charruas, qual tractor,
quais bois, qual arado!?
- Então pode trazer-me um com a frente activa.
- Juntos ou em separado?
- Se, parando, não vier a polícia, pode ser juntos.
- Bombeiras e bombeiros, se quiser, temos uma promoção...
- Foda-se, Betty, não me dilga que também é da iga.
- Quer-me parecer que quis dizer diga que também é da ilga. Em qualquer caso, desculpe, sou apenas simplesmente correcta.
- Politicamente correcta, terá querido dizer.
- Ou isso.
A1 cortada na Mealhada, teatro de operações em curso.


- Sim, quem fala? 
- Betty. Desculpe, desde há bocadinho. Fiquei a pensar... Você por acaso não é o Plúvio?
- Ai o caralho. Como descobriu?
- Pela pronúncia e por como virgula

Psitacismo semântico, propaganda, pornografia, negócio

Fogo em Abrantes, 09/10.Ago.2017

«É verdade, foi um incêndio que começou por volta das seis e um quarto e rapidamente tomou proporções avassaladoras.»

«É verdade, quatrocentos e setenta e oito operacionais que estão no teatro de operações; cento e cinquenta viaturas; tiveram durante o final da tarde três meios aéreos; estão neste momento seis máquinas de rastos»

E a detecção precoce? Que é da guarda florestal? Que é da vigilância?
A gente sabe: filhos de um deus menor. 

Insisto: não sei de labareda grande que não comece por lume pequeno.
Não sejamos ingénuos: o combate é que rende.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Meninas da baixa, jornalismo paroquial

Vivem ambas neste quadradinho de Lisboa, uma há 21 anos, a outra há 12.

Fernanda Câncio não esconde. Di-lo em duas peças:
«O meu bairro foi sempre a Baixa, desde que, miúda, a minha mãe me levava às compras e a lanchar na Brasileira (a da Rua Augusta, não a do Chiado; essa foi minha muito mais tarde). Nos mais de 40 anos que passaram desde esse amor à primeira vista muito mudou nas ruas do meu bairro - onde vivo desde 1996 - nem tudo para melhor.» - DN, 20.Fev.2017
«Na minha rua, um prédio de três andares esteve em 2013 à venda por 400 mil euros» - DN, 31.Jul.2017
Ainda assim, recomendável à prática jornalística o mais honesta possível seria que, sempre que viesse ao tema, informasse o leitor, em rodapé: «Isto interessa-me, moro aqui.»

Bárbara Reis, ex-directora do Público, 2009-2016,  admite-o de raspão:
«Há anos que fotografo e filmo os “autocarros ocasionais”, os open-top e os tuk tuk que sobem e descem a minha rua em Lisboa, entupindo a vida a tudo e todos.» - Público, 09.Jun.2017
Mal o saberíamos não fosse a Câncio ter posto a boca no trombone numa reportagem do DN de 01.Ago.2015, "As crianças no coração de Lisboa":
«Caso dos três filhos da jornalista e directora do Público, Bárbara Reis, 45 anos, desde 2005 a viver na antiga freguesia da Madalena, nome, et pour cause, da filha do meio (10 anos), que tinha meses quando se mudaram. "Na parede da Sé há um reforço inclinado, muito polido. Os meus filhos descobriram aquilo e vão lá escorregar. Uma vez vi uma senhora velhota parada a olhar, com um sorriso. Disse que fazia aquilo quando era criança." O perigo certificado da brincadeira não esmorece o embevecimento. "Os meus filhos têm sorte em crescer no bairro mais bonito de Lisboa. Quando a vemos nos rankings mundiais das cidades mais belas é por causa desta zona. Pelas ruas — ir ao talho é uma experiência bonita, ir à lavandaria, à mercearia, podem-se tornar as coisas simples do dia-a-dia em momentos de grande prazer — e pelas casas, que são magníficas, de espaços abertos, amplos, pés-direitos muito altos. Acredito que viver numa casa bonita potencia a felicidade. E tem-se vida de bairro — tenho amigos novos que têm que ver com morar aqui, fazem-se amizades por gostar de viver aqui — e ao mesmo tempo cosmopolita: vai-se ao teatro a pé, à ópera a pé, à FNAC e também ao cinema, e de qualidade, agora que abriu o Ideal, no Calhariz." Pode-se até ir a pé para o trabalho — caso do marido de Bárbara, o arquitecto Pedro Reis, que tem ateliê no Chiado. E as duas filhas mais velhas, porque os pais fizeram questão de que frequentassem "uma escola do bairro", andaram numa pré-primária IPSS a 200 metros de casa. "A partir de certa altura passaram a ir sozinhas. O Sebastião [agora com 5 anos] já não andou lá porque a escola estava com muitos problemas e fechou." Também há uma escola primária na mesma rua, mas, lamenta Bárbara, "não tem pátio. As crianças têm de brincar no corredor. Há essa falha: é preciso investir numa boa escola primária e pré-primária. Porque há imensas pessoas com crianças aqui. Só num raio de cem metros temos dez amigos com filhos destas idades. E os miúdos gostam muito do bairro, que é óptimo para dar os primeiros passos. Se querem comer um gelado, vão os três sozinhos."»
Dum modo ou doutro, recomendável à prática jornalística o mais honesta possível seria que, sempre que viesse ao tema, a jornalista Bárbara Reis informasse o leitor, em rodapé: «Isto interessa-me, moro aqui.»

É em tais circunstâncias que leio o que uma e outra vêm opinando urbi et orbi, em campanha crescente, sobre gentrificação, alojamento local ou turismo na cidade [de Lisboa, claro!] e não pára de me acudir à camada sub-reptícia do pensamento a seguinte lucubração:
Está bem, abelhinha, nota-se nitidamente que não te move qualquer interesse pessoal no assunto...     


Bárbara Reis no Público

«Medina está a tirar os autocarros gigantes do centro da cidade e começou pelo centro histórico. Eleitoralismo? Não. É respeito pela cidade. O mínimo que se pede a um autarca.»

-na!, Me-di-na!, Me-di-na!, Me-di-na!, Me-di-na!, Me-di-na!, Me-di